2 de janeiro de 2012

a tristeza espreita a minha certeza altiva. ando pelas ruas sem medo do acaso. E o acaso, sem medo de mim, ainda que se aproxime armado, me cumprimenta antes de me desaforar. Eu caminho solta com um respeito incurvado ao invisível, como o deus que sou, pronta na minha inteireza de ser inescapável a mim mesma. a mim só me resta ser o que sou. não há nenhuma possibilidade externa a mim de me ser: só eu nas galáxias respondo o que respondo, só eu sinto o que sinto, só eu posso o que posso, e só eu amo como amo. Gabo-me aos céus a minha boa índole, a minha paz, o meu bem, os meus olhos e a força da minha vontade. Sigo como só eu poderia seguir. No fundo, em casa, quando choro, só eu sei a solução, só eu sei o porquê, e só eu posso construir o futuro. Para além disso, deifico o amor, e como é difícil alcançá-lo, envolvo-me em paquerá-lo até que ceda

(22/09/2011)

11 de dezembro de 2011

Curvo-me, muito além da linha do horizonte. Meu cheiro inebria os meus pensamentos de amor. Que saudade, Luiza! quanto tempo os seus hábitos..! quando tempo o seu equilíbro. Ao longo dos alongamentos, uma sensação nova nos meus músculos antigos, tão sabidos, uma lembrança gostosa. Muita luta são inauguradas às marés dos aniversários. A lua parece uma benção quando tudo está fora de lugar: só ela existe de um tempo em que tinha sido mais tempo. Lavei as 24 horas muitas vezes; encolheu. E a realidade da sensação é na verdade o tempo de mim, que perco. Cada vez mais, mais atitudes requerem menos decisões, mais escolhas requerem menos escolhas, quanto mais queijo, menos queijo. No contrapasso, acumulo de assuntos, esqueço-os, sobe a maresia pelas pernas da minha memória. Por que seria preciso despertar quando todos dormem? Seguir em frente é sempre um desafio.

21 de novembro de 2011

não é da noite que tenho medo. tenho medo da solidão. sinto medo do que acontece quando o medo chega, sinto medo do silêncio. Tenho medo de mim, porque me sinto saudade, me crio expectativas. Sinto medo da diferença entre o silêncio de um só e o silêncio de dois. O medo é a falta de prática. O medo do medo é falta da meditação. Medo de ser feliz.

15 de outubro de 2011

Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Carlos Drummond de Andrade


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa
Paulo Leminsky
Os vincos de sua testa são o abismo da nossa história. A primeira curva surgiu aos 27, desde então há sempre cada vez mais sombra no seu rosto, nas suas impressões, no que ele quer dizer.

11 de outubro de 2011

Seu sutiã rendado coça a base do meu pescoço. Como ela é toda bege, me pergunto se não é do próprio peito a renda, se não é da própria vulva o pudor. Nem as unhas ela pinta de outra cor, eu a perco nos lençóis. O sol a explode, não sei se vem antes a pulverização ou o êxtase. E é essa sua qualidade bege que a impregna em tudo sem eu perceber, quando ela vira pó.
As horas se consomem; será possível que o paraíso está em algum lugar? O que será que o universo pensa a essa hora? Será que decide os destinos que se estendem numa pilha infinita na quina de sua mesa? Onde será que estou no universo das sinergias? Será que nasci na galáxia certa? Nada disso me aflige, o que me aflige é a minha cabeça.

2 de outubro de 2011

não me interessa pessoa alguma
na última instância do meu comboio subterrâneo
me interessa o espaço sideral
a vastidão
e digo de algumas coisas que são tão pequenas que não vejo

não me interessam as expectativas
me interessa o desejo,
mas não me interessa o tesão.
me interessa a curva, o vale, os morros
desse seu corpo estendido

27 de setembro de 2011

giro. Os dias escolhem-se entre si, sem qualquer consideração da minha rotina, do meu equilíbrio, da minha paz. Minha capacidade de preservar o futuro em seu lugar diminui à medida que o tempo fecha: é difícil ignorar a meteorologia sentimental. Em meio à ascensão do frio, à mercê da autoregulação do corpo, desentendida do quê, essencialmente nua e vestida, breve, os dias são surpresas ao meu temperamento escondido. O que me agrada, o que desagrada, é uma consideração de intensidade. O que me interessa, o que deixa, é uma questão de paciência se não é de sociabilidade. A sanidade divide minha mente em duas, a que para e a que continua. Dentro de mim é um sem tempo, sem som. Dentro de mim, só dentro de mim, se entendem os meus desejos, as minhas famas, se entendem os meus gostos e os meus nãos. Dentro de mim as pessoas me chegam sem sugestões, sem dúvidas, sem memória. Estão ocupadas em ocupar, e em calar-se. Dentro de mim, nos ventos de areia, me acreditam.

21 de agosto de 2011

não sei o que dizem as pessoas sobre o amor | do amor sobre mim quem digo sou eu