27 de maio de 2017

Não sei o que dizer. A calmaria não vem. O imenso espaço deste vazio construído na sua presença se mantém vivo mesmo quando você não está. A presença do nosso relacionamento é a ausência de uma porção de satisfações que hoje julgo secundárias. Vazios largos por partes de mim estão estarrecidos neste silêncio com o qual não há o que fazer. Esta solidão escolhida apenas torna claro tudo o que varri para longe durante a sua presença oca. E agora, nos desejos que para você são sempre os mesmos, as distrações de amigos e entorpecentes será suficiente para o fim da tarde, o início do dia de amanhã. Amanhã, sem mais, fingindo que outro momento acontece, você aparecerá para o final de semana, novo, como se ontem fosse natural para mim também. Mas ontem, que acontece hoje, acontecerá muitas outras vezes. O meu desejo se vê excesso.

4 de outubro de 2016

Sentimentos mil, minha máquina, de escrever. A vida inventa sensações incríveis. Constrói teias, nutre rios que, quem diria! correm. Natureza complexa, esta floresta do viver entre os homens e entre as mulheres. Desejo caudaloso, trilhas.... profundos sentimentos, amores mil, liberdades, sonhos, rascunhos imensos de um gostar inocente, a vida a construir, imagine qual liberdade pode ser maior que amar? Paradoxo de viver.

Terreno triste, passante, força a viver. Borbulha, borbulha, borbulha. Um coração, muitos esforços e o desejo infinito de ser. Viver, solta, bicho, grande, amante de amante que ama viver. Amor, amar, fazer.
 Vive sonho, vive vontade de fazer! Terreno grande, vasto encanto, desejo de ser. Poder de coração, amar viver; amar, de pouco em pouco, único jeito de sobreviver.

23 de maio de 2016

Sonhar é um jeito... Tenho um vício, escandaloso, de desejo. Nada tem que ver com a paz, com o clima, com a estação, com os planos. Desejo simplesmente por existir. Nenhuma razão conduz à absoluta segurança de desejar; simples toque da vontade é como suor, que prega, que gela a pele na brisa mais breve, mais sem intenção... Desejo pelo desejar. Suspiro como uma regulação da respiração, do viver. Desejo, não nego, faço o que puder.

19 de outubro de 2015

O ponto de exclamação se encurva, e então lhe tiram a foto. Tanta posição para se tirar, estivera horas a imaginar se alguém lhe via esboçando as melhores posturas, os olhares mais misteriosos, os ares mais interessantes. E na exata hora que lhe solta o botão do meio da camisa, batem-lhe a foto. Viu o flash e, enfim, resignado com a sorte, esqueceu-lhe - motivo pouco para perder o dia. Passa-se um dia, dois, um terceiro, e como quem nada procura, depara-se com a foto. Vê-se, em total, uma interrogação. O olhar do outro congelou em dúvida a sua aparência. Olha-se então no espelho, investiga-se, tem a sensação de que continua o mesmo, mas a dúvida da forma se torna o conteúdo, e então a exclamação principia a duvidar. Reflete, no vazio, o quê. Busca intensamente o sentido. Não afirma, questiona. A dúvida da pertinência da dúvida absorve-a de tal maneira que a razão de ser da questão se torna metafísica, nada prática. Irrefreáveis jogos mentais; nunca, afinal, fora boa de questionar. Se não mudara na estrutura, isto estava concluído, como poderia uma exclamação se confundir com uma interrogação?! Confundia-se; e, ademais, lá estava a foto. A camisa, entretanto, continuava com o botão do meio, já fechado, bem posta em seu armário.

20 de julho de 2015

Acordo. Sinto o gosto inconfundível do seu sexo na minha língua, a ponto de confundir a clareza de que você não está. Vasculho os seus vícios pela casa, o café pronto, uma meia perdida, a roupa íntima na minha cama, não encontro nenhum. Estive transando a noite inteira com outras pessoas no meu sonho de ação, fuga e erotismo, e acordo com seu gosto - nada mais ridículo nem mais provocador para um desejo que só cresce. A julgar pela bagunça da casa, os amantes estiveram todos aqui.

25 de junho de 2015

O seu jeito revoluciona a minha mística; o meu silêncio você fala; as minhas expressões você engole. Em todo o meu corpo se revoluciona, parte essencial de mim, o meu frenesi infantil de desejos mil, os meus olhares inquietos que procuram nas ruas diariamente vazões, vontades, complementos fugazes da minha ambição plenamente vã, e pura. É puro o meu desejo total. Vício de vontade. Queima da combustão. Mas você entorta a minha ousadia, dobra minha fuga, afugenta minha distração. O mistério da sua sensibilidade confunde as minhas portas de saída, esgota a minha criatividade à toa a voar. Inteiro, um jeito liberto de não ter medo, um jeito calmo de não ter medo, quase uma resignação, mas uma intenção - muito clara, de mim. Nisso o meu fogo se canaliza, a minha distração desestabiliza e os sentidos se envolvem de você. Contra o mapa de orientação, mas plenamente a favor da bússola, o ponteiro treme enquanto acusa a sua direção.

30 de março de 2015

A sombra da sua forma, na curva escura da memória, é uma provocação irresistível. O mistério das suas horas é fonte de ilusão e do despertar da consciência irresponsável das minhas vontades vãs. Sou feita também de imaginação. Gosto, por ser, do desenho de desejos e confusões corporais maravilhosas, descomprometidas com o meu projeto de vida. Sou, dentre tudo isso, desejos de ser, brincadeiras de estar, vontades de novidades e de perigos mil. Riscos de vaidade, prazer de solidão no mar vasto do meu voluntarismo. Desejos à toa, para passar a hora da criatividade, para encontrar a volição da caneta, para ser, pode-se pensar, sem estar sendo... mas estar sendo por não pensar em ser. O caminho do ônibus, o chute de uma pedra na calçada, uma pessoa parecida, ou completamente diferente, uma chuva fora de hora ou muito menos que isso são convites de lirismo, com as personagens de sempre, para atiçar o ócio e os sentidos.

9 de dezembro de 2014

Diria Manuel*, se o tivesse dito
Vejo que não podes entender o que sinto
Por isso lhe digo o que vejo
E ao veres o que olho
Podes entender meu desejo.



* Manuel Bandeira

3 de dezembro de 2014

O amor me aconselha as maiores loucuras que sinto. Aconselha-me a visão mais nítida por cima da crista magnífica da onda da felicidade. Ousa-me a usar-me feliz, inteira, aventureira e louca, boba, envolvida em envolver-se ao redor da lua brilhante e solta, em meio aos teus versos ocasionais, às ocasiões reais, as lombadas mais gentis que a vida poderia se deixar dar. Sempre em majestosa forma, alterosa hora a de te ter em paz.

10 de novembro de 2014

Suspense nas águas do mar. Bóia subaquática a alga discreta; não flutua, mas bóia. Aguarda a indecisão do oceano; fecha os olhos a dominar a ausência de luz. Espera. Ofusca a expectativa necessária, será que algo virá? Vem a onda, como as outras, a questionar o espaço em si e a essência do movimento: de que difere a onda da ondulação do mar? Passa um saco plástico. Ou será uma água viva? Passa. À espera, um ponto de luz clareia: alguma coisa ao fundo repercute o mistério do sol - deve estar no raso. O raso chega. A areia não decide com a água, não decide com a pedra, não decide com concha, não decide com a caravela quem vai e quem fica. Por fim, a caravela envolvida na alga muda o propósito da alga.