26 de dezembro de 2013

Com o som de um suspiro, irrompeu Madalena pela porta fechada do quarto. Rafael dormia, de bruços, sobre seus metro e oitenta e sete com a mão sob o corpo, a entender que a repousava à proteção da sua virilidade agora inconsciente. O objetivo de adentrar assim o quarto no auge do silêncio da noite escapava-lhe à intenção renovada de inspecionar o seu corpo inerte na cama de madeira. O seu pé abraçava a cama pendido pelo fim do colchão, parecendo, entretanto, muito desperto a dar pequenas estremecidas de sonho. Sem destino, Madalena caminhava ao redor da cama sem muito o perceber, muito embora descrevesse estratégias a cada ângulo novo de fazer exatamente não sabia o quê. Rafael, a inspirar, arquejava costas que ela começava a desejar, e em enlaces de breu imaginava onde roçava, no mistério, o bico do seu peito na sua pele adormecida. Espantou-se, num instante inteiro, com a pomada sobre a cômoda, lembrando ser ela o alvo daquela visita imprevista às horas da madrugada. Pensou, entretanto, retirar seus roxos com outros roxos, com o roçar de Rafael sobre os seus pêlos espertos, sobre a sua pele suave e o desconhecimento desta atração fatal que se desenhava entre segundos na escuridão do desejo estendido. Madalena costurava em suas pernas as ousadias indescobertas de vinte e sete anos de si mesma.

12 de dezembro de 2013

Dentre todas as peças que movimentava em seu jogo de memórias, Laura mantinha-se particularmente atenta ao hipopótamo. Tinha muito boa memória visual, e seu jeito de virar as peças determinava a maneira como voltaria a elas, de tal modo que não apenas o desenho, mas seu jeito de relacionar-se com ele caracterizava a forma como muito em breve revelaria suas duas faces para lhe tirar do jogo. O hipopótamo, entretanto, possuía algum traço que a surpreendia sempre, de tal maneira que virava sempre a peça com um trejeito novo que nunca podia reconhecer. Todas as vezes era uma nova comoção, uma nova ansiedade, um novo desejo, todas as vezes supreendia-se de encontrá-lo, inutilizando suas todas estratégias muito bem montadas para não estar vulnerável. Tirava-o de cena, por fim, quando quase não sobravam outros pares para imaginar, às vezes por puro acaso, outras quando sua superioridade já era tão evidente diante de outras peças inexpressivas que era preciso encará-lo seguramente, expô-lo, e fatalmente afastá-lo sabendo que ainda não indentificava aquilo que o distinguia, muito embora sentisse aquilo que o não igualava.

10 de dezembro de 2013

Sobre a praia sopra um vento sem final. Segue, invisível, infinito, indivisível, moreno, meio quente meio frio, sobre as vagas sensações abrandadas pelo calor do sol. Sob o sol de dezembro tudo turva à linha do horizonte, o calor desenha miragens a distância e o desejo também. Sob o sol de dezembro, tudo está preguento, mole, grudado, um no outro, intenções indefinidas. O céu se desfaz em chuva à alegria das altas temperaturas, a insustentável leveza de um descanso a quarenta graus. Lembro-me perfeitamente do que são as férias, muito embora hoje a vida apresente uma nova versão delas, um tanto quanto menos eternas. Ainda, hoje penso mais coisas à vista do mar. Ousadias, desejos, mistérios, conquistas, amplas terras desprotegidas passeiam, ou correm, margeando as marolas, definindo o corpo e a paisagem urbana do oceano. As barracas e os guarda-sóis, de tão multiplicados, parecem naturais ao desejo de molhar as pernas de água e sal. Siris assustados! Moças em pé, sentadas, deitadas, de frente, de costas, com pernas cruzadas, descruzadas, rapazes deitados, em pé, de frente, de costas, sentados, com pernas cruzadas, descruzadas... crianças que não param! Tantos olhos as protegem de absolutamente tudo a que elas oferecem perigo. A vida, quanta, pode dar ali a chance de acontecer.

2 de dezembro de 2013

Eu imagino

Você caminha sem direção em direção a uma das portas. Pelo tempo do chão posso observar o seu corpo caminhar folgado sobre si mesmo, e um jogo lento do seu quadril revela os seus planos ousados. Sem se perceber, você avança o vão. Eu avanço. Até o pé da mesa parece um percurso suave sobre o assoalho de madeira. Encosto no pé da mesa ou ele em mim - vê pela porta a mesma coisa que eu vejo e também se equilibra. Eu equilibro. Sigo parcimoniosamente sobre a minha imprecaução, vou lentamente subindo aos térmicos as cervejas, com calma, raspando sempre no gelo com algum barulho, que dá nas articulações e na minha pele a sensação ficcional da textura rasgante. Nos arredores, respirante e lenta, discretamente a disfarçar sua atenção atenta, você mexe os braços nas coisas. Fecho os olhos ao ar do refrigerador e engulo todos estes pensamentos, que por algum motivo descem mais do que ao estômago, direto ao interno do meu quadril, implodindo os meus planos a ousar.

22 de novembro de 2013

Lua!, desde quando - eu lhe dizia - fazes assim? Em quase tom de raiva, interno tom de amor profundo, pôs-se a garota sentada sem opções junto ao meio-fio. O fio havia-se cortado em uma linha de poste já tão alta, assim devendo ser como aquelas onde se penduram as bolotas que avisam aos helicópteros que o céu não está seguro. Havia escrito uma carta longuíssima de muito poucas palavras, dobrou num formato que voava, prendeu linha e carretel e pôs-se atrás dela, tendo-a observado por muito subir aos céus, donde nunca descia. O nó que fazia a junção das suas sobrancelhas consternadas era o mesmo sulco que fazia o cotovelo no joelho, indignados. Passou um rapazote, mais moço, que vendo o carretel em desuso perguntou-lhe se podia ser seu. Pode, mas as pipas nem sobem muito. Levou o carretel e com muito apreço prendeu-o ao corpo de uma pipa muito recém feita que mantinha em casa. Havia nela escrito uma carta endereçada ao sol, e ao vê-lo subir aos céus donde nunca descia numa bela manhã, armou-se de empiná-la até onde fosse. Foi empinando, empinando, até que ela era só um pontinho bem alto. A moça, passando ali, sentou-se do lado dele a desfiar conversas curiosas e desinteressadas até que veio descendo a linha do carretel frouxinha. Ele sentindo o fio leve, levantou-se de sobressalto, olhou o sol já quente, como nunca deixava de ser, e veio enrolando apressado a corda. Eu lhe disse, a moça, que não sobem tanto e logo quando pensamos que já quase lá estão, desistem. Não!, ela chegou! Veja a pontinha queimada! Verdade, o nylon derretido e o rapaz satisfeito foram caminhando a caminho de casa seguidos da moça, muda até que encucou por que será que a dela não tinha chegado. O menino olhou-a, deu-lhe o carretel de volta, disse que tinha que atrai-la, na minha fiz uma aleluia. Corri direto pra casa, arquitetando construir uma pipa com buraco praquele coelho não me resistir.
Segue a solidão o curso de sua novela. Tranquila com o espaço que confere a si mesma, observa entretanto como este mesmo lânguido espaço vai-se transformando numa coisa à parte, assume sua postura diante do universo, e perdura a despeito das intenções solitárias de terminarem-se. Sem a companhia, quê seria da solidão? Que opções encontraria de ser-se? Como do mesmo modo é a ausência quem define a presença, também a solidão mantém seus romances com as companhias que pode ser que venha a ter, que poderia... Estas contudo esvaziadas, quê lhe resta de si mesma? Em que momento construir-se, estar-se e ser tercerizou-se, enfim? Em que momento ao optar já não optava, ao ser, já nem era. Olhando-se no espelho, tás cinza, a descobrir se as combinações de branco e preto encontram-se de fato em cinquenta por cento cinquenta por cento, ou afinal quem é? Observa-se. Perde-se o objetivo, absorvido por qualquer neurônio esfomeado, e em seu lugar sobrepõe-se outra questão. Toca-se, mão na mão, no espelho. Enamoramento impossível. Muito embora reconheça as próprias formas, compreenda retroativamente os comentários que por aí ouviu de si, e se veja, não consegue tocar-se ao se ver como outra. Apenas se se observar de cima, quando o rosto não vê o pescoço, quando nem o próprio rosto se vê, apenas se for quem é é que consegue sentir na pele a própria pele. E assim caminha, sorrateira e duvidosa, a tentar entender donde vem entender

14 de novembro de 2013

NGC 1097 reluz a 45 milhões de anos-luz daqui, espiralada e tonta, independente galáxia nos céus do sul, mergulhada na constelação de Fornax. Lá longe, será que esbarra a consciência que perco todos os dias por força de tornar evidentes apenas as nebulosas das minhas sensações, ao invés da minha razão humana? Ou será que a própria galáxia, vista assim, de um jeito que ela mesma não se vê, inventa o retrato geral de sua situação? Será que um tal espelho, as ousadias do telescópio Hubble, não fazem imaginar aos nossos olhos a bidimensionalidade do que não sabemos? De todo modo, o giro confuso de NGC 1097 produz nas minhas perspectivas a incredulidade do seu desenho exageradamente universal. Fico eu girando também, contida no maciço buraco negro escondido no centro, bem no meio da afetividade exagerada que a sua ilusão causa. Enigmática, como lhe chamam os astrofísicos, confundo do que dizem ao flutuar, inevitável na inércia espacial, em direção àquela outra, num paralelo universal da forma que eu não deveria fazer. Como pode a percepção enganar-se entre gramaturas tão diferentes? É a ilusão de a textura da galáxia poder parecer com a sua pele adimensional que traz uma coisa à outra.
Voa o pensamento. Como mãe não, mas como amante convencional tento dizer-lhe para onde deve ir, onde deve ficar, o que não fazer, de que jeito me gostar. Segue o pensamento... sem ordens nem respeito conduz-me mais uma vez às instâncias que deixo esquecer; sendo duas, observo-o a descobrir-se em paragens que eu mesma já conheço, trejeitos seus - de você - tão atraentes em cujas armadilhas já caí com outras partes de mim. Porém ele segue, infantil, deleitado em tantas coisas que julga novidades, inventa desejos, e quando por alguma viela se depara com aqueles já maduros que foram um tanto mais adiante no caminho, intimida-se, bem faz ele, recua suave, tentando-se impercebido, rumando a novos desafios. Vai pensando e eu deixo-o pensar, porque esta é sua função e ele é tão moço, ainda tantas coisas lhe provarão como é imaturo, como está errado, como faz alvoroço onde poderia apenas observar. Constante criança, birrenta com as outras, revoltada em si para provar a revolta, insistente para provar a insistência, para ser chata. Leniente consigo mesmo, deixa-se demorar a aprender, e eu deixo-o, porque ele é assim.

10 de novembro de 2013

Agora você já foi. Isso digo porque, me pondo em batalha, se perder eu é que ganho. Você sabe, e eu te olho, para não deixar a dúvida te misturar as ideias bestas. Danço, sim, os seus poros. Quero-te, fugaz!, para inventar novas formas de você querer. Você quer. O que te faz de difícil é uma artimanha que vou deixar você fazer, pode fazer. Estou cedida, você sabe, até quando eu atacar. Pois aqui valerá a briga de um desejo erótico e pessoal,
Não sou eu que escolho, vês, a zona que tu faz. Não te permito nada, ai se você soubesse. Não te dou nenhum aval. E mexes, estás me remexendo, vejo que encosta, gostosa, suas costas na almofada a me ver passar a noite     em claro. Vês-me, então veja. Vai lotar a esplanada das suas misteriosidades. Pirarás o desejo noite adentro, pode me desgostar. Eu te arranho, e desejo, até mudares de ideia.

6 de novembro de 2013

Eu ouço, reescuto, o que você diz, o que você faz, a simplicidade da curva esgotando-se em si mesma. Eu rascunho, rabisco, desdecoro e surpreendo, em voltas incontroláveis, os 360º de corpo que você tem. Arrisco o padrão do lançamento, vejo-me enfurnada na boca do canhão, e rindo! do que não sei ao lhe observar pelo buraco negro por onde sairei a toda prova, em segundos, vários, quando o ambiente externo esquentar minha fagulha.

27 de outubro de 2013

Por ela ser alta, não consigo fazer mistério do meu olhar que lhe procura; lá em cima torna-se evidente a minha busca. Na linha reta, dou de frente com suas saboneteiras. Belas saboneteiras; juntam em dois montes de cálcio toda a intenção de descer à depressão vulnerável que lhe apresenta o pescoço. O pescoço, entretanto, é um passo mais à frente; sou uma moça tradicionalista.

Eu quero subir às curvas da intenção do seu rosto até descobrir que prazer ela esconde entre as maçãs e a menção do sorriso. Quero olhá-la para agradar meus olhos e a minha incansável imaginação... E neste intuito subo devagar os degraus da sua traqueia, certeira de que não me percebem; confundo meu destino entre o parapeito do queixo, o descortinado do seu cabelo e a opção de começar pela orelha. Começo desde já a me insinuar para mim mesma, faço rodeios, enceno jeitos, mexo o corpo e não percebo: eu toda vou acontecendo em sua direção sem me esperar. Mas de todo jeito acredito-me plenamente camuflada. Prega-me subitamente uma força supranatural; alguma parte de mim vê algo que meus olhos não enxergam, afinal à sua visão estou de fato mais perdida que cega em tiroteio. E este puxar que me atrai de dentro para fora carrega-me arrastada em direção à consciência, as imaginações todas põem-se a divertir-se de mim, eu mesma sem mais armas estou entregue à graça da minha nudez desvelada... Ainda num último suspiro de tolice, rumo aos seus cílios como se pudesse enganar a rota. Mas o mistério que eles enfeitam é tão voluptuoso que não encontro motivos para não ceder às contrações involuntárias que transformam o seu desarmar-me em um sorriso de autosatisfação.

23 de outubro de 2013

Retiro outras roupas, enfio o meu próprio puro risco. Não tenho a menor intenção de não ser eu. Sigo longa e ondulante, pareço vento, produzo na paisagem o assobio que a onda faz se esfregando entre uma matéria e outra. Esfrego-me sem evitar nem poder toda a mulher que a mulher em mim me fez. Estendo os meus horizontes inconsistentes até que a consciência consista em insistir em não saber. O que custa aos meus poucos anos arriscar?

22 de outubro de 2013

Não há prosa que rasgue na angulação que eu quero. As horas caminham-se com o supremo silêncio do mistério. O dia inteiro desconfia-se. Não posso dizer, nem de longe nem de muito perto do espelho, que passei incólume diante das inquietações imprecisas daquilo que não faço ideia. Estive, tantas horas, exatamente habitada e espaçada como o espaço entre as paredes da minha casa. Inventei ocupações, não pude acreditar em nenhuma. Tudo não foi nada; um dia inteiro prova que para existir basta estar existindo. O que me aguarda no canto da curva?, não arrisco a menor ideia.

9 de outubro de 2013

Estava há três horas com os olhos através da janela. Num suplício por calmaria, estagnara o corpo imaginando que a mente seguiria o mesmo ritmo, seguiu. Era contudo, não a mente que o sacudia violentamente molécula por molécula, mas o estômago, que nem pensamento tem. Não tem? Pensa. Chovia leve e congelava-se ao seu redor. Mexeu o dedo mindinho da mão direita com tanta sutileza que não sabia se havia mexido. O mexer, entretanto sabia-o muito bem, era reflexo muscular dos movimentos de ontem, que ainda hoje encenavam o desejo no imenso espaço aparentemente oco entre as costelas e o estômago. Seria o estômago, seria o diafragma desregulado? Seria. Tomaram chuva e ficaram por muito na sensação dos pingos, estando gripados por artifício da estupefação. Chovera bem em cima do diafragma e do estômago. Este último, bem habituado a não saber nadar, soluçava ainda. Mexeu a perna esquerda. Esta sim, reflexo do incômodo, ajustava o batente melhor no calcanhar, para assim permanecer se fitando na janela porquanto o corpo suportasse pensar sem pensar, sentir sem sentir, estar sem estar. Começou pelo pé da barriga uma fileira de tremor extensa, chegava quase às costas nos dois lados, e por então perturbar o que nas mulheres se chamava de cintura, imaginou-se violentamente feminino. Seguiu suas sensações até o estranho fingimento de um espaço vazio dentro de si onde poderia colocar o próprio pênis, e com agrado imaginou-se sentindo o que fazia às outras. Não era mau, não, ser mulher; não poderia ser ruim especialmente porque não era de fato. Sabia-as com a atenção de quem as deseja apenas pelo prazer de desejá-las e de causar nelas desejo. Quando via-o, contudo, por muitas vezes extremamente mais total do que seu desejo de despertá-lo, fugia, acuado com a força que deveria ser fazer apaixonar uma mulher. Nunca tinha acontecido, ao menos não que soubesse e definitivamente não propositalmente. Tinha medo de tornar-se refém dos mistéros inventivos e temporários de uma mulher tonta de vontades. Tinha medo de ali permanecer como aqui permanecia, imóvel longas horas, imaginando sem imaginar, viajando sem viajar, sentindo, definitivamente sentindo, muito embora sem sentir.

Tudo isso não lhe ocorria. Ocorria-lhe uma sensação suspensa entre o espaço da pele e o fim dos pêlos da superfície; entre o contato com a cadeira e o espaço intransponível dos seus elétrons e dos dela; entre o vento e a percepção certeira e decidida de um sopro, extremamente pessoal, que se fosse a brisa era ela mesma então quem judiava seu pescoço em plena terça-feira.

5 de outubro de 2013

Ouço-os comentar no apartamento ao lado como o envolvimento foi uma farsa. Não há saída para o fato de ele não prestar e ela ser infantil. Como não se pode ter destino este amor que na verdade se enganava todos os dias da possibilidade da eternidade. Deste relacionamento que por muito pouco não encontrou no papel passado a dissimulação da calmaria. Pois melhor ter sido assim, melhor ele fora da vida, melhor ele perdido, escondido, tanto faz, melhor fora dos olhos, envenenando vida alheia, sendo o homem sem caráter que a vida o fez. E melhor ela dar no pé mesmo, sumir de sua vida, melhor ela não dar as caras essa mulher infantil com quem quero tanto gritar e seguro, porque eu não sei, e quando a voz grita é porque não pude dizer de outro jeito. O espetáculo está armado no prédio de kits. As paredes são finas e o próprio envolvimento já nem tem mais um triz por onde estar. Todos nós estamos sabendo que não há mais futuro. Capítulos imprevisíveis deste desterro pipocam noite adentro, ou numa tarde qualquer. Todos os dias agora inauguram uma fúria nova. Ela acorda e escovar os dentes tornou-se algo inteiramente novo, o espelho imóvel irrita a insônia e o desaconchego. Encontrar uma cueca no meio da roupa para lavar! PORRA! Se for a dele, aí é mesmo o fim. Então inventa milhares de homens para esquecer seu jeito de transar e de lhe dizer coisas gostosas. Mas é uma merda, o sexo casual acaba com a casualidade do sofrimento, tudo parece um grande plano astral de miséria e lástima. Ele, ao acordar, gargareja o café e toma a água com sal. Cospe tudo, lembra dela, engole. Pensa na porra que não é dele, acha uma merda. Inventa mil mulheres, e supera a separação socialmente. Mas em casa, essa casa fria que não deveria existir, as horas são longas, os programas de tv são péssimos, o domingo deixou de ser um dia de descanso. Bem queria ele visitá-la para alguma coisa que não sabe o quê, mas ao chegar, violência!, e ele quer ir de novo sofrer sozinho. Como é mau buscar alento com o dono da faca.

4 de outubro de 2013

Imagino longas horas. Seus olhos, será que mentem, que falam a verdade? Imagino muito, longo, e mesmo assim não sonho, a estupidez inconsciente opõe-se a me dar o prazer das suas pernas na minha mão, da curva da sua barriga, para cima ou para o lado, do dorso maleável das suas costas entretidas em si mesmas. Vou-lhe desejando sem lhe levar a sério, sem seriamente levar o desejo.

30 de setembro de 2013

Eu tenho um certo pudor do proibido. E foi subindo em mim qualquer coisa que proibia a sua sorrateira ascensão por onde eu não poderia provar que via você pelos cantos. Então subiste, 'que eu podia fazer, aqui estou, fazendo isto. Não posso ousar que por muros não ousarei subir que já lhe tenha avisado o perigo. O lance é bem esse, eu subo vou subindo, se cair de onde estou, subiu porque a visão de baixo ia valendo a pena, se é que bem entende que embaixo também já desci do salto, pronta a defender qualquer ideia que seja minha. Ouso, log(ic)o, para aprender a ousar ousando.

26 de setembro de 2013

O coração pulsa, mas falha uma batida. Quase arrebenta o peito que por fora endurece. Eu penso em você porque você foi feita para isso, muito embora desconheça a força de se ver sem o espelho. Você violenta uma série de desejos que sem você não seriam violentados assim. Arranha na saída poros afora a sensação desalentadora de lhe olhar sem opção. Não sou eu que lhe vejo, que lhe busco, são meus olhos estúpidos que se tivessem todo o resto do organismo saberiam por completo a sensação que provocas. Em te querer, não te querer, ainda estou confusa em lhe olhar. Não cheguei a desejar o que minhas mãos são capazes de tocar, existe um infinito espaço que você deixa no ar quando está que ainda precisa estar curioso na minha presença. Encantar uma mulher acontece no fino vácuo ao seu redor. É preciso - às vezes imagino - não imaginá-la. É preciso, às vezes estratejo, não estratejá-la. É preciso, quase sempre me pego, não apegar-se a nada. Não desejar, pouco querer, não buscar. É preciso permitir ao desejo de tê-la não se completar, para que ela venha revoltosa e resoluta ensinar que sem ela nada com ela pode.

25 de setembro de 2013

Entendo o que queres dizer, muito embora rejeito o que me dizes; não é o que está nas palavras, mas nos gestos da sua boca. Entendo que lá dentro exista um coração... Mas eu mesma me calo, não há diálogo algum que saiba externalizar o que existe em mim, em mim apenas eu existo. O que posso dar-lhe, além de mim, que é o que já dou? Nada, muito pouco a mais... e não. Se me esforço, se vou a outro lugar, para onde fui, o que quis me dar? Não sei. Fujo ou fico? Passam as horas... Enquanto decido que nada há a decidir, a necessidade da decisão observa-me do ônibus ao lado... Brasília sua, e eu muda. Em instantes, parece que sou o polo positivo para tanta atração. O que fazer? Quanto medo há de medo não haver... Envolvida em tantos pensamentos de não pensar, em tantos sentimentos de não sentir, em tantos lugares de não estar e em tantas instâncias de persistir, deixo, vago, estou por existir.


23 de setembro de 2013

Antes de chegar até mim, o reconhecimento do que você quer dizer se perde em algumas das opções do que imaginei que dirias... Não entendo nada, você é puro mistério. Tanta evidência confunde o jogo da minha dúvida, que por fim onde está? Está, do mesmo modo como se percebe em mim que nada do que lhe vejo és exatamente. Troco todas as bolas que joguei em malabares. Nenhuma brincadeira alcança quão leviana sou neste momento. Nenhum leviano entende o que eu quero dizer. Eu, então, desatenta tão longo, não faço a menor ideia como suas formas se encaixam em suas ideias, como suas ideias encaixam nos seus gestos, seus gestos nas suas formas. Vãs vezes sinto tanta coisa que não falo, tanta coisa que não sinto, tanta coisa que se dissesse, o que teria dito? Passa o tempo largo no meu pensamento. Estendem-se as horas, estende-se o vento, perdendo nos fios emaranhados a imansidão do passamento.
Rejeito a baderna; tal como estou, já se encontra violenta a onda de existências... minhas! Ser tantas ao mesmo tempo. Desejo e sou tantas coisas simultaneamente que por vezes escolho qual de mim entrará na ação que transcorre - e observo, risonha, os resultados daquela de mim, desesperada eu que precisa acontecer sobre as outras. Sem observar, vivo, vou vivendo, quando vi já estou, e todas as decisões esbarram na continuidade da minha vida em ser eu. Nada que eu faça escapa à percepção última de que aqui estou, agindo, sendo e construindo independentemente da minha força pessoal em seguir com meus planos - a força acontece do mesmo modo como a vida. Viver e ser constituem a mesma coisa sendo contudo imensamente diferentes... Como já disse, diversas possibilidades lógicas existem apenas logicamente, equações matemáticas possíveis que nunca verão a luz do dia - há mais entre o céu e a terra do que julga a leviana ciência exata.

21 de setembro de 2013

Percebo como você ainda existe na bagunça de mim. Quantos rascunhos encontro da sua existência tão aproximada da força do meu amor. Com tanto êxito te quis!, que êxito, se amar morreu de morrer de se dar, e dar ser amar, tão pleno é o horizonte quando ir já é chegar. Amei-te este amor que dura, se esparrama, em longos lastros felizes da construção da sua leveza, louca leveza em mim.

20 de setembro de 2013

16 de setembro de 2013

Medo, é o que se diz, nome do receio não sei de quem de alguma coisa que, se não se pode dizer que acontece, é como se acontecesse por estar sempre para acontecer. Medo se entitula, desce o rótulo, pedra pesada!, brevidade do interesse em entender, bem se sabe que entender é tão longo. Medo se entitula, se conclama, passeia brisante sobre as expectativas intangíveis; será que é medo de o medo acontecer? Medo: espaço vazio de ansiedade, plenamente abstrata, sobre tudo aquilo que pode ser que venha a ser. Medo, a desnecessária preocupação de calcular as possibilidades. Viver o que não aconteceu.

13 de setembro de 2013

Existe mistério em pensá-la pois eu mesma limito o prazer de imaginá-la inteira nua. Não faço, até hoje, a menor imaginação sobre seus seios, o interior das suas coxas, mesmo as curvas explícitas das suas panturrilhas pelo lado de fora. Eu não desejo pensar nada sobre os seus contornos imateriais pois a minha mente revela os maiores absurdos sobre o indescoberto prazer da sua respiração total. Mesmo o desejo absoluto das suas pestanas duvidosas não ilumina na minha mente os caminhos do erro imaginado. Nem quando o seu sorriso não deixa dúvidas do prazer de conceber o perigo, eu não ouso me permitir o fim do limite já antes do início.
Quero-o, sim, mas preciso esticar o prazer até morrer de não tocá-lo, esgotar de não dizer, enlouquecer de ser eu. Quero-o até perceber do que se enlaça em mim, travestido de que, mentiroso, desejoso do que exatamente de si mesmo. Quero-o até que duvide estar pensando, que redunde no mesmo engano de não haver mais nenhum. Quero-o muito, e simples, aspero e áspero, domador do acaso, mesmo que não me beije pelo medo do sim.


10 de setembro de 2013

É o dia que surge. Não aguenta esconder as suas possibilidades. Enquanto eu alongo a coluna pescoço acima, ele elabora todos os deslises que poderei escorregar ao seu longo. Abro os olhos a partir do desdém engraçado da sobrancelha que se ergue autônoma, achando graça de eu imaginar as possibilidades de perigo espalhadas pela rua. Questiono-me, quase, se será que as imagino se ao fim de fato aparecem? Crio-as apenas porque eu sou eu, e as vivo; fora isso, são elas que vão existindo, que vão me enxergando, que me buscam sem me buscar pela atração do desejo, malicioso desejo, que se mostrando entre nós muito rapidamente se esconde, deixando cara a cara eu, você e o resto do universo.

30 de agosto de 2013

A viagem chega... antes do vôo. O subsolo do céu é aqui; e aqui, por modo de profissão, orientação vocacional, sobrevôo minha cidade antes de pausar sua vida em mim. Viajo... vou longe, volto para casa, dispo anos a menos, tantos quanto permitia a criatividade de tanto primo e prima junto imaginar altas colinas sobre as sacas de café do vô

28 de agosto de 2013

lá estava ela, realmente, mas nada mais. Eu devia parar de querer qualquer coisa com todo mundo, penso, sem pensar de fato em demasia. Penso que, bem, ela não me quer, como posso ver, e como posso não mais querer. A ansiedade do meu corpo, que busca o nada continuamente sem se convencer de que nada há a buscar, a ver e quer, como se eu fosse mais uma desaforada mulher em busca de uma saia sem significado. A atenção que eu quero, não tenho calma de cultivar. Queria na verdade olhá-la sem prazo, até dar tempo de inventar todas as coisas que satisfariam as minhas necessidades sexuais e amorosas, e deixá-la ir... gostaria profundamente de tê-la... para nada. Nada mesmo, nada em si, apenas quero caçá-la, agradá-la, e deixá-la ir embora feliz.
neste momento eu mesma penso, quase sem pensar, no seu semblante desejoso de eu parar de adiar o momento decisivo de destruir as dúvidas teóricas que a ansiedade cria na presença de um silêncio prolongado, estendido, esforçado para aumentar o prazer da imprecavida resposta. Neste momento, desprovida de criatividade enquanto minha mente faz crer que o que eu vejo está de fato acontecendo, você se encontra pelada na mesa do bar, tomando um gole de chope gelado, que pinga tão perto do bico do seu peito. Tudo suspende-se, estou chocada, imagino o que os outros estão sentindo ao ver uma cena dessas, e me lanço com o canto dos olhos. Na verdade tenho muita dificuldade de prestar atenção em qualquer coisa, não tenho certeza do que vi, preciso olhar de novo para ver se estão vendo, mas preciso olhar pra você antes para saber se continua assim, nua na minha frente, displicentemente sentada na cadeira de madeira, me olhando como se me esperasse de alguma forma que eu não posso fazer nem ideia, imagine se eu esperava por isso, estou esperando há tanto tempo. Não consigo olhar para os outros, você está de fato toda sem roupa, e eu não tenho tempo a perder, os outros estão naturais aos cantos dos meus olhos, eu estou explodindo em todos os poros, será que estou gozando, penso enquanto gozo, paro de pensar na exata hora que alguém me pergunta qualquer coisa, será sobre a semana, será sobre o clima, será sobre o trabalho, eu tento escolher a resposta coringa da pergunta fática

27 de agosto de 2013

enquanto eu tento ignorar que me sinto total... ele me esforça. Demanda as minhas impressões das coisas que me impressionam, dele, que se pressiona em mim, e eu, cheia-de-si, enquanto devo dizer outras coisas, falo de mim, travestida de todo o resto. Com mais ou menos letra, mais ou menos desvio, não sei falar de mais nada, me falo, me falo, e em determinado momento não me aguento, dou risada, o que foi, e eu continuo a contar como se fosse coisa nova o que me veio na mente.

26 de agosto de 2013

Muito difícil concentrar. O trabalho me exige pelo lado de fora... e eu existo de verdade dentro.

Concentro-me em você - me acalmo. Você chega, impressionantemente, por fora, mas eu vejo e vou te vendo, por dentro também te percebo sem te perceber percebido. E você acontece em mim, sorrateiro e ladrão, tão calmo, tão sem nada, tão em si. Posso a todo momento revoltar-me de você, fechar-me de você, cansar-me de você, desgostar-me de você, voltar-me a você, e você está ali se sendo. Te encosto e te espero, porque você acontece. Me revolto de você em mim, te revolto em mim, te gostando. Te duvido, te duvidando sem te duvidar. Aconteço ao seu lado, que me deixa livre para te empurrar, e quando te empurro sigo junto, porque meus átomos com ou sem minha consciência vão atrás. Te desgosto e sigo gostando. O tempo acontece sobre a gente.
Difícil concentrar, mas não sei por que motivo. Procuro insistentemente nos hemisférios da minha lembrança e do meu sexo todos e todas as amantes perdidas entre as minhas vontades - todos esvaziados. Não encontro ninguém nos longos caminhos da minha imaginação sexual. Todos esvaziados. Inventar? invento... já de natural fazer; questão é ser inventada. Sigo, acompanhada de perto por uma atenção exógena, mas minha - a gravidade me pressiona de baixo para cima. Pelos lados, me pressionam também. Encontro questão em não escolher por quem, tão aleatórias esbarradas, friccionadas, arranjo questão em não escolher de quem. Mas, ao não escolher, está escolhido. Aconteço.

18 de agosto de 2013

ah noite, grande, demoras... deixe de ser besta, meu encantamento não é você. está vendo... ali... aquela perna? você não tem... embora tenha tantas outras, além de sua constância... mas sim, olhe só, não tens o enlace da incerteza de se virás de novo, não se dá em dúvida, tenho certezas de que vais embora, e vais. Me deixe. O que pede, se não te faço nada, além do que você faz por mim?
exatamente, eu queria o quê, eu queria ir na máquina bater você  mas eu tenho receio que os vizinhos acordem à noite e eu não sei o que eu vou dizer. Imagina, se até pra mim, o que eu vou fazer além do que já faço? Nenhuma nova ideia. Eu posso aproveitar a satisfação de se estranhar o outro estar à vontade (esta, eu) e acabar perguntando, será que é isso mesmo? É isso mesmo, meu bem, mas você pirou

15 de agosto de 2013

O desejo   corrói meu desejo. Calma, parada, quase disfarçada - bombeia em mim a função do desejo. Olho de lado, ignoro, levanto-me devaneando para outro lugar. O desejo caminha... bombeia. Inspiro, não sei o que acontece, rudemente abstraio-me. Ele me toma, idiota. Ignoro-me. Tenho ideias maliciosas sem tê-las. Sinto-as, vorazes, em busca de presas, que são eu. Desejo-me, desejo-me, desejo-me, e me dou, me desdou, lentamente, para tentar o meu tesão.

12 de agosto de 2013

um buraco, uma broca, entre o espaço físico de todas as coisas e o espaço físico eu, pura ilusão de materialidade. Vivo ali onde não se vê, expansivo e macio, gordo; a minha consciência imaterializada sou eu. O vácuo espesso da minha realidade engana bem vindo os meus interlocutores. Não estou nada. Quando me aproximam, observo com algum choque e algo de incrédulo o meu universo poder ser tocado com as mãos. Então me tocam, e em mim as estrelas das minhas sensações espalhadas se aglomeram todas, como que fossem atacar, mas não querem. Observo, mas não olho. Dou tempo a tudo de não me assustar.
Eu penso em escrever, mas em mim, limitam-se os caminhos que chegam a eu saber dizer qualquer coisa. Sento-me, com paciência, sem mais nada. Não é que deseje produzir, embora deseje, desejo sair, mas prefiro ficar. Estou parada em não ter palavras, nenhuma, não em não ter palavras para dizer alguma coisa, para desviar a atenção de qualquer outra, para chegar a um sentimento que não sei, que não sabia ter, que talvez não tenha: o que não tenho são palavras. Não tenho jeitos. Não tenho formas, não tenho ideias, tenho, bastante, espaço. Preenchido, não preenchido, não consigo ver, embora sinta, intensamente, eu. Existem muitas coisas fora do domínio que consigo explorar; e embora me agrade e me acalante a percepção de que nada tenho a dizer, por não ter mesmo o que dizer, como é difícil me deixar ficar sem falar.

5 de agosto de 2013

congelo, ante o momento, crucial, de saber. E passo intocada pelo voraz descobridor de todas as coisas, a pressa. Espero um segundo, quando vejo meu impulso indo, e vou atrás dele para desvendá-lo, desmascará-lo silenciosamente sob este arbusto que anda comigo em camuflagem. Camuflo-me, naturalmente, ao caminhar pelas veredas do mundo com você dentro. Em distância, vivo, além de outras coisas, na ausência do seu existir no meu mundo. E agora, quando você vem, a rainha sou eu.

3 de agosto de 2013

A ansiedade imóvel toma o meu corpo. Abaixo dos pulmões sinto duas áreas geladas respirando-me de um jeito estranho. No diafragma, uma bola de frio me suspende em pontacabeças. A minha pele treme - os meus ossos não. O fio que me mantém ereta, mantém-me muda, perplexa, emaranhada embora reta.

2 de agosto de 2013

Espero, faço silêncio em quase tudo. Apenas um índice baixo dos meus indicadores vitais expressa que estou por aqui. Mantenho baixas todas as vibrações da minha mente, meu corpo tenta esquecer que você está perto de estar por perto. Passo tangenciando a atenção exagerada de me ter atenta. Disciplino quem sou a ser. Intimido quem sou a ser. Procuro passar incólume à sua presença, embora já comece a ver a perna das reticências que te antecedem. Não invento nada neste momento, respiro no limite de saber e não saber estar respirando. Estou errando as músicas que me preparam para te encontrar; também não tenho como acertá-las. Apenas o que acerto é não estar cedo e estar certo.

30 de julho de 2013

Tanto tempo demorou do ombro até a lateral do braço, que ali era certeza que se foi meia festa. Quando a alça ameaçou cair, o primeiro tremor de terra.
Observo-me; quero estar em todos os beijos que vejo quase acontecendo, quero todas as mulheres que desejo, desejo todos os homens que quero, esquivo-me de tiros perdidos mas me atiro na frente de tantos outros, escondidinha, para só um saber que caí e vir buscar meu corpo. Andarilho entre silenciosos, e parece que descubro aquilo que não vão dizer a ninguém esta noite. Percebo suas intenções sussurrantes, porque também sussurro, e procuro o que sussurrar, e a quem, a troco de nada, a troco de mim mesma, a troco de tudo

25 de julho de 2013

um passarinho subiu dois degraus da árvore aos pulos, bem pequenos, bem calminhos. Encontrou curiosidade na folha verde que não deixava ver o que havia detrás, havia um galho. subiu o galho em um pulo cego, deu de patas no tronco fino. escalou, num só olhar, alguns metros de gravidade, chegou acima onde a vista é mais clara, e da claridade viu debaixo tanta folha verde que mais uma vez sentiu no estômago a sensação leve e embrulhada de mergulhar no conhecido desconhecido

17 de julho de 2013

Escrever... escrever... não que só me reste isso, mas me restam muitas coisas que só limpo assim, varro por dentro, vou reunindo tudo, mas como pó elas sempre grudam em coisas novas e vão ficando, vão ficando para sempre, compondo o que sou eu

9 de julho de 2013

Eu!, o que me resta fazer?! Venho pra cá, que senão lá eu conto logo tudo, estrago várias noites de prazer no escuro, contando casos mil e um mais interessantes, ouvindo sua respiração(,) roçando seu peito, fazendo de tudo um pouco e contando sempre mais quando você quiser, tudo bem eu digo, pode judiar

2 de julho de 2013

Tão bom brincar com o tempo, parece besteira fazer-se flutuar a troco de nada, em criatividades de nada que me levam tão longe. Parece besteira pensar em quê fazer, se fazer é já ter feito, e a decisão parece apenas oportunidade momentânea de fingir o futuro. Odeio, e arrisco, tomar decisões: prefiro o dia a encaminhá-las por sua própria liberdade de não ser eu, e me fazer.

28 de junho de 2013

A hora certa do desejo me invaje, faz-me acreditar que só eu sei a hora certa, engana-me, enlaça-me, erotiza-me, inventa-me, maltrata-me, ilude-me, a hora certa então enfeitiça-se para o outro, chega a seu pé de ouvido, engana-o, enlaça-o, erotiza-o... ele, enfim, acredia que também é eu, e inventa de a hora certa já ter chegado.

26 de junho de 2013

Eu imagino, se eu te dissesse tudo, se eu te falasse logo que eu fico remoendo todas as horas a sua imaginação, ora com roupa, ora sem, imagino seus argumentos, relembro encontros que tivemos pela metade, os n motivos que você nunca contou, toda aquela outra história que ainda é a mesma? É, sim que eu imagino viagens transcendentais no seu colo, imagino a imaginação reimaginada daquela imaginação de 2000, eu imagino mesmo. Viajo... o seu corpo é ótimo de ver pelo mundo, a sua estratégia, a sua aura. É ótimo te ver pelo mundo; viciei-me na criatividade de lhe desejar, desejei-lhe, e não pude te esquecer nunca. Faz parte de o desejo ser este órgão infantil que nutre todo o ser.

22 de junho de 2013

as horas, que bestas, as companhias minha vazão! a vazão da vida, a vazão do eu, exagerada Eu, a vazão da vida mais uma vez, por ser mais que eu. Tantas coisas rondam estes trópicos... tantos olhares. Quantos olhos se dispõem neste bifê (buffet), infindável bifê, alameda dos meus sonhos. Quanto espaço vazio existe por onde o erotismo possa passear... Quantas roupas!, quantas roupagens, quantas minhas posso contar - grande abismo, imenso abismo, ser livre, Vadiar! Tão longa a fila dos grãos da minha imaginação que deixo para depois voltar, muito ao início, bastante, quando a minha melhor amiga era minha primeira bicicleta. Infinito sonho, como voar: a vida sobre duas rodas, e uma corrente para pedalar.

19 de junho de 2013

O curso dos acontecimentos desviou minha atenção de você. O que é uma pena, pois você me deixa com um tesão louco. No meio das bombas, explodo!, a vida se buliça e em uma parte infantil da minha cabeça tão inteligente, você gira, entre dança e macumba me enreda nos fluidos da minha imaginação... No meio da bagunça alegre dos protestantes, a sua visão imagina Brasília, seca, esclarecida, cheia de vinagre esta salada mista brasileira. Seguimos em frente, eu e você seguimos em mente, sem lotar a Esplanada, a longa esplanada das minhas afetividades, grande demais.

9 de junho de 2013

melhor não alterar

Coçou a barba. Disse,
A distância é pouca.
Ela remexeu-se. Ajeitou a saia; não porque estava torta, chamava a atenção pras ancas. Disse,
A distância é pouca.
Acreditou. Contudo, todos os planos muito bem feitos, a distância seria o preciso espaço da ignorância: ele jamais saberia.
É suficiente.
Mas é suficiente.
Vou levar uma foto sua.
Leve essa, eu estava sem calcinha.
Era verdade, mas poderia ter sido mentira.
Quando conversaram-se, no início, foi há três anos. Ela sentava na biblioteca olhando as prateleiras; ele batia punheta depois do segundo horário. Cruzaram-se no restaurante, mas não se conheciam. Ela pensava em orgasmos durante o almoço, ele buscava na memória quais livros deveria ler para dali a duas semanas. Quando então começaram a namorar, ela lhe disse,
Não quero abrir mão de sexo com desconhecidos.
Ele lhe disse,
Eu quero ver.
Viu duas vezes; parou para provocar o tesão.
Ela dava para desconhecidos, para conhecidos também. Mas ele não poderia estar na cidade. Por isso viajava quando queria e quando não queria, para provocar o tesão. Ela viajava também.
Ele perguntava,
Deu?
Ela,
Não.
A mudança de tempo não perigou a saúde. Também ela não cansou, masturbava-se muito e tinha o sexo como um pensamento diário que permeava todas as coisas de uma ousadia brisante.
Olhou-se no espelho. Passou as mãos no vidro, sentiu molhar entre as pernas. Amava-o. Abriu os olhos: porque não admitiu. Virou-se para a privada, na verdade desviava do reflexo. Encostou as costas na pia, apertou o canal num prazer pompoarista. Riu.
Foi para a cama, masturbou-se, e pensou no que achava de amá-lo. Não conseguiu pensar em nada. Ficou horas olhando para o ventilador na verdade de olhá-lo e na esperança de pensar. Não pensou. Masturbou-se mais um vez. Rasgou duas roupas.
Ele entrou, disse,
Eu sei.
Ela olhou por alguns segundos, depois não o via, mas ele não soube.
Mas você precisa
Ela pegou um cigarro, olhou com desdém, não fumava
ter calma.
Sorriu. Baforou, viu quando ele apertou o que tinha que apertar. Não tossiu, que besteira.
A distância é pouca.
Mas suficiente.
Você vai?
Não se preocupe.
Mas eu quero saber.
Eu vou.
O quê?
Fazer o que eu tenho que fazer.
O quê?
Ele viajou. Ela, em casa, sem saber o que fazer, amava-o, saiu, foi para um bar. Viu todos, imaginou posições, gozos e vários estilos de chupada. Chegou em casa, masturbou-se muito, muitíssimo, por fim já nem fazia o que gostava mas gozava, pouco ou muito, e dormiu.
Ele voltou, radiante, viu-a deitada, suspeitou de tudo, enlouqueceu, duas camisinhas na gaveta, virou-a de barriga para cima, cheirou suas pernas, abriu, lambeu lugares esparsos para cobrir o que o olfato podia ter deixado escapar, acabou se enrolando e sua mão ficou lá dentro, achou que tinha prendido. Quando ela suspirou pro lado e arqueou como um acaso junto com a respiração, a certeza! tudo estava bem.
No travesseiro, a calma. Mal sabia que dali a dois meses começaria a cólera, e o fim estaria próximo. Ele seria um fanático pelo amor, agora que o descobrira com toda a certeza, e ela transaria com ele porque sentiria falta de ser perversa
Entrou; esbarrou no meu jarro de flores, já era! vai trombar com a parede trombou, está vindo vai bater em mim vai bater está batendo bateu! Ah! Já era

6 de junho de 2013

Ruivinha e legalize, Samuela deslisa pela paisagem dos meus ohos. Rapidinha e rasteira, o que ela já me disse não sei, insinuou algumas coisas que podem ter sido minha imaginação. Reboculosa, devagarzinho, ela passa sem pressa em direção a seu destino, reparando em mim para me reparar. Vira, mexe, lança cabelos, dá de ombros, jeito gostoso de chacoalhar o ombro direito. Me deseja, e se dá todo o tempo para disfarçar.

3 de junho de 2013

O corpo sente as tensões, eu não preciso anunciar. Entende em sua língua o mesmo conhecimento da língua. Em silêncio, é como se falasse, e não o posso calar, porque não há esse botão. Sozinho, conduz os dias, as minhas sensações e as decisões nas quais não pensarei. Inventa-me, criativo e voluntarioso, a qualquer hora, a toda hora, humilde e perverso em ser eu. Conhece-me como se me fosse, porque me é. E quando estou sendo todas as necessidades que parecem não ter a ver consigo, ele me lembra de mim.

30 de maio de 2013

A atmosfera enxágua meus sonhos vigilantes. Sob o subterrâneo, sobra em vida o subcutâneo, a enorme vida do subcutâneo. Enxugam-se os anos, aqui está você! Animando os meus ânimos, acordando as noites sem sono, soniferando os dias momentâneos.
a tarde bate até virar noite, cai o véu, o som que chega chama de novo, quando novo, a novidade sorrateira, que me chega linda e gostosa, um nada agitado por entre as horas iguais.

26 de maio de 2013

15 de maio de 2013

mais uma vez você me assaltou agora com a novidade de voar entre quatro paredes. eu também tenho este costume acho o máximo, e acompanhada então esbarramos em cada coisa! que doutra forma teríamos dito obstáculos. Pois eu gosto sim de devanelevantar voo e ir indo, ir indo, esbarrar em você no infinito e o choque nos trazer aos lençóis mais uma primeira vez.

13 de maio de 2013

Enquanto o tempo passa vazio, invento mil e uma coisas para não atrofiar a minha criatividade. Em geral, enamoro-me em cada esquina por uma semana, depois na outra, outro romance, a troco, como dito, de escrever. Escrevo, escrevo, escrevo, sobre mim e mais nada, esvaio meus desejos em letras, apenas porque a tensão que há dentro de mim há sempre, como um traço da juventude mesmo. Invento mil ideias não porque careça vivê-las agora, mas porque posso, porque não tenho o que me ocupar a sensação, e porque o que me ocupa a sensação é tão pessoal que mesmo eu não vejo motivo em descobrir, e por isso traduzo-me em imaginações...
Por um pouquinho a menos quase eu não cheguei a saber, que era tudo artifício do desejo! Preciso prestar atenção! Tenho em mim tantos deles, estou privilegiando aquele grupo que por tanto tempo reinou! Eis que é difícil dar-se corpo sem pensar em fazer as malícias sentimentais que só um romance permite. As putarias que só a entrega cotidiana revela em sua ousadia de querer sempre mais. É este erotismo despudorado e voraz, que quer engolir longos tragos de veneno, que me vira e desvira e me leva aos lugares mais perigosos que a minha mente inocente pode pensar...

5 de maio de 2013

imagino-a

de costas, abre a geladeira. Procura algo que não sabe, mas sabe que vai encontrar. Se inclina, eu estou logo atrás, do início da sala, sentada em uma poltrona fofa que não consegue ser agradável como a visão das suas pernas de fora de um short simples, sem botões nem zíperes, e tem uma camisa por cima que lhe cai quase na barra do calção. Dá a impressão que poderia estar só de calcinha. Mas eu sei, por força de algumas horas, que ali não há nada que lhe cubra o que quero. Levanto, sigo até lá, e o corpo dela pela frente está gelado gelado. Ponho as mãos pelo início das coxas, onde já não se sabe se ainda é quadril, ela faz que vai fechar a porta, mas é deslise do desejo. Ela bota a mão sobre um pote de comida, percebe que não é isso que quer; eu escorrego meu juízo coxa abaixo tão devagar, já começo a ficar tonta dela, que dá tempo de ela olhar mais o leite, viu que não é isso, a manteiga, também não; virei a curva sem outra solução, como se o calor ali não pudesse fazer outra coisa comigo, ela tentou fechar uma perna na outra, mas foi sem querer. Abriu logo, não conseguiu fechar a porta e com a garrafa d'água na mão, inclinou todo o corpo entre o V da porta aberta do refrigerador. Abraçou a porta com o lado do braço o bíceps, se segurando de besteira de mim que já a segurava, segurei mais e puxei o corpo antifrigorífico, ela veio, e veio vindo, veio vindo esbarrou em tudo em mim, bateu o corpo todo de maldade, encostou bunda, costas, joelhos, panturrilhas, calcanhar, lordose, pulmão, escápula, bateu a nuca e o pescoço dobrou até sua cabeça deitar no pé da minha orelha, que ela judiou. Depois de me lamber, meus dedos atravessavam sua pele, que ela me deu a noite toda.

4 de maio de 2013

Sobre a sincronia (logo, a sincronização)

Ao separarmos as camadas de áudio e vídeo na ilha de edição, dissociamos a sincronicidade da vida… Tudo enfim parece despregado, e podemos compreender que viver é conseguir acompanhar ao mesmo tempo o que se vive e o que se quer dizer.

26 de abril de 2013

É difícil não se deixar levar pelo som e por tudo o mais. O espaço vazio convida a nada embora lembre tudo. O meio do burburinho é o lugar ideal para o som em cinema: por isso permaneço esquecida entre os meus desejos e as minhas escolhas, entre o meu choque e a minha certeza. Ser maduro e não ser existe apenas como conceito. São ideias de duas disposições muito diferentes, sobre a outra, de fazer a parte errada. Dois erros muito diferentes de fazer disposição. Duas disposições muito diferentes de fazer dois erros, um.

24 de abril de 2013

Suspeito-a. Não posso senti-la sem pestanejar. Respeito-a, enquanto a rejeito, tentando não lhe respeitar. Perscruto seus movimentos, com a cuca em cada, com os olhos delimito o limite até onde pode ir. E toda essa minha postura mulheril de dominar me trai quando ela me olha resoluta desvendando meus vendavais, arriscando minha ferocidade, alinhando meu desagrado. Ela surge, eu urjo.
Seus braços longos e retos encompridam o espaço da sua beleza. Escura, seu contorno salta a distância entre o resto e ela. Ela, que só existe quando está, define o longo caminho do início das minhas pernas até o fim do prazer. Sobe em mim qualquer coisa por dentro de onde é inevitável. No meu centro, já fui atingida sem poder esquivar. Sua força dói a extremidade do meu corpo que lhe recusa como ao sol em Copacabana. Faço guarda-sol da minha franja, protegendo meus olhos da desistência eminente às suas maldades. Toda mulher bonita arregaça a segurança de um dia qualquer. Ela me deslisa pelas pálpebras, e a sua velocidade causa um efeito doppler tremendo, e a sua frequência, como não haveria de ser, é relativa. Relativa, toda ela, vai-me matar quando eu souber que à cama basta conquistá-la. Relativa, toda ela, a o quê?, ou a nada? Segura e não, ela se me avança, me desconfia, e desconfia desconfiar-se.

14 de abril de 2013

Longos espaços de verde conduzem a minha alma para o vazio. Nada acontece aqui dentro. Minha angústia revela uma paciência perdida, um equilíbrio esquecido, uma meditação partida. Não tenho caminhos para onde ir, e o longo abandono do relógio transforma as horas em mais. Tenho os olhos ultrassensíveis para a chuva que cai, e quando pensam que a antecipo é porque já a vejo há algum tempo. Nenhuma criatividade me busca. As horas que passo sozinha e sei esvaziar-me, ao contrário percebo-me inflar de branco. Buscar a paz interior sozinha é ostentar encontrá-la. Por isso me calo tanto, porque se não me ajudam a buscá-la, não revelarei os meus caminhos.

12 de abril de 2013

O dia acorda; a vida vai chegando perto de se levantar, e enquanto isso estica seus braços à distância das paredes, vai inchando o quarto, até que por esforço de sair ergue-se, passa pelo corredor e tromba. Chega à janela, seus olhos espreguiçam tudo de novo. Mais um dia para ser feliz.

4 de abril de 2013

Cai a noite nas minhas quatro paredes
Seus olhos iluminam a luz que de dia eu lhe dei
À noite você brilha, e sou eu
Sem jeito, não entendo sua partida,
Sua partida me partir e seu partir-me ser meu jeito
Os carros buzinam em mim, as faixas de pedestre me atravessam
Tanto trânsito no meu país enevoa a equação que me leva adiante

27 de março de 2013

Era um crime que não enlouquecesse diante de sua própria ausência de ausência de pudor. Era uma violação de todos os direitos a decência de suas ações, e nas ruas as pessoas o olhavam com um repúdio particular, ou não o olhavam. Havia em sua aura algo de muito impróprio, como um segredo latejante. Era simultaneamente consciente e não dessa atrocidade. Desconhecia coisas pelo meio e o que nem ao meio chegara. Na mesma medida conhecia tudo o que lhe faltava em excesso para os outros.

9 de março de 2013

Ah!
Fico dividida entre os clipes musicais e os vídeos pornôs!
Fico na dúvida se trabalho ou se devaneio!
Fico na dúvida se pensar em não pensar já é um pensamento inteiro.
Mas sem dúvida não fico mais.

28 de fevereiro de 2013

Na areia, ajeita seu biquini. 10% a mais a bunda aparecendo que ela quis consertar. Aloooonga-se, comprida, em direção ao céu; fecha os olhos, e mesmo tonta resolve confiar no corpo. Abre os olhos e reacorda; a praia vai do branco às cores habituais, e o sol forte aperta logo as retinas em uma janelinha estreita.  Como é estranho perceber o sal grudando no rosto e a água voando no ar; mais estranho pensar que há outros animais dentro da água, mais pra frente, vivendo lá. Será nossa balbúrdia que os afasta? ou nosso cheiro? Quem sabe as coisas que deixamos na areia sem pensar em levar pra casa... Como temos medo do que é bicho e não somos nós... Pra baixo, estica-se até ver um sirizinho correndo de uma barraca a outra, uma criança atrás. Depois a água chega até quase tocar a ponta do dedão, e destrói o castelo de areia que ainda não conhece a técnica de deixar escorrer areia e água pelos dedos para fazer torres mais ornamentadas. Vê entre as pernas três compras de cerveja e um vendedor de sanduíche natural. Levanta, bem devagar ao ponto de não dar tempo da tontura chegar - rápida e lenta. Quando encara o mar, já tem o frio na barriga. No horizonte tem certeza de ver a África sem ver, e de sentir sua falta sem sentir. Mergulha em um pulo e sente o corpo de novo.

1 de fevereiro de 2013

Declamação II de "Faltando um Pedaço"


O amor é um grande laço, um passo pruma armadilha, um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha. Comparo a sua chegada com a fuga de uma ilha, tanto engorda quanto mata,
feito desgosto de filha.

O amor é como um raio, galopando em desafio, abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios. Quem tentar seguir seus rastros, se perderá no caminho, na pureza de um limão ou na solidão do espinho.

O amor e a agonia c        e        r    r    a  r a m    FOGO    n o    e  s    p     a        ç          o;
brigando horas a fio, o cio vence o cansaço.
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços

19 de janeiro de 2013

a insargência da vila

Espero ela chegar com uma ansiedade invejável. Imagino a sua pele, o seu bronzeado, as suas pernas grossas cor de mel. Imagino seus cabelos queimados, e o excesso do sol nas bochechas e no nariz. Sinto o cheiro da praia, o impregnado da sua felicidade, as águas que lambiam seus joelhos um pouquinho antes do susto do gelado na parte interna da coxa. Imagino as ondas que brincaram com sua pretensa amizade com o mar. Imagino o  sol que traz nos olhos, da cor parecida, e a sua malandragem loira tão viva.

11 de janeiro de 2013

não havia signo nenhum

Eu juro que eu tentei, mesmo que eu não tenha tentado nem realmente nem um pouquinho, mas as coisas de Caetano são como ela dançando pra mim. Nua, de quatro, na minha cama, no meu rosto, no meu peito, deitada de lado, as pernas sobre mim, a pele em mim, a minha, eu, meu corpo, minha voz grossa, meu acordar de manhã, as coisas partilhadas sem querer, os momentos sobre os azulejos do banheiro, minhas mãos na parede, seu peso, as pernas, abertas, as cartas, os outros amantes, o tamanho do meu armário, extenso, eterno, o seu corpo segurando o meu quando eu só quero ir à cozinha, eu não vou a lugar nenhum

16/7/2010

4 de janeiro de 2013

Declamação de "Faltando um pedaço"

O amor é um grande laço, um passo pruma armadilha,
um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha, comparo a sua chegada com a fuga de uma ilha, tanto engorda quanto mata, feito desgosto de filha.

O amor é como um raio, galopando em desafio
abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios
quem tentar seguir seus rastros se perderá no caminho
na pureza de um limão ou na solidão do espinho.

O amor e a agonia
cerraram fogo no espaço
brigando horas a fio o cio vence o cansaço
e o coração de quem ama fica faltando um pedaço que nem a lua minguando
que nem o meu nos seus braços


2 de janeiro de 2013

muito embora prossiga,
e cresça,
não é que haja descrença, Simples o que há, há em si.
Sigo, e embora não mereça,
aquilo que se esqueça
Fica em mim;
e embora a seguida, segue para ir,
seguir de algum modo
fica em sentir