27 de setembro de 2008

26 de setembro de 2008

Confissões breves de mesa de bar

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
- A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
- Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada! Você parece louca.
Manuel Bandeira, Namorados

24 de setembro de 2008

Entregar para Josué

Josué,
é verdade que o carro quebrou. Passei em cima do buraco de uma boca de lobo, aquelas que ficam no meio do asfalto; desculpe, não vi. Não quis chamar o conserto, fiquei sem graça; liguei logo o carro e saí dali o mais depressa possível. Depois de três minutos rodando, senti um barulho engraçado e quando deram cinco minutos, vi correndo na direção oposta a calota traseira direita. Senti um aperto no peito - e no (seu) bolso! - e, batendo a cabeça no volante como punição, sem querer catei o meio-fio, mas de leve. A roda ficou branca, mas você sabe que eu limpo direitinho. Mais pra frente - veja, só estou te contando essa vexa porque você é meu melhor amigo! - passei num quebra-mola sem reparar e, para a minha surpresa, a mola quebra mesmo! Hehe. Andei com o carro sofrendo mais alguns quilômetros, o Guará não chegava nunca, o endereço parecia na Europa - imagina! -, eram milhas e milhas, e finalmente cheguei ao fim. O problema é que não era meu destino. Improvisei um acostamento na beira de uma via super movimentada: seu carro deu sinal de falta de óleo e gasolina - eu tinha certeza que tinha abastecido! - e eu dei pela falta do manual - você não tem? Não soube para onde ligar, já que os telefones do mecânico creio que estavam dentro. Liguei para minha mãe. Ela trouxe uma amigas que chegaram depois de uns quarenta minutos, o carro já parecia derretido - eu sou excelente com riqueza de detalhes! -, o pobrezinho. Elas tentaram empurrar o bicho e ele até andou um pouquinho, mas muito dificilmente, e então resolvemos dar uma checada nas coisas e percebemos que estava com o freio de mão puxado. Acontece. Enfim, arranjamos o telefone de um mecânico com um alguém que parou para ajudar, mas ele te levou o emblema do carro, tem problema? De qualquer forma, ligamos e o mecânico nos pegou, quem não pegou mais foi o carro, que foi guinchado mais tarde. (Aqueles arranhados da lateral é certeza que já estavam lá quando o peguei emprestado de você!)
Desculpe esse transtorno!, mas não se preocupe, só precisarei pegá-lo emprestado de novo daqui a duas semanas, e os mecânicos me garantiram que essa quarta ele chega em suas mãos!
Obrigada por tudo! Abraços!

Quem tem colírio também usa óculos escuros

Dançava com liberdade. Com as pernas, os braços, quadris, cabelos e olhos - os seus e os meus, sem saber. Batia os pés mais vezes que a música, e olhava o dj por vezes com um deslumbramento de felicidade e prazer. Balançava o tronco quase que sem prestar atenção ao ritmo, chacoalhando-se na liberdade do movimento e no conduzir que queria, independente da freqüência dos sons. Fechava os olhos e os abria com freqüência menor que piscadas, e por vezes esbarrava nos meus que lhe olhavam a nuca quando de costas. Cheirei seu cabelo no escuro e na confusão, sem ser flagrado por nenhuma das almas que não me poderiam ver, os amigos vários que nos rondavam os corpos e velavam pela integridade de nossas intenções e nossos relacionamentos que extrapolavam as paredes da sala, nossos amores que não estavam ali conosco. Cheirei-lhe o cabelo, no entanto, sem medo, inconseqüente, arriscado, traidor, lindo. Estive próximo a agarrar-lhe o corpo e descobrir-lhe a boca, e por vezes vi a situação acontecendo à minha frente, meus dedos em seus quadris, nossos pescoços como cobras e nosso enlace, suas mãos comendo-me as costas, morrendo em mim, querendo-me. Vi a possibilidade disso e com sobriedade, apesar do álcool, pus-me a acreditar esperar passar os dias para a chegada dessa realidade. Não questionei se demorariam meses - semanas certamente sim -, seis talvez, meio ano contando carneiros. Não me pareceu que fosse desvanecer em mim o desejo das pontas quentes dos meus dedos, tão astutamente envoltos em outras nucas e coxas pelo querer e pelo também não poder ter as suas. Estive paciente e louco, observei seus trejeitos mesmo que não fossem meus (ainda[?]), suas pernas, seus sapatos, seu gosto por roupas, seu sorriso, suas circunstâncias. Fui solitário e feliz em meio a monstros e vitrines. Peguei em seus ombros com os olhos, toquei-lhe o rosto e o pescoço com carinho e violência, colei-a em mim, senti sua vontade voraz, quase fui assassinado tanto quanto quase matei, havia sangue e calor pela pista, todos nos podiam ver mas não viam, éramos só mais uma fração do mundo, alguns solitários nos olhavam por fraqueza, vontade ou inveja, acontece, já me aconteceu, já aconteceu a outros.
Mas nossa dança continuava, era circular por momentos, como uma constante e interminável emboscada, cobrindo espaços e rotas de fuga, eu e ela, e finalmente era via de mão dupla. Não mais essa tortura só, essa busca pela vontade dos outros, essa situação incômoda de loucura talvez desnecessária, fingida e insana, já insana pela mera loucura, pior ainda se despropositada. Não, era simples e fácil e entorpecedor e sexo e não amor, ainda não amor, para dar tempo de tudo, da felicidade livre e desempedida, do compromisso do querer, essa amarra amável, e então eu não mais seria portas abertas, seria porta de casa, conheceria seu quarto e seu armário, descobriria seus amigos e seria querido, seria a primeira pessoa a se ligar quando do acontecimento de algo, seria seu travesseiro e despertador, suas brigas e birras, deixaria que me conhecesse e conhecesse meu corpo, meu jeito, meus medos.
Mas agora, depois de carros, copos, colares, colagens e colírios e a visão de uma - sua - felicidade sem mim, nada mais quero além de óculos escuros.

23 de setembro de 2008

Responde

Está bom eu só estando aqui (pra qualquer coisa)?

22 de setembro de 2008

Maldades do eu-lírico criativo - parte I

Me rasgo de querer-te, de comer-te,
de amar-te, de querer amar-te, de querer comer-te,
de comer amar-te, de amar querer-te, de amar comer-te
e de não te ter.

Clareamento dos dentes expostos no post abaixo

A busca pelo belo não é luta por ele:
não é a necessidade de que as coisas sejam belas, ou se dêem de forma bela, é sim a procura, muito mais por curiosidade e exercício mental e analítico e costume do que por necessidade - que na realidade inexiste pra mim (já existiu, mas agora há outras prioridades, a saber, a satisfação e outros) -, da beleza inevitavelmente presente.
é só que acharei ou poderei sempre achar algo belo na medida em que algo pode sempre ser belo,
mas o belo é tão cansativo, tão cansativo, que deixa de ser belo com freqüência, e de repente não há beleza em nada, nada,
nem é necessário, nem é querido; não é necessário, essa é a questão,
e então é tranqüilo e simples, na realidade não é nada, só é;
e então é possível ser belo de novo,
mesmo que não se queira, nem precise, nem seja.
é que na realidade meu conceito de belo acho ser muito pessoal e jamais de todo compreensível.
(e talvez seja interessante saber que pensei mais de uma vez antes de escrever "a busca pela beleza" e fui contra a decisão de escrever, mas o fiz - é algo jamais entendido, e isso é simples.)

Eu tranqüila sentada à mesa num domingo, e que tudo o mais vá pro inferno

Faz tempo que não escrevo nada que me dê real prazer, ou me liberte, ou qualquer das coisas que antes busquei e cri e quis crer que atingi. Faz tempo, então, talvez, que tenho sido só eu, e só eu e eu-só e eu só sei o quanto sou necessitada de outros corpos além do meu. Tenho visto nascer a passos mais largos do que posso acompanhar um companherismo e um à-vontade espantosos, e por eles tenho os olhos mais arregalados de admiração e surpresa e deleite que geralmente. De resto, estanquei. Tenho relações tranqüilas, felizes e normais - ou, resumindo, medíocres e insatisfatórias. Sei que pareço pedir mais do que pareceria razoável, mas não peço. O que peço é o que me é básico.
Não me fazem as perguntas certas, não me fazem, sequer me fazem perguntas, e sendo eu uma compulsiva adepta das chicotadas impiedosas e das brincadeiras de tiro-ao-alvo com pessoas de exímia destreza, acabo achando estranho não me expôr com freqüência e por vezes malícia. Mas ninguém mais brinca (além daquela cujos passos corro para acompanhar com felicidade). Às vezes penso com real dúvida como pode ser suficiente que não se deseje aprofundar mais o poço quando se encontra petróleo, ou como é que se dorme quando há música tocando, ou como não sorrir quando de um encontro de dois, ou como não esticar os limites quando o material é flexível, ou como, e como, almoço e janto. A pergunta já me foi mais companheira e as respostas mais torturantes que agora. Agora sou tranqüila e minha tranqüilidade, como tantas outras coisas de e em mim, é venenosa. Sei sentar-me e ser feliz e sei correr e ser feliz e prefiro correr. Acho fácil fazer como devo e devo, não nego, e por vezes sei matar os outros sendo eu mesma e não sendo pontiaguda e não querendo matar, e mato. É curioso achar-se simples e entender, entender, que aos outros pareça mais simples não ser você, ou ser, em circunstâncias, seu oposto. Pesa-lhes a cordialidade, a preocupação com timing, a diplomacia, a busca por beleza, a passividade, o egoísmo, a pessoalidade, a autonomia, o estranhamento, o alheamento, o espaço enorme e todas as outras coisas que já me renderam troféus e prêmios. Pesa-me que lhes pese coisas simples, por vezes, e que achem complicado o que na realidade não é.
Mas, no geral, não me têm pesado. Me tem pesado, talvez, um distanciamento gradativo de corpos presentes, mais de um, mais de dois, deixando, na realidade, quase que só o meu sentado no meio fio com calma e tranqüilidade, sabendo achar belo que as coisas não se dêem como o planejado. Mas esse distanciamento tão bem disfarçado, nem eu o percebo sempre, nem ele é percebido sempre, e nem talvez seja distanciamento, mas eu só sei ver com meu olhinhos infantis, como os olhos de um bandido, que é.
Também, sobre outras coisas, não tenho sido razoável e realista. Continuo brincando de Deus e construindo realidades para me torturar, meu eu-lírico babaca e pobre e raquítico, quase uma dupla personalidade, e por vezes me quero matar por não deixar-me ser duas - como eu queria ser duas! Como por vezes sou incomodada pelo não ser livre e noutras sou feliz sentada numa cadeira dura que internalizo ser confortável de biblioteca e leio sobre como se dão interações humanas e sobre o conhecer ou não dos atores sociais das razões que os fazem agir como agem ou como não agem e a influência do saber sociológico sobre seu objeto de estudo. Meus repentes de liberdade últimos também todos possuidores da mais alta conotação sexual mais me castram que excitam, pois que excitar-se no quarto e na cozinha e no armário não te dão de fato o que comer a não a si mesmo. E a morte por cauterização lenta e gradativa da pele não é das mais agradáveis como o meu tino para o sofrimento me diria, mas ao mesmo tempo seria tão possível que não fosse sofrimento e também não teria como não ser sofrimento que me canso dessa dualidade ridícula e também da subjetividade-objetividade que Giddens quer salientar no corpo do ser e do saber social.
Esse então excesso de sexualidade que varia entre dois opostos e chega de fato a cada extremidade dessa escala não me servem de inspiração noturna, lírica, musical, científica, culinária ou qualquer outra merda que me traria evasão e mesmo estando pouco me fodendo para a seriedade de estruturas lingüísticas fico acordando, comendo e dormindo nessa torre de marfim da qual quero me jogar para morrer e para não morrer. E abaixo os hipócritas que acham que compreenderiam meus acessos de loucura e meus atentados sexuais e minha virilidade e minha delicadeza e minha necessidades. Arranho e rasgo e não me apiedo dos podres que pensam entender e aceitar e quem sabe achar bela essa coisa azeda e áspera e dominadora e exagerada que é cada um e esse fosso que não se transpõe mas que se pode pular momentaneamente, preocupando-se em escapar com rapidez e agilidade da loucura do outro antes que a identificação aconteça e a própria loucura e a própria sanidade - que é a loucura, e então fui redundante - te faça querer ser Deus para o outro. Não somos Deus para os outros apesar da nossa excessiva e falsamente delicada intenção, não somos deus para os outros e não criaremos uma religião em torno de nós mesmos, nem sequer nos adorarão, nem sequer nos adoraremos. Deixe de achar que vai compreender o abismo do outro, que vai entender e até achar belo que o outro te ataque, te arranhe, te morda, te beije, te cuspa, te exceda, te maltrate. Você não sabe ser o que gostaria, nem sabe ser seu oposto. Não sabe ser preso nem sabe ser livre nem sabe entender o que quer. Ficaremos para sempre nesse redemoinho de vontades e necessidades falsas, de repentes e de planos, de ataques e auto-defesas, da mistura do que não sabemos ter com pureza, não sabemos ter nada com pureza. Somos feios e complicados e intrincados e sós e você não saberá salvar-se e você não saberá satisfazer-se e você não entenderá o que ontem de noite pensou entender e eu só quero lhe beijar a boca e roubar seu prazer para entender o que é o meu.

Refém

Meu eu-lírico me tortura.

12 de setembro de 2008

Má, oh, Madá, oh, Madalê, oh, Madale le le le le lena

Madalena, só quero teu corpo.
Não seu coração, sua decência, seus pais;
Quero só teu corpo, Madalena.
Por que pensas que quero muito?, por que me achas vil, Madá?
Sumo com essa dúvida e esse pudor que é o amor, esse câncer epidêmico que os homens têm ou querem ter.
O amor não existe. Tua infância pintada a guache te mentiu:
Cinderela não foi amada, Branca de Neve também não, que dirá Ariel ou Aurora. Era tudo mentira, e você nos quer no topo do bolo.
Não quero Madalena. Não sou teu príncipe, teu sonho, teu carcereiro amado. Não quero entender tua lógica e tuas manias.
Por que me achas mau, Madá? Virá alguém que te quererá os trejeitos e os olhos e o coração e a atenção e tudo o mais que achar que deve.
Depois te estraçalhará a alma, a auto-estima e o amor, deixando-te aos pedaços e pondo a culpa em ti.
E tu me julgas a mim.
Mas eu só quero te estraçalhar os cabelos
e a boca
e essa sua pele de pêssego.

8 de setembro de 2008

Ficção de cinco minutos na escada de trás de uma comercial noturna

Eu sentava no quinto degrau da escada. Era de azulejo branco e o corrimão negro ao lado não falava comigo. Não que eu tivesse algo na cabeça que precisasse ser externalizado ou que me sentisse só e quisesse companhia e amor; mas ele não falava comigo. A cinquenta metros, a mesa de onde eu saíra minutos atrás ainda ardia em conversas interessantes, mas eu me preferia sentada encarando o escuro do fim de dia, a mente dividida entre pensar o que poderia e não pensar em nada.
O fusca vem, faz a curva e sem mistério estaciona na quina das duas fileiras de carros, o espaço onde em teoria não se estacionaria, ou onde fica o entulho ou o latão de lixo. É azul metálico e velho, como um céu noturno desgastado e por cima polido, e tem rodas velhas e pneus empoeirados de uso. Os faróis morrem, a luz interna não é acesa, o carro pára de respirar e espera. Ainda encarando o carro, como artifício de quem não encontra nada mais para voltar os olhos, ou não quer, ou não precisa, encontro dentro um vulto que mexe em algo sobre a coxa. Mexe as mãos repetidas vezes, é calmo e carinhoso, faz movimentos como se limpasse ou polisse qualquer objeto de estima. Então pára, não se encara no retrovisor, abre a porta sem pressa com a mão esquerda e se ergue com uma leveza pesada. Fecha a porta e caminha quinze passos até se encontrar à minha frente, a pouco menos de um metro, e me projeta a bala na testa.
Abro os olhos mais do que poderia, não tanto pela dor ou pela morte, mais pelo choque e o dramatismo de uma cena que certamente termina minha vida como se fosse um filme. Minha consciência ainda vive e, por mais que todo o resto de mim esteja morto, como seria impossível que não estivesse, vejo tudo de mais de um ângulo, como câmeras de cinema, e posso tocar os atores sem que saibam de mim; contanto, não sou espírito. A corrida reverbera no fundo de minha cabeça furada, os passos altos ecoando nas paredes da parte de trás da comercial onde o assassinato aconteceu; ela vem. Me vê o corpo jogado na escada suja, uma long neck que não era minha ao lado, tocos de cigarros vários, o resto vazio. Era como se eu chorasse o vinho de outras noites. A testa encharcavasse de mim, o sangue me descia a lateral do rosto, os olhos eram claros e vivos ainda que mortos. Jogou-se na escada fria com força e desespero, tomou-me no colo como se resolvesse brigar comigo por ter-me deixado à mercê, como se eu fosse qualquer pessoa importante que as outras têm intenção de matar; mas eu nada era e, agora assim, realmente nada sou a não ser algo estranho e mole de vestes numa noite leve e fresca da capital do país. Apertou-me e me sacodiu com voracidade, gritou-me nos olhos, ouvidos e cabelos, pôs sua testa na minha, balançou-me de início para me acordar e o terminou fazendo para ninar a mim e a si mesma. Pendia para frente e para trás como um pendão de relógio, e era: o tempo contava seus minutos, meus minutos, contava minha vida que fora e a que não seria e que portanto já não era. Outras pessoas passaram por ali. Os que estavam na mesa com ela não vieram, coisa estranha, de repente não estavam mais, quase que não viviam, entende?, como se jamais tivessem estado ali; tudo era negro e confuso. Minhas pupilas não contraíam mais, nem minha mão na sua, nem meu músculo da coxa involuntariamente. Alguns corpos desconhecidos caminharam ao lado da cena. Olharam estranho e com um medo curioso ao qual não cederam, nem deram importância. Ela já não entendia o que era aquela distância e isolamento ao redor de nós duas, aquelas pessoas que pareciam nos ver como atrás de vidros, de grades, da tela da televisão como um programa com potencial de ser bom mas o qual não se está com paciência ou tempo para ver.
Apertou-me contra o peito, o tórax e o peito propriamente dito, mas não acordei nem me senti mais aninhada, nem revivi. Eu caminhava por trás da cena, vendo meu corpo branco e o seu moreno, lembrando acontecimentos antigos e lendo seus movimentos e ações de agora, tocando o choro grudado em seu rosto, acarinhando seus cabelos, seu pescoço, aninhando-a aninhando-me. O tempo era frio e a noite pesada, mas eu leve anoitecia em seu colo solitário, sua dor entrando pelos meus poros mortos. Eu sentava à sua frente vendo seu rosto, seus olhos, sua aflição. Nada mudaria. Eu não viveria mais, sua vida não mais me teria, não nos veríamos em finais de semana, na faculdade, em restaurantes, em fins de dia e começos de tarde. À minha frente esfarelava-se sua pele, morrendo também, e um pouco do seu intuito e vontade de viver. O cansaço lhe dominava as células. Levantou-se, deixou com estrondo meu corpo cair de volta nos degraus frios, a cabeça batendo na quina de um deles, amassando um pouco da têmpora já póstuma, virou-se e caminhou sem pressa saindo dali, nada em sua cabeça, nada na minha. Nenhuma intenção mais pelo meio, nem nenhum pudor de falas fora de hora, nem nenhuma vontade de encaixe, nem nenhum conto especial, nenhum olhar que se entendesse, nenhum choro que acalentasse, nenhum ganho de personalidade, nenhuma mudança, nenhum avanço, nenhuma eternidade. Teria o resto dos dias como um calvário que depois de tempos se tornaria mais enfraquecido e fácil e cansado e internalizado de tal forma que fosse um tanto inconsciente e que não a matasse mais com tanta força, mas ainda assim aos poucos morreria também por causa dele, e aos muitos sentiria dor exatamente pelo desgastar desse penar. Nada mais avançaria em seu relacionamento comigo, nem eu sofreria por separações inevitáveis e inexistentes. Eu não mais erraria em associar coisas que não nasceram juntas, em pedir coisas que não me trariam nada, em exagerar a pesagem de coisas leves. Não me entregaria ao choro em seus braços, não entenderia errado intenções, não sofreria antecipadamente.
Na dobra da esquina seu corpo sumiu para sempre e não sei onde ela morreu.