O clique suave dos pingos me desperta. Parecem provocar minha atenção discretamente, como que só pra mim. Sentada aqui nesta mesa de pedra, vendo o chão de terra e escutando o farfalhar das árvores, sentindo a mudança do vento na pele, sei que a chuva se anuncia há algum tempo. Ignorei. Na verdade, não é que tenha ignorado, mas havia outras coisas a fazer. Eu corri contra o tempo, corri contra a chuva, corri contra mim. Enquanto observava sem observar a chuva se aproximar, fiz outras coisas. Por isso perdi a chuva se aproximando, ainda que a soubesse. Diz que toda chuva começa assim, com certos sinais, certos cheiros, certo sussurro, certo presságio. Julguei que era mais uma daquelas que parece que vem mas não vem, vivi muitas. Mas afinal, agorinha, agora que a sinto mais próxima, mais presente, mais aqui, tão perto, agora que as árvores farfalham, que o chão de terra espera, que um som novo chega de mansinho, o cheiro toma conta de mim inteira e, entre ansiosa, assustada e desejosa, sei que vai chover em mim. Parte do pensamento se levantou e foi ter sob o alambrado de eternit, mas eu, inteiramente eu, estou ficando. Eu conheço esse pensamento que foi pra sob o alambrado. Não me admira tanto o ficar quanto me admira o escolher ficar. A única coisa que tenho-me admirado é o susto. A vaidade da chuva a faz esperar mais um pouco apenas para que eu saiba que estou ficando porque quero, pra que ela saiba que estou ficando porque quero. Querer, afinal, já fazia tempo. Em alguns momentos, até desaprendi. E ela então vem. A mim me agrada imaginar que ela poderia contornar onde estou, que poderia se deixar levar pelo vento, que poderia não se deixar levar pelo vento e parar onde está, que poderia nem ter vindo a me espiar, que poderia... Mas sou eu mesma que já não posso. Sou eu que espero. Sou eu que estou. Sou eu que, sentindo a chuva chegar, fiquei. Encontrei mil e um afazeres que me detivessem, inventando mil e uma distrações que me aceitassem, arranjando mil e um pensamentos necessários, mil e uma tarefas imprescindíveis, mil e uma precisões de estar aqui fora neste momento. E, ao estar e ao cheirá-la com a mesma certeza de quem vê, já quase não me assusto de não me assustar. Ao contrário, inspiro forte, como se pudesse aumentar a capacidade pulmonar nesse exato instante, e parece que inspiro com tudo de mim, estou toda na ponta do nariz, a esperá-la passar do cheiro ao toque, a procurar vê-la, a desejar molhar-me. E, realmente, quando sem deixar de escutar os pingos começo a senti-los na pele, quando arrepio, quando ouriço, quando inspiro, toda eu estou aqui, arrepiando, ouriçando e inspirando em toda presença, sem desejar, apenas sendo. Sendo o arrepio, o ouriço, a inspiração, a chuva, a pele, a terra, o vento, o cheiro, sendo, com tudo mais, eu.
"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
2 de janeiro de 2026
11 de novembro de 2025
Um enorme fluxo de ideias se assoma, para todas as direções, como uma versão atualizada do meu antigo pega-varetas. Conquanto haja tantas possibilidades pelas beiradas de ir retirando pequenos contos, detalhes, tarefas, pensamentos, sentimentos e excessos do caminho, é exatamente ali no meio que se encontra a vareta que me atrai, que me fisga o canto do olhar distraindo a minha atenção plena. É esse jogo incrível de ver através, de ver partes, de ver nas sombras, de observar o emaranhado, que me absorve. Não adianta: desmontando o emaranhado, novo emaranhado surge. Não vê-lo seria, afinal, apenas mais um truque.
[15/4/2025]
15 de julho de 2025
Em todos os lugares deixo rastros. Pingo. Rasgo. Escorro. É como um excesso, mas parece resultado de uma falta. Não sou eu que perco o olhar, o olhar é que me perde. Não é nem como se eu estivesse em outro lugar, é como se não estivesse em lugar nenhum: nem aqui nem lá. Nem indo, nem chegando. Como se a minha matéria fosse um fio de aranha, visível em alguns ângulos no seu encontro com a luz, sutil, suave, fugidia, imprecisa, mas pegajosa, grudenta, envolvente. À percepção desse fio quase invisível, demoro muito até pensar em segui-lo, em encontrar suas pontas, descobrir seus caminhos, gasto meu tempo em observá-lo, reconhecê-lo, em não duvidá-lo. Gasto meu tempo. O tempo me gasta. Mas esgasto-me na percepção. Não sigo adiante. Um pouco perplexa, um pouco paralisada, um pouco apática, um pouco esquecida. Engasto-me. Na rua, alguns gritos ecoam, parecem imensamente distantes. Barulhos comuns, dessa vida aí fora, motores, escapes, engenhocas, tarefas, chaves, talheres, porcelanas, máquinas de lavar, aspirar, passar, cortar, triturar, entreter. Alguns tiques do relógio chamam minha atenção, me trazem de volta, confundem a matéria do tempo, que não é matéria. O que é? Transcorre. Escorre, pinga, rasga. O que é? Não sei.
13 de maio de 2025
Eu existo. Em vômitos, diarréias, dores, torcicolos, espasmos, contrações espremo como numa parição aquilo que me angustia. Não tem mistério o que me angustia, não é desconhecido. Não tenho pressa com minhas respostas, quero apenas que me deixem em paz, a seguir o meu curso sem aperreio, a decidir meus caminhos sem insinuações, abro mão das companhias se forem a me embaralhar a solução... Quero calma. Muita, muita, muita calma. Evito todo modo de conflito, estou profundamente concentrada em mim mesma, tenho respostas centrais que preciso investigar.
04/12/2014
26 de abril de 2025
14 de abril de 2025
Entro na água. Um pouco das ideias cai com a corrente, vão descendo, escorrem. O peito produz um ritmo próprio em que se respira e se desprende. As mãos pulsam, um pouco desordeiras, reflexões sentimentais. Os pés submergem. O seu barulho entrando na cena parece que quer mesmo a minha atenção. Eu dou. Um cheiro quente, entre o inodoro e o inebriante, dá uma pancada – você de costas se preocupa apenas com a água que cai. Se molha. Eu me ocupo. E com o tempo percebo com muita sutileza uma camada de consciência sua que sente, que está ali, que aguarda. E nesse súbito, em um qualquer sobressalto entre o banho e o fôlego, você esbarra o ombro no meu rosto de um jeito ocasional que quase passaria por descuido. Eu cheiro, e você permite.
6 de novembro de 2023
Acabei de chegar. Dois ou três volumes eu apoiei pelos móveis e o chão, olhando bastante o seu jeito de organizar as coisas e que coisas são essas. Acho engraçado as escolhas de textura que você faz, me agradam muito mais do que imaginei. De vez em quando eu imagino mesmo à toa umas outras situações que você nem imagina. Então ao chegar e colocar os volumes pelos móveis e o chão e rapidamente espiar os arredores, percebo que você já se sentou, em um banquinho conjurado do nada, e parece nem ter saído para me buscar. Mas eu entrei com tanto empuxo por aquela porta que eu tenho certeza que alguém me trouxe. O café está ótimo!, eu digo com a surpresa verdadeira de quem não conhece a sua medida. É ótima. A vista parece muito agradável em sua estética de vizinhança, com algumas árvores, inúmeros passantes e um tanto de carro como em todo lugar. E então, ainda com o copo na mão esquerda, um pouco absorta em tentar ler os nomes verticais dos livros, alguns de ponta-cabeça, me roça a mão direita algum susto. O toque é tão leve que a textura me fugiu. Ao descer a cabeça, eita, parece-me logo que o ar aqui embaixo é que está mais escasso. Nem lhe vejo, que com a ponta do nariz se encosta em algum lugar meu que não é nem maxilar, nem pescoço, nem orelha, mas algo como os três juntos. Não tenho muita certeza se seu objetivo é cheirar ou tocar, mas eu mesma não tenho mais muitos objetivos agora. Em pé, mas com um certo comichão na sola deles, de certo modo me parece que as pernas afrouxaram. Pode ser porque você é menor e seja eu tentando me encaixar na sua respirada. A grande questão é que nessas horas não se tem certeza de muita coisa.
28 de outubro de 2023
Não há o que se possa dizer que seja seguro. Aqui na caminhada parece ter chegado o momento de apenas observar. Há, entretanto, um universo de coisas que vai acontecendo em silêncio, sem ser contido, sem se dar nota, sem fazer barulho, sem parecer existir. Por passar assim tanto tempo vivendo como se não vivesse, vai adquirindo suas idiossincrasias, fazendo da metade do caminho sua casa, acomodando-se nos dias, alojando-se nos espaços, percebendo-se como vulto nas esquinas, será que era a coisa? ou apenas algo que sugeriu que fosse, mas que talvez nem seja? Vai-se misturando. Acontecendo de alguma forma, embora pareça não acontecer.
Com algum poder imprevisto, de alguma forma subterrânea, subcutânea, lá vai essa coisa crescendo. Não há como cercá-la, nem tampouco agora ela me respeita muito para que se deixe ser cercada. Eu também nem tenho mais argumentos para contê-la. Em alguns dias até tomamos café juntas. Certas vezes, quando acho que ela não está, de repente irrompe pela porta e se ocupa do sofá. Finge naturalidade. Ou eu finjo. Noutros dias, trabalho com ela ao lado; não se chama à atenção, até se poderia dizer que respeita a distribuição das horas, dos afazeres, mas permanece, ali está. Às vezes faz inclusive companhia no caminho de volta, evitando de algum modo que eu durma, que eu devaneie, que eu esqueça. E desse jeito que vai indo, vai indo.
29 de julho de 2022
Não tenho lá tanta certeza a ponto de dizer que o destino da caminhada, ou os mirantes, ou os pontos de descanso, ou a expectativa de fauna e flora estejam claros para mim. Uma segurança curiosa, entretanto, passeia ao meu lado e anda tão distraída que parece despreocupada com o que faço, as decisões que tomo nas bifurcações, trifurcações, quadrifurcações, os momentos em que paro a procurar a lua, o tempo que perco a escolher pedrinhas para levar comigo, que me encanto com uma planta que nunca vi, que fico lá com as mãos no solo tentando sentir e entender a terra, o tempo que invisto em descobrir a hora a partir do ângulo do sol, os momentos em que fico para trás para olhar esse bicho encantador que não é maior que a unha do meu mindinho... Mesmo ela também por vezes se atrasa e fica parada ao pé de uma árvore se refrescando na sombra, olhando galhos e folhas sem pressa alguma e só torna a me acompanhar quando já é um pontinho quase disfarçado na névoa do horizonte. Eu olho para trás muito (com frequência fingindo naturalidade), para ver se ela está lá. Ela está sempre – e às vezes quando me palpita não vê-la logo, de repente ela surge pela curva da estrada (ficou pra trás demais, mas está vindo) ou ouço um barulho de água e lá está ela de bunda de fora mijando numa planta e cutucando as pequenas coisas no chão acocorada. Parece muito despreocupada. Tenho dúvidas se ela sabe onde estou indo, se ela própria não tem opinião sobre o trajeto, se já conhece esse caminho ou se é ela própria quem precisa de companhia. De todo modo, embora não fale muito, tenho pra mim que está se divertindo.
3 de fevereiro de 2022
Como no início jogava muito e com vontade, pareceu a ele que continuaria a rolar os dados. E também tanta vocação tinha para a coisa que ele não pôde se preparar para que ela deixasse o tabuleiro. Ao sair, imaginou que voltaria em breve e assim, como não pudesse jogar os dados por ela, estabeleceu que a cada rodada ela andaria uma casa, o mínimo. Desse modo, alternava rodadas com a expectativa de seu retorno. Acontece que ele, jogando os dados – e com tanta imperícia –, caía nas tarefas mais ingratas e assim calhava de estar sempre atrás. Aquecia os dados nas mãos, cantava macumbas, fazia figas, jogava-os contra a parede para dar à sorte chance de demonstrar sua presença. Mas estava sempre atrás dela, que andava uma casa por vez, sem realmente andar. Comentava no início entre risos que não era possível!, era muita sorte na tranquilidade, muito talento estar na frente sem sequer se esforçar. Depois ficou calado durante um tempo, lhe magoava o moral aquela situação. Mais um pouco e tornou-se sarcástico, azedo. (Mas ela não tinha voltado ainda para perceber.) Depois apaziguou e manteve-se resoluto, determinado. Jogava o dado com fé. As horas passavam, o retorno não acontecia e por sorte o tabuleiro era imenso, daqueles que davam voltas e voltas até o quadrado final. Caía nas casas mais improváveis. Precisou conseguir o telefone de uma amiga; conseguiu. Precisou desenhar um plano infalível; desenhou. Precisou contar um segredo; contou. Precisou comprar flores no domingo às 21h; comprou. Precisou fazer amarração para o amor ou voltar cinco casas; voltou cinco casas, amarração para o amor não fazia de jeito nenhum – não era exatamente que não acreditasse na coisa: recusava-se a dar brecha a que o amor não fosse autêntico. Não queria ganhar o jogo a qualquer preço, queria ganhar o jogo no dado. As horas foram passando. Parecia-lhe que voltaria na hora mais inesperada – e mais certa, o acaso tem disso –, e quem sabe teria passado o tempo a pesquisar estratégias na internet sobre como vencer o jogo, como dobrar o tabuleiro, como viciar o dado, como distrair o oponente. Nada disso era realmente necessário, ela ainda estava na frente. A cada volta, caminhava uma casa e não estava presente sequer para mover o peão. Quando caiu na casa do telefone, já tinha. Quando caiu na casa do plano infalível, consensuou-se que já havia feito. Quando caiu na casa das flores, ele considerou realizado, por aquela situação da outra vez. Quando caiu na casa da amarração, ele fez por ela. Quando caiu na casa do segredo, não estava lá pra contar. De um em um, chegou ao fim do tabuleiro e ganhou, e foi assim que o jogo terminou. Mais desolado que indignado, ele respirou fundo e se levantou, com o peito erguido, passou por cima do tabuleiro e saiu sem arrumar nada. Meses depois, voltou para fechar a porta. Meses mais tarde, como o tabuleiro continuava no meio do cômodo e havia para o quarto outras funcionalidades que estavam sendo adiadas, abriu a porta. Encontrou as coisas como haviam ficado. Tudo tinha um cheiro familiar, de festa. Percebeu que tinha deixado uma latinha de cerveja pela metade e, pela aparência do cinzeiro, deixou também um cigarro aceso que se apagou por si próprio. Com a porta fechada, o cheiro apurou e ao abrir a porta a memória veio com tudo na cara. Tirou os lixos e fechou a porta de novo. Passou um ano e os planos para o quarto precisavam ser resolvidos. Passou um tempo decidindo-os, para poder ter clareza e fazer tudo com mais eficácia ao reabilitar o aposento, mas nessa preparação esqueceu-se de se preparar para o tabuleiro. Decidido, foi até lá e abriu a porta. O quarto, arrumadinho, tinha o tabuleiro num canto como se os jogadores tivessem apenas saído brevemente para usar o banheiro – e ele se perguntou se não tinha sido isso mesmo. Olhou durante um tempo, sem encontrar o sentimento. Agachou-se, olhou para os peões, as cartas, as tarefas ticadas dos bloquinhos. Deu um muxoxo entre o riso e o deboche. Pegou os dados na mão. Palma contra palma, esfregou durante um tempo enquanto olhava a cena. Então pegou a caixa ao lado, colocou os dados no lugar, juntou as cartas, reembaralhou e guardou, reuniu de uma mãozada só o peões e colocou cada um em um buraco diferente, de lados opostos, passou uma mão pelo tabuleiro como se tirasse o pó, dobrou e encaixou. O bloquinho ele pegou e deu uma olhada, sem muita emoção. Ficou olhando; arrancou as duas folhas usadas, colocou o resto do bloco no lugar dele. Então levantou a estrutura plástica interna da caixa que organizava as partes do jogo, colocou as duas folhas no fundo, repôs a parte plástica e fechou o jogo. Não fazia mais a menor ideia do que faria com o quarto, mas deixou a porta aberta.