Começo a escrever, anoto "Meu corpo existe"; de pronto ele se pronuncia, "Você existe". Remendo, "Eu existo", numa quase resignação que se não fossem as condições atuais me passaria direto pelo filtro dos automatismos. Vou saindo por todos os meus poros, e mesmo nesta revelação óbvia não me encontro, acho que é o corpo. Eu mesma estou tão interna que não chega a ser introspectiva, um pouco mais escondida, um pouco esquecida. Diarréias, vômitos, contrações, dores, espasmos, torcicolos, os meus sintomas de mim revelam um parasita estranho que não poderia ser menos material: o meu sumiço de mim. Se antes o tempo não se preocupava comigo enquanto eu demorava a encontrar as pepitas das respostas que vasculhava, é porque sabia que de todo modo na demora eu estava a procurá-las. Neste modo agora, não temos segurança. O silêcio das minhas buscas confundiu o objeto final. E o tempo, aperreado pelo seu próprio jeito – que não pode parar, se viu resoluto a arrastar-me de volta, e como em mágica trouxe nas formas mais visíveis e pessoais a minha loucura silenciosa de deixar-me passar. Tanta observação da vida ao redor deixou de ser observação para ser passividade.
Eu existo. Em vômitos, diarréias, dores, torcicolos, espasmos, contrações espremo como numa parição aquilo que me angustia. Não tem mistério o que me angustia, não é desconhecido. Não tenho pressa com minhas respostas, quero apenas que me deixem em paz, a seguir o meu curso sem aperreio, a decidir meus caminhos sem insinuações, abro mão das companhias se forem a me embaralhar a solução... Quero calma. Muita, muita, muita calma. Evito todo modo de conflito, estou profundamente concentrada em mim mesma, tenho respostas centrais que preciso investigar.
04/12/2014
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