2 de janeiro de 2026

O clique suave dos pingos me desperta. Parecem provocar minha atenção discretamente, como que só pra mim. Sentada aqui nesta mesa de pedra, vendo o chão de terra e escutando o farfalhar das árvores, sentindo a mudança do vento na pele, sei que a chuva se anuncia há algum tempo. Ignorei. Na verdade, não é que tenha ignorado, mas havia outras coisas a fazer. Eu corri contra o tempo, corri contra a chuva, corri contra mim. Enquanto observava sem observar a chuva se aproximar, fiz outras coisas. Por isso perdi a chuva se aproximando, ainda que a soubesse. Diz que toda chuva começa assim, com certos sinais, certos cheiros, certo sussurro, certo presságio. Julguei que era mais uma daquelas que parece que vem mas não vem, vivi muitas. Mas afinal, agorinha, agora que a sinto mais próxima, mais presente, mais aqui, tão perto, agora que as árvores farfalham, que o chão de terra espera, que um som novo chega de mansinho, o cheiro toma conta de mim inteira e, entre ansiosa, assustada e desejosa, sei que vai chover em mim. Parte do pensamento se levantou e foi ter sob o alambrado de eternit, mas eu, inteiramente eu, estou ficando. Eu conheço esse pensamento que foi pra sob o alambrado. Não me admira tanto o ficar quanto me admira o escolher ficar. A única coisa que tenho-me admirado é o susto. A vaidade da chuva a faz esperar mais um pouco apenas para que eu saiba que estou ficando porque quero, pra que ela saiba que estou ficando porque quero. Querer, afinal, já fazia tempo. Em alguns momentos, até desaprendi. E ela então vem. A mim me agrada imaginar que ela poderia contornar onde estou, que poderia se deixar levar pelo vento, que poderia não se deixar levar pelo vento e parar onde está, que poderia nem ter vindo a me espiar, que poderia... Mas sou eu mesma que já não posso. Sou eu que espero. Sou eu que estou. Sou eu que, sentindo a chuva chegar, fiquei. Encontrei mil e um afazeres que me detivessem, inventando mil e uma distrações que me aceitassem, arranjando mil e um pensamentos necessários, mil e uma tarefas imprescindíveis, mil e uma precisões de estar aqui fora neste momento. E, ao estar e ao cheirá-la com a mesma certeza de quem vê, já quase não me assusto de não me assustar. Ao contrário, inspiro forte, como se pudesse aumentar a capacidade pulmonar nesse exato instante, e parece que inspiro com tudo de mim, estou toda na ponta do nariz, a esperá-la passar do cheiro ao toque, a procurar vê-la, a desejar molhar-me. E, realmente, quando sem deixar de escutar os pingos começo a senti-los na pele, quando arrepio, quando ouriço, quando inspiro, toda eu estou aqui, arrepiando, ouriçando e inspirando em toda presença, sem desejar, apenas sendo. Sendo o arrepio, o ouriço, a inspiração, a chuva, a pele, a terra, o vento, o cheiro, sendo, com tudo mais, eu.

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