28 de maio de 2026

Sinto um tictac respirando no meu pescoço. Não tenho como esquecer o tempo que passa. A cada hora, resgato das alturas o meu pensamento, que viaja à minha frente dificultando minha atenção plena. É um fato que ela não está toda no mesmo lugar. Vaga, desbravadora de caminhos, inventora de possibilidades, menina risonha que pula poças d'água e quanto mais a espalha, mais se entretém. Parece criança a correr entre os bancos da igreja, gritando com emoção e sem freios a cada imaginação criada, saracoteando entre as pessoas obedientes e achando graça. Nesse meu estado, nem refreio a menina, apenas olho com emoção, mas ainda disfarço que me pertence. Espero até acabar o culto, e lá fora a resgato jogando pão aos pombos tentando acertar-lhes a cabeça. Aí sim eu rio, folgazã, de costas para a instituição, embora na soleira da porta a deixá-la. É o máximo que consigo segurar de mim. Aí, vendo a festa com os pombos, corro a agarrá-la pelas costas e pernas e a ergo até beijar a barriga infantil que se contrai em risadas. Ela sabe que sou eu e nem sei como me esperou até agora, com tanta coisa mais interessante a fazer. Mas felizes voltamos de mãos dadas para casa rindo de tudo e de todos, comentando vitrines, subindo e descendo o meio-fio, apontando passarinhos nas linhas suspensas e nos voos rasantes, inventando histórias para cada janela e afazeres para cada passante. Ela só dorme de cansaço, e sou eu quem lhe ergue as cobertas.

15 de maio de 2026

Quando abri o presente e li a dedicatória... nem sei dizer se sei dizer. Dizia (ou assim eu li):

Não consigo esquecer você, embora não tenha nada para lembrar. Não vivemos no corpo ainda tudo o que vivi na mente. Mas também não posso dizer que você habita uma área enorme dos meus pensamentos: na verdade é dizer que você transita com uma impressionante velocidade entre os pensamentos que tenho. De repente, lá está você. Muitas das vezes apenas sentada em uma cadeira no canto da cena a espiar o transcorrer das minhas ideias. Noutras vezes, enorme, sobre mim, num primeiríssimo plano que toma tudo o que vejo. Noutras ainda, sou eu quem procuro e você não estava, e assim você vem. Este presente que lhe entrego é na verdade apenas um pretexto para me dar e assim saber que de algum modo você também me tem. Boas festas.