10 de agosto de 2026

Não adianta mais investigar os rabiscos, vasculhar as suas fotos na surdina das minhas madrugadas, no canto dos meus olhos, nas esquinas do desejo. Não adianta mais reunir o conjunto da sua obra, as suas referências, estimar os seus sonhos, os seus anseios, os seus sentidos. Não adianta mais fabular os encontros, as palavras, os olhares. Não adianta esperar o toque. Não adianta imaginar as correspondências. Muito tempo passa. Confundo a minha coragem, que não vem, com as frases estimulantes dos horóscopos mais ousados, das previsões mais confiantes, dos espetáculos celestes mais raros e impactantes. Mas na terra vago por aí, atordoada de sentimentos, amassada de vontades, embaralhada de destinos, rasgada de fraqueza, desconfiança e incapacidades. Exagero o tom, tanto da solidão quanto da fé. Rascunho outras versões de mim, pra que ao menos no texto eu possa alcançá-las. Mas no mais... aqui estou.

23 de julho de 2026

Quando chego aqui, esta noite, sei que não caminhei a lugar algum, mas tive as portas abertas por um vento qualquer, ou pela extrema fixidez do mundo, de onde nada vinha me encontrar. Quando vem assim a noite, sei que basta escrever com os dedos, sem a mente, pois eles vão dizer o que eu tento esconder. Sei que posso aos olhos deixar embotar, embaçar, embaralhar, pois em mim as palavras se ordenam por si, como amigas, como amantes, a se encontrarem através de mim. E eu testemunho esse bailado simples e lindo e lúdico de ser eu sem intermediações, sem crenças, sem sentimentos, só comigo sendo, sem ser vista por mim sendo. As horas se entrelaçam no momento fugaz em que a testa é a mente e a mente é a testa, em que o desejo sou eu e eu sou o desejo e ninguém mais está errado apenas por sentir, por desejar, por afoguear. Mas eu, voltando lentamente, vou pondo defeito em tudo.

28 de maio de 2026

Sinto um tictac respirando no meu pescoço. Não tenho como esquecer o tempo que passa. A cada hora, resgato das alturas o meu pensamento, que viaja à minha frente dificultando minha atenção plena. É um fato que ela não está toda no mesmo lugar. Vaga, desbravadora de caminhos, inventora de possibilidades, menina risonha que pula poças d'água e quanto mais a espalha, mais se entretém. Parece criança a correr entre os bancos da igreja, gritando com emoção e sem freios a cada imaginação criada, saracoteando entre as pessoas obedientes e achando graça. Nesse meu estado, nem refreio a menina, apenas olho com emoção, mas ainda disfarço que me pertence. Espero até acabar o culto, e lá fora a resgato jogando pão aos pombos tentando acertar-lhes a cabeça. Aí sim eu rio, folgazã, de costas para a instituição, embora na soleira da porta a deixá-la. É o máximo que consigo segurar de mim. Aí, vendo a festa com os pombos, corro a agarrá-la pelas costas e pernas e a ergo até beijar a barriga infantil que se contrai em risadas. Ela sabe que sou eu e nem sei como me esperou até agora, com tanta coisa mais interessante a fazer. Mas felizes voltamos de mãos dadas para casa rindo de tudo e de todos, comentando vitrines, subindo e descendo o meio-fio, apontando passarinhos nas linhas suspensas e nos voos rasantes, inventando histórias para cada janela e afazeres para cada passante. Ela só dorme de cansaço, e sou eu quem lhe ergue as cobertas.

15 de maio de 2026

Quando abri o presente e li a dedicatória... nem sei dizer se sei dizer. Dizia (ou assim eu li):

Não consigo esquecer você, embora não tenha nada para lembrar. Não vivemos no corpo ainda tudo o que vivi na mente. Mas também não posso dizer que você habita uma área enorme dos meus pensamentos: na verdade é dizer que você transita com uma impressionante velocidade entre os pensamentos que tenho. De repente, lá está você. Muitas das vezes apenas sentada em uma cadeira no canto da cena a espiar o transcorrer das minhas ideias. Noutras vezes, enorme, sobre mim, num primeiríssimo plano que toma tudo o que vejo. Noutras ainda, sou eu quem procuro e você não estava, e assim você vem. Este presente que lhe entrego é na verdade apenas um pretexto para me dar e assim saber que de algum modo você também me tem. Boas festas.

2 de janeiro de 2026

O clique suave dos pingos me desperta. Parecem provocar minha atenção discretamente, como que só pra mim. Sentada aqui nesta mesa de pedra, vendo o chão de terra e escutando o farfalhar das árvores, sentindo a mudança do vento na pele, sei que a chuva se anuncia há algum tempo. Ignorei. Na verdade, não é que tenha ignorado, mas havia outras coisas a fazer. Eu corri contra o tempo, corri contra a chuva, corri contra mim. Enquanto observava sem observar a chuva se aproximar, fiz outras coisas. Por isso perdi a chuva se aproximando, ainda que a soubesse. Diz que toda chuva começa assim, com certos sinais, certos cheiros, certo sussurro, certo presságio. Julguei que era mais uma daquelas que parece que vem mas não vem, vivi muitas. Mas afinal, agorinha, agora que a sinto mais próxima, mais presente, mais aqui, tão perto, agora que as árvores farfalham, que o chão de terra espera, que um som novo chega de mansinho, o cheiro toma conta de mim inteira e, entre ansiosa, assustada e desejosa, sei que vai chover em mim. Parte do pensamento se levantou e foi ter sob o alambrado de eternit, mas eu, inteiramente eu, estou ficando. Eu conheço esse pensamento que foi pra sob o alambrado. Não me admira tanto o ficar quanto me admira o escolher ficar. A única coisa que tenho-me admirado é o susto. A vaidade da chuva a faz esperar mais um pouco apenas para que eu saiba que estou ficando porque quero, pra que ela saiba que estou ficando porque quero. Querer, afinal, já fazia tempo. Em alguns momentos, até desaprendi. E ela então vem. A mim me agrada imaginar que ela poderia contornar onde estou, que poderia se deixar levar pelo vento, que poderia não se deixar levar pelo vento e parar onde está, que poderia nem ter vindo a me espiar, que poderia... Mas sou eu mesma que já não posso. Sou eu que espero. Sou eu que estou. Sou eu que, sentindo a chuva chegar, fiquei. Encontrei mil e um afazeres que me detivessem, inventando mil e uma distrações que me aceitassem, arranjando mil e um pensamentos necessários, mil e uma tarefas imprescindíveis, mil e uma precisões de estar aqui fora neste momento. E, ao estar e ao cheirá-la com a mesma certeza de quem vê, já quase não me assusto de não me assustar. Ao contrário, inspiro forte, como se pudesse aumentar a capacidade pulmonar nesse exato instante, e parece que inspiro com tudo de mim, estou toda na ponta do nariz, a esperá-la passar do cheiro ao toque, a procurar vê-la, a desejar molhar-me. E, realmente, quando sem deixar de escutar os pingos começo a senti-los na pele, quando arrepio, quando ouriço, quando inspiro, toda eu estou aqui, arrepiando, ouriçando e inspirando em toda presença, sem desejar, apenas sendo. Sendo o arrepio, o ouriço, a inspiração, a chuva, a pele, a terra, o vento, o cheiro, sendo, com tudo mais, eu.