11 de novembro de 2025

Um enorme fluxo de ideias se assoma, para todas as direções, como uma versão atualizada do meu antigo pega-varetas. Conquanto haja tantas possibilidades pelas beiradas de ir retirando pequenos contos, detalhes, tarefas, pensamentos, sentimentos e excessos do caminho, é exatamente ali no meio que se encontra a vareta que me atrai, que me fisga o canto do olhar distraindo a minha atenção plena. É esse jogo incrível de ver através, de ver partes, de ver nas sombras, de observar o emaranhado, que me absorve. Não adianta: desmontando o emaranhado, novo emaranhado surge. Não vê-lo seria, afinal, apenas mais um truque.  

[15/4/2025]

15 de julho de 2025

Em todos os lugares deixo rastros. Pingo. Rasgo. Escorro. É como um excesso, mas parece resultado de uma falta. Não sou eu que perco o olhar, o olhar é que me perde. Não é nem como se eu estivesse em outro lugar, é como se não estivesse em lugar nenhum: nem aqui nem lá. Nem indo, nem chegando. Como se a minha matéria fosse um fio de aranha, visível em alguns ângulos no seu encontro com a luz, sutil, suave, fugidia, imprecisa, mas pegajosa, grudenta, envolvente. À percepção desse fio quase invisível, demoro muito até pensar em segui-lo, em encontrar suas pontas, descobrir seus caminhos, gasto meu tempo em observá-lo, reconhecê-lo, em não duvidá-lo. Gasto meu tempo. O tempo me gasta. Mas esgasto-me na percepção. Não sigo adiante. Um pouco perplexa, um pouco paralisada, um pouco apática, um pouco esquecida. Engasto-me. Na rua, alguns gritos ecoam, parecem imensamente distantes. Barulhos comuns, dessa vida aí fora, motores, escapes, engenhocas, tarefas, chaves, talheres, porcelanas, máquinas de lavar, aspirar, passar, cortar, triturar, entreter. Alguns tiques do relógio chamam minha atenção, me trazem de volta, confundem a matéria do tempo, que não é matéria. O que é? Transcorre. Escorre, pinga, rasga. O que é? Não sei. 

13 de maio de 2025

Começo a escrever, anoto "Meu corpo existe"; de pronto ele se pronuncia, "Você existe". Remendo, "Eu existo", numa quase resignação que se não fossem as condições atuais me passaria direto pelo filtro dos automatismos. Vou saindo por todos os meus poros, e mesmo nesta revelação óbvia não me encontro, acho que é o corpo. Eu mesma estou tão interna que não chega a ser introspectiva, um pouco mais escondida, um pouco esquecida. Diarréias, vômitos, contrações, dores, espasmos, torcicolos, os meus sintomas de mim revelam um parasita estranho que não poderia ser menos material: o meu sumiço de mim. Se antes o tempo não se preocupava comigo enquanto eu demorava a encontrar as pepitas das respostas que vasculhava, é porque sabia que de todo modo na demora eu estava a procurá-las. Neste modo agora, não temos segurança. O silêcio das minhas buscas confundiu o objeto final. E o tempo, aperreado pelo seu próprio jeito – que não pode parar, se viu resoluto a arrastar-me de volta, e como em mágica trouxe nas formas mais visíveis e pessoais a minha loucura silenciosa de deixar-me passar. Tanta observação da vida ao redor deixou de ser observação para ser passividade.

Eu existo. Em vômitos, diarréias, dores, torcicolos, espasmos, contrações espremo como numa parição aquilo que me angustia. Não tem mistério o que me angustia, não é desconhecido. Não tenho pressa com minhas respostas, quero apenas que me deixem em paz, a seguir o meu curso sem aperreio, a decidir meus caminhos sem insinuações, abro mão das companhias se forem a me embaralhar a solução... Quero calma. Muita, muita, muita calma. Evito todo modo de conflito, estou profundamente concentrada em mim mesma, tenho respostas centrais que preciso investigar.

04/12/2014

26 de abril de 2025


Não tem jeito. Algumas coisas é melhor deixar como são. Por mais que a saúde pareça o tesouro da vida, como o próprio ar a que se respira, ainda assim os entorpecentes são tão fundamentais quanto. O peso de haver alma exige entorpecentes. De repente em um sábado tranquilo, com sol, vento e passarinhos, aparece a alma. Plena, como lhe é tão próprio, de incertezas. Plena de mim. Como se esquiva desses ágeis pensamentos, velozes, pungentes, precisos? Como me protejo de mim, se aonde vou estou? Como fazer planos para o futuro se o presente já é tão incerto no que está sendo e no que poderia ser? A inconstância como condição demanda o ópio como opção. Demanda um olhar enviesado, torto. Demanda alguns excessos. Eu, se transbordo, que faço com o incontido, com o aflorado, com o exposto? Que faço comigo? O espectro de possibilidades é exatamente como um prisma, tudo é a mesma coisa, apenas mais visível. Tudo sendo, ao seu jeito, junto, bagunçado, confuso e um tanto quanto mágico, feérico. Que bagunça. Quantas ilusões deliciosas. "A vida é sonho". Eita, que zona. Escrever é um jeito de existir.

14 de abril de 2025

Entro na água. Um pouco das ideias cai com a corrente, vão descendo, escorrem. O peito produz um ritmo próprio em que se respira e se desprende. As mãos pulsam, um pouco desordeiras, reflexões sentimentais. Os pés submergem. O seu barulho entrando na cena parece que quer mesmo a minha atenção. Eu dou. Um cheiro quente, entre o inodoro e o inebriante, dá uma pancada – você de costas se preocupa apenas com a água que cai. Se molha. Eu me ocupo. E com o tempo percebo com muita sutileza uma camada de consciência sua que sente, que está ali, que aguarda. E nesse súbito, em um qualquer sobressalto entre o banho e o fôlego, você esbarra o ombro no meu rosto de um jeito ocasional que quase passaria por descuido. Eu cheiro, e você permite.