Como é difícil saber o que dizer. Escrever nesse momento foge completamente ao controle da narrativa, da estética, da beleza, do tino artístico, do controle. Fujo ao controle. Intensamente. As mãos envolvem algo que se expande tanto pelos dedos que parece que a oprimimos mesmo ao tentar sustentá-la. Uma enorme força de dentro para fora se impõe avassaladora e parece que nem sou eu quem escolho as palavras, elas vem, vão, ficam, insistem, rasgam todo o assoalho bem envernizado sobre o qual tenho pretendido caminhar, o qual tenho mantido. De repente questiona-se tudo, como numa profusão de raios em todas as direções, como infantil que somos, incontroláveis, muito mais imprevisíveis do que julgávamos aos quatorze anos, muito mais próximos aos contos que líamos e pareciam hipérbole de sentimento, lirismo, exagero, exaltação. Viver é essa exaltação, esse arroubo, esse susto, esse espanto. Por que estratégia mental conseguirei me convencer a desver? E agora, que é chegado o momento em que não quero me convencer? Em que não quero desver? Não recusar, não lutar contra, não negar, não caber. E agora? É tudo ao mesmo tempo possibilidade e ilusão, explosão e escorrimento, sublimação e vento. E agora? Agora nada. Agora tempo, agora espaço. Agora. Sem ontem, sem amanhã. Agora. [12/11/2025]
"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
25 de agosto de 2026
10 de agosto de 2026
Não adianta mais investigar os rabiscos, vasculhar as suas fotos na surdina das minhas madrugadas, no canto dos meus olhos, nas esquinas do desejo. Não adianta mais reunir o conjunto da sua obra, as suas referências, estimar os seus sonhos, os seus anseios, os seus sentidos. Não adianta mais fabular os encontros, as palavras, os olhares. Não adianta esperar o toque. Não adianta imaginar as correspondências. Muito tempo passa. Confundo a minha coragem, que não vem, com as frases estimulantes dos horóscopos mais ousados, das previsões mais confiantes, dos espetáculos celestes mais raros e impactantes. Mas na terra vago por aí, atordoada de sentimentos, amassada de vontades, embaralhada de destinos, rasgada de fraqueza, desconfiança e incapacidades. Exagero o tom, tanto da solidão quanto da fé. Rascunho outras versões de mim, pra que ao menos no texto eu possa alcançá-las. Mas no mais... aqui estou.