15 de julho de 2025

Em todos os lugares deixo rastros. Pingo. Rasgo. Escorro. É como um excesso, mas parece resultado de uma falta. Não sou eu que perco o olhar, o olhar é que me perde. Não é nem como se eu estivesse em outro lugar, é como se não estivesse em lugar nenhum: nem aqui nem lá. Nem indo, nem chegando. Como se a minha matéria fosse um fio de aranha, visível em alguns ângulos no seu encontro com a luz, sutil, suave, fugidia, imprecisa, mas pegajosa, grudenta, envolvente. À percepção desse fio quase invisível, demoro muito até pensar em segui-lo, em encontrar suas pontas, descobrir seus caminhos, gasto meu tempo em observá-lo, reconhecê-lo, em não duvidá-lo. Gasto meu tempo. O tempo me gasta. Mas esgasto-me na percepção. Não sigo adiante. Um pouco perplexa, um pouco paralisada, um pouco apática, um pouco esquecida. Engasto-me. Na rua, alguns gritos ecoam, parecem imensamente distantes. Barulhos comuns, dessa vida aí fora, motores, escapes, engenhocas, tarefas, chaves, talheres, porcelanas, máquinas de lavar, aspirar, passar, cortar, triturar, entreter. Alguns tiques do relógio chamam minha atenção, me trazem de volta, confundem a matéria do tempo, que não é matéria. O que é? Transcorre. Escorre, pinga, rasga. O que é? Não sei.