Nada se passa. Embora sejam duas da manhã e o sono lhe tenha escapado com frequência nos últimos dias, nada se passa. Não tem pesadelos, nem preocupações. Não lhe vêm más memórias, nem excesso de planos. Sente uma certa azia, mas lhe parece que o que a mantém acordada altas horas é a luz da janela dos vizinhos. Dorme e, ao acordar para qualquer mijada noturna, agarra-se numa luz. Existe uma força de atração em imaginar o que eles fazem, o que faria se fosse eles e o que faria com eles. Por vezes enquanto mija escuta certos barulhos que lhe parecem sussurros e muito frequentemente gemidos, mas ao segurar o xixi para escutar, emudecem. Às vezes ainda o acendedor do fogão ressoa em algum apartamento, e lá vai ela variar a pensar quem cozinharia a essa hora, por que e o que. Imagina a cena da cozinha. Resgata alguém do passado remoto e coloca na cozinha e finaliza aquela conversa de anos atrás em que faltou dizer. Ou o passeante noturno que leva o cachorro para passear às três da manhã – o pobre cachorro mal se aguenta em pé, a cada minuto quatro passos, para pra cheirar a planta e lá está há tanto tempo que acho que dormiu. Que imagina o passeante a olhar a lua, parado, como se esperasse o cachorro? O cheiro da dama-da-noite que exala de repente quando quase ninguém está ali pra sentir? Está ela, apoiada na janela, a sonhar na pele dos outros.
"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
30 de janeiro de 2022
24 de janeiro de 2022
Julio caminha pela calçada, muito por hábito, mas em si parece que caminha no meio da rua, e isso lhe excita como se corresse perigo. Corre, mas não no meio da rua. Acende um cigarro, reflete ideias abstratas que são mais sensações. O hábito do cigarro não é mais o mesmo parceiro. Existe alguma memória antiga que se agarrou ao cigarro, um jeito de ser, a expectativa de um jeito de ser. Fuma como quem evita rememorar, mas rememora. Coça a barba com as unhas, escuta o barulho dentro da cabeça. Coçar é também um pouco sua forma de pensar; como se as ideias não corressem apenas quimicamente pelo cérebro, mas sobre os dedos, sob a pele. A garganta arranha na cura da semana passada, quando esteve irritada, como ele. Não devia ser somatização, porque ele ainda está irritado, ela não. O cigarro é como uma desculpa para a solidão, uma poesia para a solidão. Como se, na fumaça, se envolvesse algum mistério da vida que justificaria tamanha confusão. Não justifica. Desta vez, em diferença de outras, não há amantes errados, amigos distraídos, choques de personalidade, esquecimentos inconvenientes. Há Julio, que caminha na calçada como se caminhasse no meio da rua. Em algum lugar do seu metro e oitenta existe um grande buraco. Não tem bem certeza se vazio ou não, mas reconhece o buraco. Ali, onde ao menos ele está dentro, parece existir um certo ar suspenso, uma certa expectativa, uma certa fuligem, que sabe, que se deposita sem efetivamente se depositar, parece mesmo estar suspensa, porque lhe toca a pele e porque lhe pesa o ar. Não é bem que lhe pareça certo estar ali, mas está ali. Não é bem que lhe pareça desconhecida, mas também. Toma-lhe bem um buzinaço nos cornos agora, não tem certeza de que era pra si, mas o carro passou zunindo e pareceu-lhe que qualquer coisa foi dita pelas janelas. Olhou ao redor, e embora não tenha visto ninguém, no meio do movimento perdera um pouco a concentração. Essa fuligem suspensa, o que será. Respira fundo, como se tivesse os sentidos apurados o suficiente para lhe sentir pelas narinas o que a possa justificar, como se sondasse sua intimidade profunda, seu mistério, o fundo sensível do que ela significa. Mas não sentiu cheiro nenhum, a não ser do cigarro, nem sensibilidade nenhuma, a não ser talvez um excesso de fumaça represada. Soltou a baforada ou um certo ar de resignação. Fechou os olhos como que para concentrar-se naquela sensação subterrânea de alguma ideia brilhante que lhe aflorava, mas apenas simbolicamente, pois atravessava a rua e não podia fechar os olhos. Também parado fechava pouco os olhos assim de forma literal porque tinha muitos conhecidos e podia ser que lhe encontrassem desse jeito meio pela metade e lhe era muito difícil responder com a metade socialmente conveniente – entre a auto-sabotagem e a busca de si, acabava começando conversas sinceras demais depois de um simples tudo bem. Coçou a barba no sentido do pomo de adão ao queixo, pensava ou sentia. No meio daquela poeirada toda suspensa, que lhe arrodeava o caminho e parecia deixar rastros do seu trajeto, discernia aqui e ali uma coisa antiga, como um pedaço de papel queimado quase todo, só deixando meia palavra e o resto da sugestão do que poderia ser, do que já foi. Preferia a palavra inteira, assim só meia poderia ser tanta coisa que era como se fosse todas elas. Sentiu qualquer coisa no pâncreas, ou no fígado, ou no estômago, não tinha bem certeza, não conhecia assim as vísceras. Mas a dor era sua, e vinha de dentro. Essa incerteza do fígado, do pâncreas, do estômago, da palavra, da fuligem, do buraco cheio ou vazio, muita coisa, em que ordem deveria começar a se preocupar não sabia. Mas esta memória que lhe agarrava as ideias, o cheiro do cigarro, a textura da poeira, o calor da buzina e os gritos da janela parecia, e era, conhecida. Não parecia tão estrangeira assim, como se já tivesse se insinuado antes, mas onde exatamente e quando e com quem ou sem ninguém. Sem ninguém. A coisa se insinuava por si. Sem ninguém mas através de alguém. Enquanto caminhava e respeitava as regras de trânsito, investigava sem investigar o buraco em que se encontrava. Este vazio sem forma, mas com conteúdo. Como um buraco negro, invisível e poderoso, atraente, magnânimo. E lá estava Julio, no meio da rua.
14 de junho de 2021
Enquanto eu deveria produzir tantos materiais, planos, estratégias, cronogramas, controles, tabelas, pareceres, você caminha pelos meus corredores. Eu não vejo, mas eu sinto. Inclusive em locais e horas inconvenientes em que deveria estar praticando a atenção plena em uma coisa completamente diferente do que nessa sensação que você me dá. Você passeia... textura delicada dos seus dedos, que por dentro inventam lugares novos, ideias improváveis, jeitos muito imprevisíveis de me trazer para onde você quer colocar. Você põe.
Marcamos um encontro. Enquanto várias ideias precisam ser debatidas, analisadas, decididas, estou viajando em uma situação completamente diferente. Olho sem pressa o seu rosto, com muitos detalhes e pausas absurdas. Lá no fundo, você fala o que viemos discutir; parece, eu escuto. O meu prazer é o seu prazer, não assim desse jeito cafona, mas em testemunhar as suas reviradas de olhos, o desacerto da sua respiração, a denuncia implanejada do seu desejo. Você regula o suspiro, mas o peito sobe mais do que se fosse uma respirada comum. Confissões a contragosto. Fecho os olhos por um tempo que deve ter parecido longo, "e então?", você me resgata, digo que estou considerando tudo o que você me disse, mas respondo com o que pensei enquanto me detinha em imaginar uma outra circunstância... "parece ótimo". Por sorte, seu plano era ótimo mesmo, e posso manter essa ideia. Mas agora, debruçada de lado encostada no seu corpo, volto a olhar os detalhes do seu rosto. Os cabelos, os ossos da clavícula, algumas marcas. E pra baixo vejo em perspectiva o resto do seu corpo. Mas o que me interessa sumariamente é a sua cara. São os seus olhos. Seus trejeitos. As portas de entrada de você.
2 de abril de 2021
25 de março de 2021
Fecho os olhos para lhe ver. Lá está você, de cima a baixo. Parece até que esperava, que pacientemente aguardava a minha recusa esmorecer enquanto displicentemente percorria as gavetas, armários e bolsinhas em que organizo tudo em mim. Afinal me parece que cheguei aqui ao procurar outra coisa... Que coisa? Aqui estou à sua frente, nessa qualquer mesa de bar, esperando à porta do banheiro desse pé-sujo que era o último aberto e daonde você não sai nem por decreto. À medida que espero sua sede terminar, vou ouvindo várias estórias que não tenho certeza se são a mesma, cheia de pessoas, de jeitos, de vontades e de esquecimentos. Enquanto estou aqui, parece até que você não me esqueceu. Nesse vaivém da sua prosa, me vejo a discordar da sua decisão de ir embora, e trago para a mesa um assunto que acho que não era aquele sobre o qual conversávamos... Não sei. Em todos estes caminhos tenho a impressão de que você falava sobre mim e levei pro pessoal. Enquanto você meio que se defende, meio que dá risada, percebo que não deve ser sobre mim, ou que o feitio dos outros romances está lhe confundindo que amante sou eu e que amante são os outros. Aí, sem mal, sem mim, entendo que você se relaciona com todos nós ao mesmo tempo, mesmo os que já foram, e que somos a mesma coisa fragmentada em pequenas partes que lhe agradam, pequenas partes que lhe surpreendem, pequenas partes que lhe irritam, pequenas partes que lhe contam. Percebo que quando você me beija, na verdade está se beijando, e talvez lhe seja difícil aceitar que não pode beijar a si mesma sozinha; mas é o jeito. Então, quando na lembrança você me olha, será que você me vê? E quando na lembrança te olho, será que olho a mim?
13 de setembro de 2020
Quando éramos pequeninas, eu e minha irmã, tínhamos duas referências para alcançar em altura: uma era o freezer de casa, que naquela época era separado da geladeira e menor que ela, e a outra era Vó Deza. Fomos crescendo, crescendo... passamos o freezer... passamos Vó... E então muito tempo depois percebi que Vó era muito mais alta que o freezer, era aliás muito mais alta que o prédio. Quando eu me curvava para abraçá-la, na verdade era como se me esticasse! Vó tinha um jeito muito sincero de existir, muito calmo, muito inteiro. Transbordava doçura, além daquele jeito muito engraçado que ela tinha de rir de si mesma quando se confundia com algo. Era demais! O tempo continuou a fazer o que faz, e o freezer se tornou apenas o freezer, doce memória, e Vó continuou a ser referência, doce presença.
6 de agosto de 2020
Tinha o mesmo comportamento insistente quando atenta. Quase sempre silenciosa. Ao sair com um livro a tiracolo pelas portas de vidro, procurando lugares vazios nas mesas do sebo, havia apenas a cadeira à minha frente, uma mesa escondidinha atrás da pilastra distante do caixa e, embora eu insistisse muito à santa que me deixasse ler sozinha e me tivesse apressado em ocupar aquela vaga com a mochila, ela pediu assento. Assentou-se. Me entregou a mochila sem muita cerimônia. Lia concentrada, não havia falado mais nada, e arrastava a ponta dos dedos compridos pelas bordas das folhas, mexia na margem como se as contasse, como se quisesse movimentar aquelas animações infantis desenhadas no cantinho. Abria a orelha do livro, fechava, segurava-o de quinze formas diferentes em um mesmo minuto. Se lia, não sei. Eu não lia. Achei de comentar sobre o poeta que ela escolheu, porque me incomodava muito o movimento dos seus dedos e eu queria perturbar alguma coisa naquela ordem. Nunca tinha ouvido falar do poeta. Sorriu brevemente, embora não quisesse, e não respondeu. Dentro em pouco abriu a orelha do livro de novo, o poeta era uma mulher. Me olhou quando pedi uma cerveja ao garçon, e pediu uma também. Justificou-se que estava de bicicleta e apontou com a cabeça a magrela em um poste do outro lado da rua. Estou a pé.