"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
2 de abril de 2021
25 de março de 2021
Fecho os olhos para lhe ver. Lá está você, de cima a baixo. Parece até que esperava, que pacientemente aguardava a minha recusa esmorecer enquanto displicentemente percorria as gavetas, armários e bolsinhas em que organizo tudo em mim. Afinal me parece que cheguei aqui ao procurar outra coisa... Que coisa? Aqui estou à sua frente, nessa qualquer mesa de bar, esperando à porta do banheiro desse pé-sujo que era o último aberto e daonde você não sai nem por decreto. À medida que espero sua sede terminar, vou ouvindo várias estórias que não tenho certeza se são a mesma, cheia de pessoas, de jeitos, de vontades e de esquecimentos. Enquanto estou aqui, parece até que você não me esqueceu. Nesse vaivém da sua prosa, me vejo a discordar da sua decisão de ir embora, e trago para a mesa um assunto que acho que não era aquele sobre o qual conversávamos... Não sei. Em todos estes caminhos tenho a impressão de que você falava sobre mim e levei pro pessoal. Enquanto você meio que se defende, meio que dá risada, percebo que não deve ser sobre mim, ou que o feitio dos outros romances está lhe confundindo que amante sou eu e que amante são os outros. Aí, sem mal, sem mim, entendo que você se relaciona com todos nós ao mesmo tempo, mesmo os que já foram, e que somos a mesma coisa fragmentada em pequenas partes que lhe agradam, pequenas partes que lhe surpreendem, pequenas partes que lhe irritam, pequenas partes que lhe contam. Percebo que quando você me beija, na verdade está se beijando, e talvez lhe seja difícil aceitar que não pode beijar a si mesma sozinha; mas é o jeito. Então, quando na lembrança você me olha, será que você me vê? E quando na lembrança te olho, será que olho a mim?
13 de setembro de 2020
Quando éramos pequeninas, eu e minha irmã, tínhamos duas referências para alcançar em altura: uma era o freezer de casa, que naquela época era separado da geladeira e menor que ela, e a outra era Vó Deza. Fomos crescendo, crescendo... passamos o freezer... passamos Vó... E então muito tempo depois percebi que Vó era muito mais alta que o freezer, era aliás muito mais alta que o prédio. Quando eu me curvava para abraçá-la, na verdade era como se me esticasse! Vó tinha um jeito muito sincero de existir, muito calmo, muito inteiro. Transbordava doçura, além daquele jeito muito engraçado que ela tinha de rir de si mesma quando se confundia com algo. Era demais! O tempo continuou a fazer o que faz, e o freezer se tornou apenas o freezer, doce memória, e Vó continuou a ser referência, doce presença.
6 de agosto de 2020
Tinha o mesmo comportamento insistente quando atenta. Quase sempre silenciosa. Ao sair com um livro a tiracolo pelas portas de vidro, procurando lugares vazios nas mesas do sebo, havia apenas a cadeira à minha frente, uma mesa escondidinha atrás da pilastra distante do caixa e, embora eu insistisse muito à santa que me deixasse ler sozinha e me tivesse apressado em ocupar aquela vaga com a mochila, ela pediu assento. Assentou-se. Me entregou a mochila sem muita cerimônia. Lia concentrada, não havia falado mais nada, e arrastava a ponta dos dedos compridos pelas bordas das folhas, mexia na margem como se as contasse, como se quisesse movimentar aquelas animações infantis desenhadas no cantinho. Abria a orelha do livro, fechava, segurava-o de quinze formas diferentes em um mesmo minuto. Se lia, não sei. Eu não lia. Achei de comentar sobre o poeta que ela escolheu, porque me incomodava muito o movimento dos seus dedos e eu queria perturbar alguma coisa naquela ordem. Nunca tinha ouvido falar do poeta. Sorriu brevemente, embora não quisesse, e não respondeu. Dentro em pouco abriu a orelha do livro de novo, o poeta era uma mulher. Me olhou quando pedi uma cerveja ao garçon, e pediu uma também. Justificou-se que estava de bicicleta e apontou com a cabeça a magrela em um poste do outro lado da rua. Estou a pé.