15 de janeiro de 2014

Conversam-se duas vértebras. Começaram a partir da discussão de quem mexeu primeiro. Se mais pra direita, ou pra esquerda, foi que escorregou a inaugural viagem do osso. Uma não tinha dúvidas, a outra nem as procurara. Era um caso óbvio de perspectiva, dizia a de cima, ao afirmar que debaixo não se era possível obter o quadro geral da situação. Para a debaixo, era mais que evidente que a visão superior causava uma impressão fictícia na dimensão dos fatos - e que por fim, por certo, mexera-se ela inclusive tão meticulosamente que à outra sequer seria possível o movimento. Aí a injúria foi tamanha que a de cima, tentando ralar a mão na debaixo, escorregou-se para a esquerda numa dor inesquecível. Esbravejava convencida, sem sombra de curiosidade, que estava tudo errado. Depois de três dias assim, ninguém ainda havia se preocupado com a hérnia, cujos nervos já estavam à flor da pele.

5 de janeiro de 2014

Carmen sem Diego

Submete, em toda carta, as profilaxias devidas aos sentimentos do coração e da alma que a mulher lhe escreve. Foi sua mulher há uma medida de trinta anos, e por sete. Mantiveram algum contato abstrato ao longo do tempo que, depois de retomada a aproximação através destas recentes cartas, nada pareceu estranho nem a um nem a outra. Por isso nas primeiras correspondências ela achou natural não retomar a história dos trinta anos sem ele, mas começou por lhe dizer as atualidades sabendo que ficariam evidentes os acontecimentos relevantes destas décadas através das consequências que tomaram o trabalho de bem se dividirem pelos anos que se seguiram. E sempre recebia em retorno os prognósticos certos uma vez adotadas as medidas recomendadas pela experimentação do amante. Ficou evidente sem muito tempo que ele era um homem didático e havia conservado a paciência, e não se deu para pensar que havia adicionado a ela o tempero desagradável da arrogância, mas apenas que precisava acreditar ter acumulado na vida ensinamentos universais da alma humana e ser íntimo da providência. Por este motivo é que lhe recomendava o alongamento logo depois do acordar, conquanto incomodasse os músculos preguiçosos do sono. Por este motivo também lhe contou que as inconstâncias do final da carreira profissional, quando não se sabe se se percebe o descanso como prêmio ou a aposentadoria como ofensa, são truques do vício humano de imortalidade - e que o descanso é uma bênção.

Conquanto não tivesse gostado de ser chamada de velha, como tomou o recado, resignou-se em lembrar que mesmo trinta anos atrás ele já era muito menos conservado que ela, e que se já estava no ponto em que emitia verdades breves e soberanas, já deveria ser avô. Tendo que com ele não tivera filhos, e que depois do fim do romance optou pela laqueadura e pela putaria, imaginou-se em melhor estado. A verdade era que ele continuava robusto e interessante, muito embora depois de todos aqueles anos a beleza ainda não tivesse encontrado seu endereço, como pôde comprovar na fotografia que ele mandou anexa com um neto em cada perna. Tinha começado a pedalar depois que ficou careca e viciou na sensação do vento na cabeça pelada, motivo pelo qual não usava capacete. Não se tornou atleta pela preguiça da dedicação, mas fazia uma vez ao ano alguma jornada pelas estradas quanto mais íngremes melhores. Aos 75 trocou a mountain bike pela bicicleta elétrica por cansaço de subir as ladeiras para tornar a descê-las. Tinha plena convicção que, nunca tendo chegado mais perto do céu que ele, a ex-mulher não podia se gabar de uma perspectiva de mundo mais esclarecida que a dele. Nunca fora dada aos esportes radicais e muito pouco às saídas noturnas. Ia a casas de espetáculo e a concertos musicais desde sempre e muito mais que aos shows e os happy hours. Relembrou-a privada de ousadias e excessivamente comedida, dada a pouca gente e às conversas de conteúdo, buscando na cabeça as justificativas do mundo e ignorando as verdades da vida em si. Ignorou até muito pouco antes de sua morte que ela se deitara com incontáveis homens, inclusive velhos amigos, e que tivera gozos colossais, e o choque da surpresa foi tão duradouro que não teve tempo de fabricar uma opinião antes de tirar as medidas do terno de madeira. E é por este motivo que descreve nas cartas um rol de sensações, acompanhadas de suas consequências e de seus remédios, dos quais acredita que ela há-se impedido, não sem alguma vaidade.

26 de dezembro de 2013

Com o som de um suspiro, irrompeu Madalena pela porta fechada do quarto. Rafael dormia, de bruços, sobre seus metro e oitenta e sete com a mão sob o corpo, a entender que a repousava à proteção da sua virilidade agora inconsciente. O objetivo de adentrar assim o quarto no auge do silêncio da noite escapava-lhe à intenção renovada de inspecionar o seu corpo inerte na cama de madeira. O seu pé abraçava a cama pendido pelo fim do colchão, parecendo, entretanto, muito desperto a dar pequenas estremecidas de sonho. Sem destino, Madalena caminhava ao redor da cama sem muito o perceber, muito embora descrevesse estratégias a cada ângulo novo de fazer exatamente não sabia o quê. Rafael, a inspirar, arquejava costas que ela começava a desejar, e em enlaces de breu imaginava onde roçava, no mistério, o bico do seu peito na sua pele adormecida. Espantou-se, num instante inteiro, com a pomada sobre a cômoda, lembrando ser ela o alvo daquela visita imprevista às horas da madrugada. Pensou, entretanto, retirar seus roxos com outros roxos, com o roçar de Rafael sobre os seus pêlos espertos, sobre a sua pele suave e o desconhecimento desta atração fatal que se desenhava entre segundos na escuridão do desejo estendido. Madalena costurava em suas pernas as ousadias indescobertas de vinte e sete anos de si mesma.

12 de dezembro de 2013

Dentre todas as peças que movimentava em seu jogo de memórias, Laura mantinha-se particularmente atenta ao hipopótamo. Tinha muito boa memória visual, e seu jeito de virar as peças determinava a maneira como voltaria a elas, de tal modo que não apenas o desenho, mas seu jeito de relacionar-se com ele caracterizava a forma como muito em breve revelaria suas duas faces para lhe tirar do jogo. O hipopótamo, entretanto, possuía algum traço que a surpreendia sempre, de tal maneira que virava sempre a peça com um trejeito novo que nunca podia reconhecer. Todas as vezes era uma nova comoção, uma nova ansiedade, um novo desejo, todas as vezes supreendia-se de encontrá-lo, inutilizando suas todas estratégias muito bem montadas para não estar vulnerável. Tirava-o de cena, por fim, quando quase não sobravam outros pares para imaginar, às vezes por puro acaso, outras quando sua superioridade já era tão evidente diante de outras peças inexpressivas que era preciso encará-lo seguramente, expô-lo, e fatalmente afastá-lo sabendo que ainda não indentificava aquilo que o distinguia, muito embora sentisse aquilo que o não igualava.

10 de dezembro de 2013

Sobre a praia sopra um vento sem final. Segue, invisível, infinito, indivisível, moreno, meio quente meio frio, sobre as vagas sensações abrandadas pelo calor do sol. Sob o sol de dezembro tudo turva à linha do horizonte, o calor desenha miragens a distância e o desejo também. Sob o sol de dezembro, tudo está preguento, mole, grudado, um no outro, intenções indefinidas. O céu se desfaz em chuva à alegria das altas temperaturas, a insustentável leveza de um descanso a quarenta graus. Lembro-me perfeitamente do que são as férias, muito embora hoje a vida apresente uma nova versão delas, um tanto quanto menos eternas. Ainda, hoje penso mais coisas à vista do mar. Ousadias, desejos, mistérios, conquistas, amplas terras desprotegidas passeiam, ou correm, margeando as marolas, definindo o corpo e a paisagem urbana do oceano. As barracas e os guarda-sóis, de tão multiplicados, parecem naturais ao desejo de molhar as pernas de água e sal. Siris assustados! Moças em pé, sentadas, deitadas, de frente, de costas, com pernas cruzadas, descruzadas, rapazes deitados, em pé, de frente, de costas, sentados, com pernas cruzadas, descruzadas... crianças que não param! Tantos olhos as protegem de absolutamente tudo a que elas oferecem perigo. A vida, quanta, pode dar ali a chance de acontecer.

2 de dezembro de 2013

Eu imagino

Você caminha sem direção em direção a uma das portas. Pelo tempo do chão posso observar o seu corpo caminhar folgado sobre si mesmo, e um jogo lento do seu quadril revela os seus planos ousados. Sem se perceber, você avança o vão. Eu avanço. Até o pé da mesa parece um percurso suave sobre o assoalho de madeira. Encosto no pé da mesa ou ele em mim - vê pela porta a mesma coisa que eu vejo e também se equilibra. Eu equilibro. Sigo parcimoniosamente sobre a minha imprecaução, vou lentamente subindo aos térmicos as cervejas, com calma, raspando sempre no gelo com algum barulho, que dá nas articulações e na minha pele a sensação ficcional da textura rasgante. Nos arredores, respirante e lenta, discretamente a disfarçar sua atenção atenta, você mexe os braços nas coisas. Fecho os olhos ao ar do refrigerador e engulo todos estes pensamentos, que por algum motivo descem mais do que ao estômago, direto ao interno do meu quadril, implodindo os meus planos a ousar.

22 de novembro de 2013

Lua!, desde quando - eu lhe dizia - fazes assim? Em quase tom de raiva, interno tom de amor profundo, pôs-se a garota sentada sem opções junto ao meio-fio. O fio havia-se cortado em uma linha de poste já tão alta, assim devendo ser como aquelas onde se penduram as bolotas que avisam aos helicópteros que o céu não está seguro. Havia escrito uma carta longuíssima de muito poucas palavras, dobrou num formato que voava, prendeu linha e carretel e pôs-se atrás dela, tendo-a observado por muito subir aos céus, donde nunca descia. O nó que fazia a junção das suas sobrancelhas consternadas era o mesmo sulco que fazia o cotovelo no joelho, indignados. Passou um rapazote, mais moço, que vendo o carretel em desuso perguntou-lhe se podia ser seu. Pode, mas as pipas nem sobem muito. Levou o carretel e com muito apreço prendeu-o ao corpo de uma pipa muito recém feita que mantinha em casa. Havia nela escrito uma carta endereçada ao sol, e ao vê-lo subir aos céus donde nunca descia numa bela manhã, armou-se de empiná-la até onde fosse. Foi empinando, empinando, até que ela era só um pontinho bem alto. A moça, passando ali, sentou-se do lado dele a desfiar conversas curiosas e desinteressadas até que veio descendo a linha do carretel frouxinha. Ele sentindo o fio leve, levantou-se de sobressalto, olhou o sol já quente, como nunca deixava de ser, e veio enrolando apressado a corda. Eu lhe disse, a moça, que não sobem tanto e logo quando pensamos que já quase lá estão, desistem. Não!, ela chegou! Veja a pontinha queimada! Verdade, o nylon derretido e o rapaz satisfeito foram caminhando a caminho de casa seguidos da moça, muda até que encucou por que será que a dela não tinha chegado. O menino olhou-a, deu-lhe o carretel de volta, disse que tinha que atrai-la, na minha fiz uma aleluia. Corri direto pra casa, arquitetando construir uma pipa com buraco praquele coelho não me resistir.
Segue a solidão o curso de sua novela. Tranquila com o espaço que confere a si mesma, observa entretanto como este mesmo lânguido espaço vai-se transformando numa coisa à parte, assume sua postura diante do universo, e perdura a despeito das intenções solitárias de terminarem-se. Sem a companhia, quê seria da solidão? Que opções encontraria de ser-se? Como do mesmo modo é a ausência quem define a presença, também a solidão mantém seus romances com as companhias que pode ser que venha a ter, que poderia... Estas contudo esvaziadas, quê lhe resta de si mesma? Em que momento construir-se, estar-se e ser tercerizou-se, enfim? Em que momento ao optar já não optava, ao ser, já nem era. Olhando-se no espelho, tás cinza, a descobrir se as combinações de branco e preto encontram-se de fato em cinquenta por cento cinquenta por cento, ou afinal quem é? Observa-se. Perde-se o objetivo, absorvido por qualquer neurônio esfomeado, e em seu lugar sobrepõe-se outra questão. Toca-se, mão na mão, no espelho. Enamoramento impossível. Muito embora reconheça as próprias formas, compreenda retroativamente os comentários que por aí ouviu de si, e se veja, não consegue tocar-se ao se ver como outra. Apenas se se observar de cima, quando o rosto não vê o pescoço, quando nem o próprio rosto se vê, apenas se for quem é é que consegue sentir na pele a própria pele. E assim caminha, sorrateira e duvidosa, a tentar entender donde vem entender

14 de novembro de 2013

NGC 1097 reluz a 45 milhões de anos-luz daqui, espiralada e tonta, independente galáxia nos céus do sul, mergulhada na constelação de Fornax. Lá longe, será que esbarra a consciência que perco todos os dias por força de tornar evidentes apenas as nebulosas das minhas sensações, ao invés da minha razão humana? Ou será que a própria galáxia, vista assim, de um jeito que ela mesma não se vê, inventa o retrato geral de sua situação? Será que um tal espelho, as ousadias do telescópio Hubble, não fazem imaginar aos nossos olhos a bidimensionalidade do que não sabemos? De todo modo, o giro confuso de NGC 1097 produz nas minhas perspectivas a incredulidade do seu desenho exageradamente universal. Fico eu girando também, contida no maciço buraco negro escondido no centro, bem no meio da afetividade exagerada que a sua ilusão causa. Enigmática, como lhe chamam os astrofísicos, confundo do que dizem ao flutuar, inevitável na inércia espacial, em direção àquela outra, num paralelo universal da forma que eu não deveria fazer. Como pode a percepção enganar-se entre gramaturas tão diferentes? É a ilusão de a textura da galáxia poder parecer com a sua pele adimensional que traz uma coisa à outra.
Voa o pensamento. Como mãe não, mas como amante convencional tento dizer-lhe para onde deve ir, onde deve ficar, o que não fazer, de que jeito me gostar. Segue o pensamento... sem ordens nem respeito conduz-me mais uma vez às instâncias que deixo esquecer; sendo duas, observo-o a descobrir-se em paragens que eu mesma já conheço, trejeitos seus - de você - tão atraentes em cujas armadilhas já caí com outras partes de mim. Porém ele segue, infantil, deleitado em tantas coisas que julga novidades, inventa desejos, e quando por alguma viela se depara com aqueles já maduros que foram um tanto mais adiante no caminho, intimida-se, bem faz ele, recua suave, tentando-se impercebido, rumando a novos desafios. Vai pensando e eu deixo-o pensar, porque esta é sua função e ele é tão moço, ainda tantas coisas lhe provarão como é imaturo, como está errado, como faz alvoroço onde poderia apenas observar. Constante criança, birrenta com as outras, revoltada em si para provar a revolta, insistente para provar a insistência, para ser chata. Leniente consigo mesmo, deixa-se demorar a aprender, e eu deixo-o, porque ele é assim.