28 de fevereiro de 2013

Na areia, ajeita seu biquini. 10% a mais a bunda aparecendo que ela quis consertar. Aloooonga-se, comprida, em direção ao céu; fecha os olhos, e mesmo tonta resolve confiar no corpo. Abre os olhos e reacorda; a praia vai do branco às cores habituais, e o sol forte aperta logo as retinas em uma janelinha estreita.  Como é estranho perceber o sal grudando no rosto e a água voando no ar; mais estranho pensar que há outros animais dentro da água, mais pra frente, vivendo lá. Será nossa balbúrdia que os afasta? ou nosso cheiro? Quem sabe as coisas que deixamos na areia sem pensar em levar pra casa... Como temos medo do que é bicho e não somos nós... Pra baixo, estica-se até ver um sirizinho correndo de uma barraca a outra, uma criança atrás. Depois a água chega até quase tocar a ponta do dedão, e destrói o castelo de areia que ainda não conhece a técnica de deixar escorrer areia e água pelos dedos para fazer torres mais ornamentadas. Vê entre as pernas três compras de cerveja e um vendedor de sanduíche natural. Levanta, bem devagar ao ponto de não dar tempo da tontura chegar - rápida e lenta. Quando encara o mar, já tem o frio na barriga. No horizonte tem certeza de ver a África sem ver, e de sentir sua falta sem sentir. Mergulha em um pulo e sente o corpo de novo.

1 de fevereiro de 2013

Declamação II de "Faltando um Pedaço"


O amor é um grande laço, um passo pruma armadilha, um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha. Comparo a sua chegada com a fuga de uma ilha, tanto engorda quanto mata,
feito desgosto de filha.

O amor é como um raio, galopando em desafio, abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios. Quem tentar seguir seus rastros, se perderá no caminho, na pureza de um limão ou na solidão do espinho.

O amor e a agonia c        e        r    r    a  r a m    FOGO    n o    e  s    p     a        ç          o;
brigando horas a fio, o cio vence o cansaço.
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços

19 de janeiro de 2013

a insargência da vila

Espero ela chegar com uma ansiedade invejável. Imagino a sua pele, o seu bronzeado, as suas pernas grossas cor de mel. Imagino seus cabelos queimados, e o excesso do sol nas bochechas e no nariz. Sinto o cheiro da praia, o impregnado da sua felicidade, as águas que lambiam seus joelhos um pouquinho antes do susto do gelado na parte interna da coxa. Imagino as ondas que brincaram com sua pretensa amizade com o mar. Imagino o  sol que traz nos olhos, da cor parecida, e a sua malandragem loira tão viva.

11 de janeiro de 2013

não havia signo nenhum

Eu juro que eu tentei, mesmo que eu não tenha tentado nem realmente nem um pouquinho, mas as coisas de Caetano são como ela dançando pra mim. Nua, de quatro, na minha cama, no meu rosto, no meu peito, deitada de lado, as pernas sobre mim, a pele em mim, a minha, eu, meu corpo, minha voz grossa, meu acordar de manhã, as coisas partilhadas sem querer, os momentos sobre os azulejos do banheiro, minhas mãos na parede, seu peso, as pernas, abertas, as cartas, os outros amantes, o tamanho do meu armário, extenso, eterno, o seu corpo segurando o meu quando eu só quero ir à cozinha, eu não vou a lugar nenhum

16/7/2010

4 de janeiro de 2013

Declamação de "Faltando um pedaço"

O amor é um grande laço, um passo pruma armadilha,
um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha, comparo a sua chegada com a fuga de uma ilha, tanto engorda quanto mata, feito desgosto de filha.

O amor é como um raio, galopando em desafio
abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios
quem tentar seguir seus rastros se perderá no caminho
na pureza de um limão ou na solidão do espinho.

O amor e a agonia
cerraram fogo no espaço
brigando horas a fio o cio vence o cansaço
e o coração de quem ama fica faltando um pedaço que nem a lua minguando
que nem o meu nos seus braços


2 de janeiro de 2013

muito embora prossiga,
e cresça,
não é que haja descrença, Simples o que há, há em si.
Sigo, e embora não mereça,
aquilo que se esqueça
Fica em mim;
e embora a seguida, segue para ir,
seguir de algum modo
fica em sentir

23 de dezembro de 2012

Se os poemas dela falam só sua própria linguagem,
e são para si mesma
e terminam em si mesmos o que queriam dizer para os outros
Eu também gostaria de escrever esquecendo
que me verão.
Eu também tenho tantas coisas que só têm a si mesmas
e não interessa o que os outros precisam entender sobre elas
ou sobre mim.
Eu também posso me cansar de me fazer entender,
eu também posso procurar outras saídas,
o silêncio também pode me servir,
eu também posso sair pela tangente
e a tangente sair de mim.

10 de novembro de 2012

Sobre a bicicleta, a vida passa como o solavanco das pedras indesviáveis e dos passeios triturados pela insurgência das raízes. Como é bom ser o pedal             Em desce meio-fio sobe meio-fio, posso pensar unicamente nos impactos         A cidade são árvores, hipotenusas das calçadas, pedaços de concreto perdidos, nem se lembram donde vieram. Entendem-se ciclistas pelas ruas, com o bom cumprimento do parceiro desconhecido, um olá ao reconhecimento dos perigos e da diversão. O nível e o vício da adrenalina confundem-se ao êxtase de não pensar. Só a cidade reflete. Refletem as rodas, sobre as pernas, restos de chuva, refletem os asfaltos, sobre o corpo, o calor da ilha, refletem os retrovisores, sobre retrovisores, outros retrovisores... A vida das formigas segue, e a tragédia de serem tão miudinhas ante nossa grandeza estabanada de gigante.

26 de outubro de 2012

"Uma insatisfação vem cronicando, histórica, me ganhando no medo."

Uma insatisfação vem cronicando, histórica, me ganhando no medo. Se houvesse mais olhos, também  haveria mais ângulos; a perspicácia não é suficiente. A atenção tem um quê imprevisível de surpreender as surpresas. Doutro modo, tonta de atenção, tenho o talento,

antes (fosse) de prever,

mas de talhar a novidade. Tão bem o faço que a própria novidade me satisfaz, modestinha e previsível. Tola novidade previsível. Não tenho mais olhos pois sei que haveria mais ângulos. A ansiedade desfaz o que a astúcia esconde, por isso eu me mantenho calma, inerte - nem mesmo o clima me acha, mesmo a tangente me perde. O silêncio provoca a minha saída e nela acredita. Por isso fico mais, permaneço, pois posso ter mais olhos desde que ninguém perceba.

23 de outubro de 2012

A corda

Ao cutucar sem função a corda da âncora, tinha como objetivo cutucar a corda da âncora sem função. Dentre o que pensara, pensara como seria engraçado a mudança da vibração que ela faz fora da água passar para a água, e se conseguiria passar. Pensou se lá embaixo emitiria som, se poderia espantar alguns peixes, alguns peixinhos. Pensou na cor da água a partir da corda, e na cor do mundo pra corda a partir de acima da água. Alisou uns pelinhos dela pra fora.., fazendo curva sobre a borda. E sem função, cutucou a corda com um cutucão. Abaixo d'água, onde o mundo para a corda era azul escuro, uma reverberação descia a espinha reta do grosso barbante, ia descendo, descendo, e se dissipou antes da metade do caminho para baixo. Acima, pensava a moça o que teria acontecido à água e à corda. Imaginou que a vibração chegou até bem ao fundo, vibrou em sua amarração na âncora de ferro e fez afrouxar quase nada o nó que prendia tudo ao fundo do oceano em um lugar seguro e contínuo. Imaginou que dali a alguns momentos, entre dias e anos, quando o barco movesse e fosse movendo muito, o atrito da água continuaria a função sem função da cutucada, e afrouxaria a perder os dias o nó bem dado na âncora de ferro. Dali então a metros, arrastando a âncora esquecida pelas areias do chão do oceano, o nó desistiria de sua profissão e acabaria por aposentar a força da firmeza, deixando ir como um resquício e uma prova da velocidade a corda solta sem propósito.