"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
27 de setembro de 2011
giro. Os dias escolhem-se entre si, sem qualquer consideração da minha rotina, do meu equilíbrio, da minha paz. Minha capacidade de preservar o futuro em seu lugar diminui à medida que o tempo fecha: é difícil ignorar a meteorologia sentimental. Em meio à ascensão do frio, à mercê da autoregulação do corpo, desentendida do quê, essencialmente nua e vestida, breve, os dias são surpresas ao meu temperamento escondido. O que me agrada, o que desagrada, é uma consideração de intensidade. O que me interessa, o que deixa, é uma questão de paciência se não é de sociabilidade. A sanidade divide minha mente em duas, a que para e a que continua. Dentro de mim é um sem tempo, sem som. Dentro de mim, só dentro de mim, se entendem os meus desejos, as minhas famas, se entendem os meus gostos e os meus nãos. Dentro de mim as pessoas me chegam sem sugestões, sem dúvidas, sem memória. Estão ocupadas em ocupar, e em calar-se. Dentro de mim, nos ventos de areia, me acreditam.
21 de agosto de 2011
20 de julho de 2011
Fátima, estive pensando em você pra você pensar em mim. Há um senso de justiça do qual não consigo fugir, como se as energias, oniscientes, me levassem até você como penitência de você me invadir com tanta brutalidade. Sei que foram as suas impressões que se forçaram sobre mim, que se exageraram porque não poderiam viver sem maltratar. Entendo que você nada tenha a ver com as necessidades da sua alma, e que a culpa que lhe imponho soe quase como um estrangeiro. Mas você não me engana, maldita, eu sempre soube dos seus propósitos. Muitos antes de você me disseram quem você era, e acima de tudo estavam muito irritados. Montamos uma associação que o Estado reconheceu, e ficamos responsáveis pelos seus danos não danificarem patrimônio público. Isso porque a estátua de Carlos Drummond em Copacabana sofreu danos irreparáveis; o culpado, quando pego, dizia eu também já fui poeta, bastava olhar para mulher, pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes, mas cê né mulher não, fátima, cê é um monstro. Eis que aqui, prostrada, venho lhe contar que fiz das tripas coração para arrancar as suas tripas, e agora com você em cima da mesa sinto uma leve dificuldade de amarrá-las nas minhas, mas sei que o tempo vai ser suficien
15 de julho de 2011
Não entendo Carla tão bem quanto o tempo diria. Imagina se sim! Noutro dia, tão invigilante, encostou-me à perna o suficiente de sua meia calça que de tão discreta chega indiscreta era. Tapeou-me no braço com o livro que abraçava, era a última virada até tomar seu lugar no metrô, em pé. Tinha feito renomado esforço para que conseguisse se apressar até a fechada das portas com tanta elegância que sua pressa seria breve holograma. Mas, os frufrus tirados, apressou-se preocupada para as portas que logo se fechariam, e num passo particularmente grande, apoiou uma perna dentro do trem enquanto a outra ainda estava lá fora, e com essa perna astuta cá de dentro foi dar de cara a pele e os pêlos da minha batata da perna.
Escrevi cartas as quais por pura indisposição da alma ela não quis responder, sem saber que aqueles eram os motivos da minha vida. Comecei telefonemas que ela nunca saberá, os que terminei antes ou os que deram erro de telefonia. Noutros fui até o fim e chamei sua presença duma tal forma que no fim da tarde pudesse asfixiar o ar da minha casa. Mas ela não, não podia, porque tinha sido longo o dia e principalmente porque aquela hora de asfixiar lá em casa já tinha começado e se desperdiçado um cadin
11 de julho de 2011
7 de julho de 2011
Encontraram-se na rua, fazia algum tempo que não se viam. Soube por sem querer se ouvir saber e vir a dizer que tinha terminado o namoro. E daí então com uma banda larga de velocidade social, fez chegar até de volta ao primeiro que já tinha reatado o lance.
- E as coisas com o retorno do seu namoro, como estão?
- As coisas? ..estão.. devagar.. e umas sobre as outras
- sexo
18 de junho de 2011
12 de junho de 2011
Estando em casa
Entrou em casa, um silêncio macerado. Nenhum móvel falava. Atentos, acompanhavam por onde iria, onde tocaria e qual seriam suas primeiras palavras. Uma das almofadas achou que não ia suportar, mas quando ela passou da sala para a cozinha, conseguiu desprender o ar. Encarou, nervosa, o rack da tv que, complacente, a observava de costas, lenta, passar pela geladeira. Passou uma das mãos pela máquina de lavar, alisando a palma, como um carinho que viesse de repente. No quarto, a mesa, a cama, o armário, cúmplices, disputavam serem eles os protagonistas daquela dor. Silencioso, o armário se manteve impassivo, não olhava para lugar nenhum, permanecia estático, de cima a baixo, gelado e sem propósito. Algumas imagens esgueiravam-se pelas beiras, querendo voltar e observar o meu adeus, como eu sofria, se sentaria, deitaria, ou continuaria o trajeto até o banheiro sem propósito algum. Algumas pernas conseguiram chegar às beiradas, e me viram encarar a mesa e enxergar sem decisão o travesseiro verde. O ar condicionado se escondia atrás da cortina, reservado. Não queria uma palavra, nunca quis. Vivia sozinho e sofreria sozinho, cada um que se virasse ali com o próprio penar. Já o bicho de pelúcia, coitado, sofria, sem colo, desesperado, sua mudez já uma realidade insuportável, tantas coisas que poderiam ser ditas para o consolo do dono, ou simplesmente quem sabe aprender a fazer pipoca e se predispor a assistir filmes. A cama box pôs-se à disposição caso ela quisesse dormir ali dentro, prometeu que não a engoliria se não quisesse. O insufilme na janela pediu desculpas por ser espelho; a tranca, tão triste estava. As luzes da sanca ao redor do teto cochichavam entristecidas, altivas, espectadoras como sempre, tão atenciosas. O próprio ventilador sentia o peso de um ar inchado. Os peixes anti derrapantes no chão do banheiro pediram que ela confiasse em sua cor amarela. As calcinhas penduradas para secar eram avessas à situação. Não ofereciam apoio, não concordavam, e se esforçavam para fazer volume com sua discordância da tomada decisão. O travesseiro verde abriu os braços. Bondoso, recostou a cabeça sobre a sua, e fez carinhos na altura do queixo. Disse-lhe: oh, meu bem, sofra, resigne em mim a intransponível dificuldade de amar.
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