"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
25 de janeiro de 2011
22 de novembro de 2010
O ponto final sem dois
Passou pela minha veia tortuosa, pela aglomeração dos meus coágulos de ódio todo o veneno que eu pude reter no meu sangue azul. Escorregou pelos meus dedos, que amam, o seu pescoço franzino, e a sua carne que eu já pensei em vender no mercado. Hoje nada me olha acima da copa das árvores, nenhum vulto, nenhum abutre que, pensando em voar, despencaria descuidado com uma corda no gogó que pretende masculino. Estou aqui para mimar o garoto que você já não pode ser. Para aceitar as suas violências e as suas brutalidades contra a minha personalidade aveludada. Eu estou aqui porque vendi minha alma por amor, porque o preço era de graça. Eu posso aceitar os seus socos e os seus pontapés, a sua virilidade mole e indesejável, a pobreza dos seus trejeitos, a raleza dos seus cabelos e a baixeza da sua classe social. Eu estou aqui por conta da primeira ratazana que eu vi, e tive pena. Estão rasgados em mim os músculos que se esticaram demais, algumas cartas de baralho e a minha memória que resolvi declarar rota. Estou de tal forma desfeita das minhas mãos firmes que não sei o que estou, não estou nada, nem sou, e não penso. O meu coração, com todo esse esforço, se pudesse acelerar, aceleraria. Sinto o ar prender nos ventrículos, como se recusasse pulsar e continuar com essa aceitação letárgica cuja justificativa esqueço ao manter em mente - amar, enfim, tem o seu preço. Uma surpresa insuspirável. Eu aceito que você traga os seus podres para a minha mesa e olhe para mim. Eu aceito que você me respire. Eu aceito que você erre, que você exagere e que você me esforce. E eu aceito, com a maior concessão que eu poderia fazer de mim, que você me toque.
Está dito, não me peça para lhe relembrar.
L2 sul - norte
E então pensou, vou me lembrar disto para sempre, e de fato lembrou, até que o Alzheimer chegou aos oitenta anos, e então treze de agosto de 2008 pôde descansar em paz.
10 de novembro de 2010
15 de setembro de 2010
crescer faz calar lá fora. um silêncio, uma retórica muda; dar-se bem vira não se dar, virar-se vira dar as costas e as costas, com dor, viram culpa sua. pilates não resolve nossa mudez desentendida. 'pilates não é pra acalmar', disse ela, e ela, o que sabe de calma? estar em paz significa, mais uma vez, abdicar da briga que você comprou pra saber achar-se, para saber quem é no meio de tanta areia suspensa, tanto vento no saara, pelo amor do outro, louco, insano, sem onde cair morto além das minhas mãos. e a briga que você compraria, tão robusta, tão erótica, os gritos que daria, os punhos fechados, as veias saltadas, você substitui por uma calma triste, tristinha, desentendida de si, sozinha de si, já quase sem razão de ser, caladinha, pra calma crescer em tristeza em você e você caminhar pro outro lado com discrição, mudo, mamãe não te entende. abaixar punhais, conversar com seus eletrodomésticos, que te entendem, que partilham seu dia a dia, sua arte, sua inquietude, suas vozes e seus amores, quaisquer que sejam. meu rádio antigo, encolhido, olha pra mim com uma piscada resignada, e se abaixa sob o móvel da sala, quietinho, entendido do mundo, das coisas.
4 de agosto de 2010
voltando lá atrás, trazendo à tona eu existir
Não é o que você pensa, o redemoinho dos sentimentos não é o preto e branco ou os vários tons de tudo que você resolve traçar. Suas verdades não são verdades, por mais que seus olhos, que pretendem não julgar, julguem. Nem sua naturalidade, madura, maciça e maturada, já velha, um tanto quanto passada, consegue enganar. Há tantas outras teias que você não pode conceber; como as mil e uma que não posso, a realidade na minha cabeça é capaz de costurar somente algumas, em sua linha lógica incompleta que você pensa pouco esforçada. E por mais que as escolhas digam muito, você escolhe vê-las no seu bom e velho espectro de pó, guardado, melancólico, martirizador e solitário.
Cá na Rua do Pão, meu amor por ti é precisamente o mesmo, e a minha necessidade, ah, se você soubesse dela... Não vá inventando os finais de todas as histórias.
1 de agosto de 2010
zodíaco em zonas
A possessividade do taurino, anuncio agora - e havia sangue -, se costura entre várias coisas que agora não quero nomear. Seu fanatismo, favoritismo, e vários ismos exagerados que põem algumas coisas a perder, ao menos a cabeça. A cabeça do taurino também, e com fumaça, buscando as mil razões para incômodos que só existem porque ele não está com a mão na coisa em si. A inveja também, e vários medos e dores, reais ou não reais, a construção da personalidade nas erratas controladas, e ser artista no nosso convívio...
[a terminar]
31 de julho de 2010
15 segundos para o pousar da mosca
Quando tudo está quieto, ou um ruído só entre os carros e as pessoas, o mundo se abafa até que eu termine minha fala com você, e então tudo faz sentido, e tudo é lindo, tudo é meu e eu gostaria que você fosse o fim da minha rua, a minha rota final até o final das minhas rotas, eu gostaria que você fosse o meu traçado e já de ter te encontrado em julho de 2010 acertei, e os meus poros inominados cumprem seus princípios entre o céu e a terra, e vão comigo para o nada em suspensão.
16 de julho de 2010
Pensar no fim é uma síndrome
Pensar no fim é uma síndrome. Mas a cabeça que ela mantinha logo do lado da porta, imersa em formol, era feia demais. Algumas prateleiras acima, algumas outras olhavam pra mim, pra todos os lugares, um pouco confusas, deslocadas, soltas, descabeçadas. Ela me dizia, depois de ter fechado a porta atrás de si, o casaco sobre o sofá, um ar de conversa comum, que não é assim, a gente pensa livre, pensa solto, vai vivendo, pára de pensar no final, pára, que não faz bem e pode fazer mal, por mais que pra você pareça não fazer. É que pensar no fim cria umas barreiras sem que você veja, e aqueles formóis olhando pra mim, como que apontando pra mim, como se tudo tivesse assumido vida e estivesse me perguntando e aí, e aí, camarada, e aí? Tinha uma loira que devia ter sido bonita, agora era só um pouco desbotada, uma cara de nada, a tentativa de expressão de acaso, ou um pouco de sofrimento, eu não sei o que ela queria mostrar. Apontou brevemente para a porta com a cabeça - é lógico - mas eu não entendi, acho que era para o regulador de temperatura do apartamento. Enfim Julieta continuou falando sobre não dever perder tempo, entregar-se, cutucou sem querer a prateleira das cabeças, foi tirar um pó do vidro nomeado Caio, mas, enfim, acabou dizendo que eu não deveria me preocupar e que todo namoro deveria ser como quando tínhamos 10 anos e achávamos que iríamos casar.
30 de junho de 2010
?
É que eu não posso fazer filhos enquanto você está na casa de Aquário, eu lhe dizia com a cebola me fazendo chorar, aquele almoço lhe levando a crer que me sofria ter de esperar para fazer barriga, e ela crendo na sentimentalidade da minha faca mal amolada. É que com a sentimentalidade dos seus poros alcoolizados, a sinuca refletida nos seus olhos, os seus saltos em ângulo V da bebedeira de ontem à noite, eu pensava com a salada o que é que seríamos de nós três, enquanto eu não trabalhava e ia lá saber quem colocaria sorriso naquela cara de joelho. E eu fiquei pensando enquanto o eclipse não vinha e eu esperava a sombra da Terra, eu pensei no sonho de Goya, nalgumas plantas de Monet, eu pensei no monótono e eu fiz tanto sexo com aquela cebola dilacerada. Com o choro compulsivo, o Pixinguinha no canal da tv a cabo, agulhas de costura tão feias na sua mão e alguns animais de estimação, a sinuca refletida nos meus olhos, o tecido de feltro azul e algumas cartas, búzios, o caralho a quatro, a minha paixão, eu lhe entreguei o anel, sorriu, tudo faz tanto sentido, tudo pode ser eterno
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