"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
31 de outubro de 2007
Partindo do princípio
de que tudo na vida é tragicômico,
tenho que se mais flexível com as pessoas que riem de coisas nas quais não acho graça alguma.
29 de outubro de 2007
Sobre scraps (acredita!?)
"Olhando umas fotos aqui, percebi uma coisa.
Sinto saudades da covinha da sua buchecha esquerda." "Eu quero que você volte, podes crer" Esses e outros foram tão significativos.
Que gostoso.
26 de outubro de 2007
Sobre você
http://www.fotolog.com/bicalho/26614676
por mim, eu diria que ignorasse os "uuui", os "que romântico", os "uau".
são todos tão menores, tão simplistas, tão insanos e rasos. e olhe seu rabisco, o que você exprime.
você é tão complexo. você é tão simples. você é tão bonito.
eu te gosto tanto.
23 de outubro de 2007
Sobre frustração
Percebi que a frustração por ter deixado Brasília é tão grande que, por vezes, mesmo tendo a certeza absoluta da vontade de voltar, parece-me que nem isso (a volta) mais é suficiente para conformar-me.
22 de outubro de 2007
Sobre passos, agarros, arranjos, descasos
Quando a quentura escala seu pescoço, turva, pesada, lenta, e nesse ponto você engole um caldo quente, que te lava o que encontra pela frente, e escorrega por tudo, carregando ondas.
.
Seu corpo e o meu, e os centímetros. Meu estômago nas alturas, mas, na realidade, na altura do seu. Seus pés e os meus, chutando-se. Eu piso para frente, e bato no seu calçado. Você pisa para trás, e bate na parede. Que parede? Não há nada, você só não quer recuar. Quer ficar no mesmo lugar, mesmo espaço, mesmo espaço que eu, se der. Eu sei que disseram que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, mas estamos perto disso. Tenho pena dos centímetros que esmagamos entre nós. Mentira, não tenho. Tenho pena de nós, que não estamos nunca no mesmo lugar. Suas mãos nas minhas costas. Acho que estão nelas, pelo menos estavam um segundo atrás. Tenho sorte de descobrir cedo assim que você corre tanto: se descobrisse mais tarde, talvez corresse de mim. Mas agora corre em mim, corre, e espero que não encontre fim. Sempre gostei das suas unhas. Não me pergunte, sempre gostei. Sempre quis tatuar, também, e a combinação das suas unhas e da minha pele está-me fazendo economizar o dinheiro que eu daria ao tatuador.
Nem darei dinheiro a ti. Não hoje nem amanhã, só se amanhã for um fim mal arranjado dessa nossa intensidade, e eu te pague pelo trabalho bem feito, na ira do meu amor. Mas não quero, nem estou pensando. Estou pensando nos seus cabelos nas minhas mãos, e nem sei como chegaram lá. Seu cabelo está por tudo. Tenho-o no rosto, nas mãos, no corpo. Você tem graça. Eu a adoro. Quero rir, quero mesmo, mas cada vez que arreganho os dentes, você arreganha os seus, e descubro o quanto gosto dessa nossa briga.
Sua mão aperta minha cintura. Muito, tanto. Amém, dedos opositores. Acho que quem arranha agora sou eu, mas nem sei onde. Mal vejo. Meu rosto no seu pescoço, enterrado, e seu cabelo por cima, tentando esconder, como você me esconde, como eu te escondo, em mim, em ti, em tudo. E tudo é vidro. Que fracasso. Que fracasso? Penso, talvez, sucesso. Mas só talvez. Só talvez fracasso. Acho que quero criar-te guelras, do jeito que te mordo. Acho que quer implodir-me, do jeito que me aperta e abre a boca, sem saber se o prazer é seu ou meu.
E adoro o cós das calças. Você agarra o meu e puxa-o para si. Eu rio, e você engole meus sons. Você tenta controlar. Controla-te o meu descontrole. Não adianta. Eu também queria que fosse mentira, mas dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, mas você ocupa-me já por completo. Eu abri todos os poros e você selou-os consigo, e conseguiu deixar-me respirar ainda. Suas mãos ainda passeiam pelos jeans. Acho que as minhas também. Seu botão estapeia o meu. Ouço o som, você também. Ouço meu riso, o seu, sua respiração, a minha, seus passos, agarros, arranjos, descasos. Ouço meu pé batendo nalgo. É só um meio fio, não é parede, está longe do fim.
tu l'aimes parce que tu l'as perdu
Caminhando pelas ruas de Portugal, mais uma vez naquela velha cidade tão famosa pelas águas ditas curandeiras, passei os olhos pelas mesmas paredes pelas quais passara. Daquela vez, algo completamente diferente na cabeça. Nem me lembro o que era, mas nada um dia teve o contorno que agora tem, então asseguro que era diferente. E então, caminhando atenta às mensagens descuidadas nas paredes, às quais as pessoas descuidadas não dão atenção, fui vendo essa teia de coisas. Naquela altura não percebi, mas em todas elas, todas, um tanto da loucura de agora.
"Odeia-me" e alguns corações ao lado;
"Welcome" e um carro correndo atrás de um bonequinho;
"The sorrow does not fade away with time"
e, antes dessa, vi uma escrita em francês, que fez lembrar-me de ti e dessa loucura, que tem sido meus anéis de saturno. Nada sei de francês, só o suficiente para me fazer ridícula. Mas poderia traduzir de alguma forma se levasse a mensagem para casa.
"tu l'aimes parce
que
tu l'as perdu"
Você o ama porque o perdeu.
16 de outubro de 2007
Sobre reciprocidade
Interessante, no mínimo. "Excitante" também se poderia usar, mas não é essa tecla que eu quero apertar, apesar (e talvez principalmente) do fato dela ser facilmente apertada, consciente ou inconscientemente. Mas, enfim, é absolutamente interessante, a reciprocidade.
Quando os pensamentos são seus e estão enclausurados em sua própria cabeça, sua própria cela, na própria gaveta que a tipicidade do dia-a-dia, reguladora simples, fácil, prática e necessária do cotidiano, te coloca com ou sem o seu consentimento, com ou sem sua consciência, ou é mais fácil lidar com eles por ser opção sua abafá-los e trazê-los à tona quando lhe convém, ou é absolutamente mais difícil, porque no controle do seu abafamento e do seu afloramento você se perde nas suas próprias vontades de descobrir a verdade sobre eles. De uma forma ou de outra, a cabeça voa nas considerações positivas e negativas, deleita-se com as possibilidades, sofre com as possíveis castrações e deixa-se levar pela tendência característica de cada pessoa: se você é confiante, seus pensamentos em geral tendem a levá-lo à conclusão de que tudo dará certo; se for inseguro (há quem diga "realista"), viverá sob a pressão da possibilidade da não concretização dos desejos e das ambições; se, pior que isso, for uma pessoa negativa, terá a certeza de que tudo correrá mal. Mas os pensamentos e sensações são seus, alienáveis somente pelo isolamento a qualquer opinião externa, são loucos, vibrantes, coloridos, difusos, vigorosos, fortes e disformes. São confusão amorfa, ainda que você veja os contornos nítidos do próprio questionamento.
Agora, experimente reciprocidade.
Experimente saber que o que lhe ocorre ocorre também à pessoa sobre quem seu pensamento gira em torno. Não digo restritamente em relação a atrações, amores, paixões e afins. Esses são os sentimentos mais óbvios quando se fala de reciprocidade, mas pense amplo. Você vê o menino sozinho lendo um livro e tem vontade de conversar com ele, de socializá-lo, de conhecê-lo. Mas ele parece realmente compenetrado, realmente interessado no que lê. O que você faz? (como fas???) Ele, por outro lado, pensa que tem de recorrer à companhia do livro por não ter com quem conversar, por sentir-se isolado. Mas também não conhece ninguém e ninguém parece interessado em falar consigo. E então, de repente, você resolve falar com ele, perguntar-lhe o nome, descobrir quem é, ver se vale uma conversa. E vale. Excelente. Conhecer alguém novo, excelente. Vira curiosidade, coleguismo, amizade, parceiria.
Pense no amigo que você brigou e com quem parou de falar. A briga é já besteira, virou passado, detalhe perdido na imensidão que vocês criaram. Você não fala mais com ele, mas quer, ele não fala mais consigo, mas quer. E o momento em que um de vocês resolve prolongar um pouco mais o olhar, rir da piada que o outro contou a um terceiro ou simplesmente furar a barreira invisível do orgulho de cada um é quase como a primeira palavra do início da amizade, a primeira risada conjunta, o primeiro prazer partilhado e a primeira descoberta sobre o outro.
Mas não, não adianta. Nada disso parece mais forte que a atração, os amores, as paixões e afins. Pressionei a tecla "excitante", e, eu juro, isso foi uma precipitação do texto. Eu não iria necessariamente referir-me a ela. Não há jeito. Não há coisa mais latente que o desejo e a queimação que ele provoca, a intensidade explosiva de guardá-lo para si. Nenhum outro além do fantástico Oscar Wilde para dizer "The only way to get rid of a temptation is to yield to it. Resist it, and your soul grows sick with longing for the things it has forbidden to itself". E quando é recíproco, quando se descobre que é também fogueira para o outro, meu Deus. Não há maior completude.
O desejo do outro entra rasgante, vibrante, louco. Confunde-se com o seu e eleva o grau de sua própria perdição e é, soon enough, tudo que se consegue pensar.
Não é um texto bom. Eu não o achei. Mas precisava dizer. Or else my soul would grow sick with it, as it's growing now, as I knew it would and as it will stop.
[Imagem: PostSecret.com]
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