Ontem meu pai chegou em casa vagaroso, um pé atrás do outro como se cada um fosse um tremendo esforço. Chegou três horas depois do horário de costume, mais cansado que de costume, quieto como raramente e um tanto lento. O dia foi uma batida. Corrido, agitado, cheio de compromissos e problemas pra resolver. Cheio de discussões e telefonemas e ordens e tarefas. Ele contava, enquanto tirava a camisa devagar e parecia cansado até para o banho, que teve de ligar a não sei quantas pessoas e fazer não sei quantos rearranjos, que tinha o pepino nas mãos e que era responsável pela resolução da maior parte das confusões que aconteceram. Tirou os sapatos como se nunca tivesse ouvido falar da palavra pressa ou mesmo como se só fosse familiar com a lentidão e foi-me contando sobre o desenrolar do dia entre grandes inspirações e expirações. Disse, como se não fosse grande coisa, que saiu de casa apressado e por isso não tomou café da manhã, que teve que resolver mal entendidos e não teve tempo de almoçar. Quando me choquei e perguntei como tinha conseguido ficar em pé ele respondeu, num tom conformado, que tomou alguns copos de café durante o dia e comeu alguns biscoitinhos em recepções de hotéis ou entre um compromisso e outro. Quando lhe perguntei se queria que preparasse alguma coisa para o jantar, disse que a própria fome e o cansaço já o tinham alimentado, e que a vontade de comer tinha ido embora. Engoliu um ou dois pedaços de pão e foi dormir com um ar irônico, fingindo não saber que os dias seguintes seria a mesma coisa até que o problema central, gerador daquele emaranhado de complicações, fosse resolvido, afinal, ele era o responsável por gerenciar o pessoal, coordenar ações e dar conta do que só ele podia fazer. Já eu fui dormir com um ar de curiosidade e a certeza de que ainda quero ter dias e responsabilidades assim.
"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
28 de setembro de 2007
25 de setembro de 2007
Today's Fortune
"Today's fortune: You will be fortunate in everything"
Ainda bem que eu sou dos que não levam a sério.
Sobre (re)começos
Sempre me esqueço do gostinho. Lembro-me das sensações, do deslocamento, das conversas dos amigos que parecem ter tido férias ainda mais agitadas que o ano passado, do conhecimento novos professores, do descobrimento de uma nova rotina, da adaptação, do costume e, por fim e ainda bem, do gostar. Houve só um lugar em toda a minha vida que eu não gostei, e esse lugar foi a Brasília de 2002.
Mas, mesmo que eu me recorde disso tudo, esqueço o gostinho.
Devo gostar. De mudar assim e de descobrir que se pode ser sempre um camaleão e, às vezes, um camaleão dos bons. Quem diria que eu sofreria tanto para deixar Brasília depois de conhecer, por seis meses, pessoas completamente novas e diferentes do que eu costumava conhecer. Quem diria? Me lembro (foda-se a regra gramatical de não poder começar frases com pronomes pessoais do caso oblíquo. estão reformulando a porra toda mesmo e querem tirar até a trema, que moral eles têm pra dizer que estou errada?) bem da sensação de tudo novo, da surpresa e do nervosismo. Me lembro do gostinho de entrar pela primeira vez na faculdade. Mas não me lembro do gostinho de começar novas amizades. Lembro bem da sensação, mas o gostinho não é a mesma coisa. Ontem então, primeiro dia na faculdade para resolver minhas coisas, conheci outra caloura. Sofia. Bem querida e easy going. Eu realmente não me lembrava que era tão simples! "Sociologia também, é?! Prazer, Luiza" "Sofia" beijinho, beijinho, pronto: uma conhecida. Está certo que eu fui assim bem brasileira: conversadeira, alegrinha e risonha, mas eu sempre fui assim. E eu sempre fui força. Não tanto, mas a culpa é das piadinhas. Eu simplesmente não me livro delas. Nem quereria. Nem a Curu quereria. E foi bom, foi um dia cansado e alegre, mas foi alegre. Cansado em nível maior porque eu dormi mal e minhas costas choram, mas foi assim, inovador. Entrei na faculdade e vi uma fila de pessoas, coletinhos azuis, caras entre riso, vergonha e desespero e, no meio deles, Sofia. "Meu Deus, é a calourada de sociologia!" foi o primeiro pensamento. O segundo foi "quero entrar na fila". Eles gritavam "Bla bla bla SOCIOLOGIA!" Cara, a vergonha era nítida principalmente no fim do coro, que era pra ser mais alto. hahaha Agora eu penso "não sei se queria estar lá não". haha Os veteranos puxando a fila, caminhando ao lado, instigando. Eu sou pró-trote (pró-praxe). Uma praxe animada, divertida, não-traumática. Sem idéias de colocar camisinha no pepino com a boca, mergulhar no estrume, puxar carroça com veterano em cima (é, agrônomos, eu sou contra!), sem humilhação. Mas um trote suave e memorável. É um rito de iniciação, e, se calhar, ainda há no meu computador um estudo dirigido sobre a importância deles. É a marca de um começo, é um "bem-vindos" (cara suspeita ao escrever isso), é um "vocês fazem parte". É um (re)começo. E amanhã eu entro com qualquer pé nele.
21 de setembro de 2007
Vale tudo
Por que diabos o suposto soco que Felipe Scolari deu no jogador sérvio virou comentário em tudo que é lugar? A mídia gostou do soco, os telespectadores gostaram, a crítica gostou, os blogs gostaram, os escritos anônimos e os que dão a cara a tapa gostaram, Felipão gostou, e a FIFA finge que não gostou. Oras, deixem-no viver! Parem de comentar sobre o maldito soco! Até eu agora comento, que chatisse! E outra coisa, quatro jogos?! Tá certo que os portugueses não estão se dando muito com o técnico da seleção deles ultimamente, mas quatro jogos é um prejuízo incalculável pro time. Quem vai ficar à beira do campo vestindo um agasalho, segurando a barriga com o eslástico da calça, ficando vermelho de gritar e trazendo Cristiano Ronaldo pro banco mesmo que ele faça biquinhos(seu jogador habilidoso, ágil, metrossexual convencido!)?! Acima o vendido Felipão! Você deixou nossa seleção por uns tostões a mais mas pelo menos não fingiu que não é capitalista! Volta Felipão!
You writer, you liar
The writer: You think love is simple. You think the heart is like a diagram. The phisician: Have you ever seen a human heart? It looks like a fist, wrapped in blood! Go fuck yourself! You writer! You liar!
19 de setembro de 2007
Sobre meus melhores quatro meses
Eu sinto tanta falta de vocês. Tanta, tanta, tanta. Me dá vontade, mesmo, de voltar em Janeiro. Eu espero que passe logo. Espero que passe mas que fique a falta de vocês, pra eu poder preenchê-la de volta depois. Mas é tanta falta. O dia-a-dia, as palavras, os risos, os olhos. Me dá vontade de chorar. Porque a gente tem vontade de chorar às vezes. E cadê o Beto para conversar sobre o chorar, a Mari Du pra ouvir e dizer que entende e me oferecer o mundo e mais um pouco, a Mari Vas pra conversar sobre isso, a Curu pra ser alheia e ainda assim me mostrar que está lá, a Clau pra dar apoio sabendo ou não o que é, Leyla-Layla pra alisar o cabelo e ser carinhosa, o, a, o, a, o, a. Deixa, passa. Muita coisa, algumas que não quero, mas passa. E fica. Estou pensando no meu muro, e nas escadas de vocês; nas minhas âncoras, e nas bóais de vocês; nos meus óculos, e nas lentes de vocês; nas minhas algemas, e nas chaves de vocês; nas minhas cordas e nas facas de vocês. E as pessoas que ainda me vão conhecer agradecem desde já a mudança que vocês fizeram em mim.
"Eu matei Mufasa"
Aos poucos, sutil e calma como poucas pessoas descobrem por si só que posso ser, eu vou lançando meus segredos pelos cantos do mundo, tramando palavras que parecem sem importância, cuspindo um passado sempre presente, um desejo nunca morno, uma esperança nunca vã. Vou deixando minhas migalhas em terrenos diferentes, vou jogando papéis no chão sem o remorso costumeiro, vou largando meus pedaços. Obrigada por ouvir meus segredos sem saber, e eu te perdôo por fazer chacota deles sem perceber. Obrigada por ver a importância às vezes, e me olhar como quem fez um grande feito. Eu fiz. Pequenos Grandes Feitos Desconhecidos. Sem contar aquela latinha de Skol que eu virei. haha.
Obrigada, mais diretamente, à minha irmã, que sabe ser absolutamente carrasca e absolutamente compreensiva, e eu ainda não descobri como. Que sabe ser presente. Meus segredos estão já perdidos em você, e eu já não me importo que os encontre de novo. Só esqueça de procurá-los, faça espaço pros novos. Estava pensando noutro dia no postsecret, nas pessoas que mandam os segredos, no ato de confessar-se para "o mundo". Eu vou-lhe dizer, é viciante. Escreva um segredo, confesse-se numa folha de papel, numa montagem da internet(tudo que dê menos trabalho e consuma menos tempo pra você não se arrepender enquanto escreve, certo?), nalgum blog. É viciante. É libertador. É auto-descoberta. É pesado. É assumir, é ter certeza, é confirmar, é perceber, é muito. Mas é bom. É viciante.
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