13 de setembro de 2007

Sobre calefação

Estou agora pensando, agora pensando, agora pensando. Naquele frenesi louco de quem é prisioneiro dos próprios pensamentos e se rende sem suspense, só para mostrar que é a música e não a cena que faz o medo e que é melhor render-se logo a começar a temer a si mesmo. Então me entrego rápida, engatilhada, como a arma mais veloz de um duelo à moda antiga, como o soldado mais ágil na esgrima das baionetas de armas sem projéteis. Estou sendo rápida, engatilhada. Os dedos dançam e isso é melhor que hipnose, é mais sincero, é mais brutal. É a consciência das palavras cuspidas já quase pelos dedos e não mais pela mente. É a brutalidade da consciência das toneladas de palavras; é já não saber o que se escreve, e escrever mesmo assim. É fechar os olhos e ver os dedos lutando, batalhando, matando-se como se não houvesse amanhã, e, por fim, não há mesmo. É parar, respirar e perder-se, e não saber o que falar e saber que se fala o que quer, é lutar contra si mesmo, contra o que impede e diz 'não' e te mata. É lembrar-se das palavras doloridas de outro alguém e viver depois de cuspir suas próprias ameaças a si mesmo, seus próprios socos e pontapés e suas celas maltratadas de prisioneiros políticos. É ser militante e acomodado, espectador e espetáculo, violento e vítima, pobre e consciente. É tudo que é antônimo e não devia ser. É tudo que é excessão para uma só pessoa, mas que, exatamente por isso, é excessão para todos. É cuspir, cuspir, correr, engolir, sujar-se. E agora vou escovar os dentes e tomar banho.

Sobre nada

Qual a especialidade da primeira vez? De tudo, se alguma vez deve ter algo de especial, pensar-se ia que seria a última. Mas a primeira? Depois da primeira há a segunda, a terceira, a quarta, a quinta vez. Depois da primeira há a repetição, e com a repetição há o decréscimo do valor, da importância, da especialidade. A primeira vez abre um ciclo, abre um leque, abre conseqüências, abre uma nova perspectiva de tudo que é novo, e tudo que é velho e tudo que já se foi e tudo que virá. À última vez, nada.
O que se segue ao último beijo?, o que se segue ao último olhar?, o que se segue à última hora?, o que se segue ao último soco?, o que se segue à última vez? E nossa cultura é a importância da primeira vez. O primeiro caminhar, a primeira palavra, o primeiro beijo, o primeiro cigarro, a primeira transa. E o último passo?, o último grito?, o último lábio?, a última salvação?, o derradeiro prazer?, o derradeiro amor?, a derradeira esperança? Depois há o espasmo. O choque dos olhos abertos e das bocas escancaradas sem palavras. O absurdo das mãos a centímetros e a infelicidade da última gota presa na torneira. O desespero consciente dos seis segundos de vida aos quais a cabeça decaptada jogada no cesto agarra-se na tentativa de fugir. À última vez, a lembrança. A mosca na sopa e o calo no pé, a rouquidão da voz e o cheiro que se foi; as pontas dos dedos grossas de esforço e o violão quebrado na prateleira, a dureza do sorriso da graça que já foi graça, mas que agora é retrato. À última vez, os retratos.
Não, eu não quero o esplendor e a plenitude da primeira vez. Não quero os sinos, nem os badalos, nem os anjos, nem os astros, nem o brilho, nem a doçura, nem a beleza. Se puder guardá-los, quero-os todos para minha última vez, para meu último adeus, para meu último sorriso. Se puder guardá-los, quero mandá-los embora quando o sol tiver já ido e quando a noite for já minha, quando os olhos estiverem já fechados e meus pulsos acelerados, quando as pálpebras disserem boa noite e o corpo disser bom dia, quando as respirações ficarem profundas e a minha descompassada. Quando a noite for minha.
Que depois dessa noite, mais nada.

10 de setembro de 2007

Sobre finais

- Eu acho que a gente deveria deixar de se ver. - Por quê? - Eu não consigo me amar. Eu tenho amor demais por você e esqueci de guardar algum para mim. - Isso não faz sentido; não há limite para o amor. Você pode amar quantas pessoas for, na intensidade que for. Todo mundo sabe como o amor funciona. - O que é a mesma coisa de dizer que ninguém sabe. - Se você quer terminar comigo, deveria simplesmente dizê-lo, não inventar uma desculpa qualquer. - Por quê? Agora você vai me dizer que todo mundo sabe como terminar um relacionamento?

7 de setembro de 2007

Para Sara, com todo meu amor e todo meu egoísmo

Fiquei pensando no dia do seu aniversário, no meu olhar na sua página, na minha intenção de escrever um email, na intenção de mandar um scrap, na intenção melhor de ligar, que tenta fugir dessa contaminação que a internet colocou na disposição das pessoas. E lembro que não fiz nada disso, que pensei em você e nas coisas boas pra te dizer, que pensei nalgumas coisas e esqueci outras, e que deixei tudo escorregar vendo televisão. E estou pensando no que você deve ter achado disso, o que deve ter achado da minha ausência, da minha desaparição, de tudo isso. Estou lembrando da minha desculpa de não mandar nada pela internet por causa do seu computador quebrado, mas sei que já cheguei no extremo do ridículo, pra você e pra mim, e não posso esperá-lo voltar a funcionar. Estou me torturando desde 17 de agosto com isso, com meus pensamentos, com suas lembranças e meus descasos, me martirizando, pregando na cruz, questionando. E então penso que talvez você ache que nossa última discussão, que na realidade nem foi discussão, tenha-me feito mudar alguma coisa, ou esquecer, ou desconsiderar e eu não queria nada disso. Mas não consigo mais saber que passou-se quase um mês desde uma data especial e você pode ter achado que não lembrei, que não fiz caso, que esqueci, que deixei passar sem dar importância. Mas, você sabe, eu sou craque pra erros assim. Eu sou 10 pra erros assim e depois eu acho que é justificável, ou que é consertável, mas na realidade, depois do erro, tem sempre o medo de não consertar. Na realidade, fico aqui comigo pensando se é um erro. Essa merda de convenção de aniversário ser data pra se vangloriar ou desejar boas coisas pra alguém quando eu já desejo sempre, nunca deixei de desejar, nunca desejei nada diferente que só as melhores coisas nas quais consigo pensar. Mas e a pressão de até quem mal te conhece te deu um simples "Parabéns" e eu não o fiz? Me assusta que você possa pensar que já esqueci nossas coisinhas e nossas histórias e conversas, mas eu não consigo(e talvez nem queira) passar por cima das loucuras da minha personalidade desastrada e esquecida, ou talvez eu não me esforce o suficiente. Eu odeio datas de aniversários e desejos de felicidades de um dia só, mas é importante pra você, eu acho, e parece um consenso mundial de que é, então penso se eu não estou sendo uma egoísta que prefere ver as próprias vontades de não gostar de aniversários e deixar passar em branco.
Mas não deixei. Eu pensei em você e isso fez diferença pra mim. Mas não saber se você sabia ou achar que você considerou um descaso meu tem me assombrado desde aquela data e não consigo mais passar uma semana sem pensar nisso, e por isso escrevo. Porque talvez não machuque relembrar meu amor por você, e minha consideração, e minha admiração e meu tudo que é demais pra ser posto em palavras. Eu não quero falar, e estou desconsiderando de novo seu desejo de que talvez você queira ouvir, mas eu prefiro me calar e me deixar sentir e ver o que eu sinto por você e o que isso significa e essa amplidão, essa amplidão, e esse respeito. E fim. E é simples e eu não queria complicar. Então desculpa minha ausência e minha falta de compromisso, e desculpa minha falta de tato e e todo meu egoísmo. Desculpa, se puder. Se não puder, não diga que não pôde, só me deixe acreditar que seu computador ainda não consertou e você ainda não leu o que eu quis te dizer e que quando ler tudo será calmaria de novo.
Eu te amo. Feliz aniversário.

4 de setembro de 2007

Sobre nós

Eu espero ainda poder te dizer isso pessoalmente, poder ainda sussurrar no seu ouvido as palavras que acho que vão fazer efeito, poder sentir o efeito, poder saber que ele é meu. Talvez seja só por agora, você sabe como eu sou temperamental, eu sei como sou. E você adora. Adora porque isso deixa tudo na margem, na tensão de acontecer, mas nunca aconteceu, não é? Sabe Deus como alguma coisa deu certo(ou não) entre você e ela, e você sabe o quanto ela é perigosa. É isso que gosta também. E o desprezo dela, a rapidez, a meninice, a malandragem sutil que ela tenta esconder e traz à tona quando convém. Eu gosto também. Desperta um interesse que ela desconhece, ou talvez conheça e se faz de menina, como sempre faz mesmo. Mas eu sei como sou curiosa, e como as coisas me afetam, e você sabe o quão complicado nós três sempre fomos. O que é isso, um triângulo amoroso banal que a gente nunca reconheceu como tal? O que é? Algum casinho sórdido de nós três? Se for, quero meus benefícios, que por enquanto estou só de espectadora ouvindo suas histórias. Mas não é isso que quero dizer. O que quero é ainda ter a oportunidade de te dizer o que quero perto do ouvido. Te dizer que eu adoro esse seu jeito, essa sua besteira que exala pelos poros sem que você perceba, sua meninice enlaçada na sua malandragem, suas insinuações que eu finjo ignorar, seu sorriso e sua dependência de mim. Mas sua dependência não é tão direta, não é tão brutal o suficiente pra me fazer correr. Não, não é. Eu vi seu olhar enquanto considerava me sentar um centímetro mais perto e não o fiz, eu vi sua expectativa e brinquei com ela te lançando as possibilidades que agora eu remôo quieta sem que você saiba. E eu fico me abrigando nessa distância, fazendo-me livre nela, fazendo-me prisioneira dela, desejando que você esteja aqui pra que eu descubra se isso tudo é só mais uma moda que eu inventei, porque você sabe como eu invento moda, eu sei. Mas, céus, não mude. Não mude mesmo, fique assim, perto, fazendo planos, dizendo que espera e procurando outro alguém, querendo me substituir sem realmente querer, querendo procurar meu perfil noutra mulher, querendo encontrar meu suspense noutras saias. Continue, que eu gosto. Continue, que me excita. Continue que quero ver até onde nós vamos com tudo isso. Com esse nosso nada.

3 de setembro de 2007

Sobre prisões

Somos pela simplicidade(/complexidade) da escrita. Sim, acima a simplicidade da escrita! Já, por sinal, observou a frivolidade de uma exclamação? Talvez assim seja exagero, mas pense na ridicularidade de duas exclamações, três exclamações. Com uma exclamação, mostra-se a vontade, a determinação, e ela é ainda válida para se afirmar algo forte. Mas quê mais para tornar toda uma frase banal além de três exclamações no final? Ah, quase nada. Exclamações são exageros. São reações demais para algo que poderia terminar só com um ponto. Olhe um ponto, que poético. Nada há de mais poético que um ponto. Um ponto lhe diz: quero dizer isso e fim. Nada mais que isso. Só. Toda a complexidade de uma frase inteira captada pelo ponto. Toda dor, todo sabor, toda loucura, toda intensidade contida num ponto. Todas as interpretações, todos os desestendimentos, toda a pressa, tudo que se quis e que não se quis dizer presos num ponto. E, então, por conter tudo isso n'algo tão pequeno, as pessoas pensaram que deveriam fazer dele algo maior, e então criaram a exclamação. Mas o que há de mais belo que um tango dançado nos olhos? O desespero de um olhar? A intensidade das mãos estupefatas, chocadas, perdidas imóveis numa superfície qualquer. E a intensidade de um solitário que vê um filme de amor? A intensidade de um surdo que observa um acidente de carro. A intensidade do calor das coxas. O frenesi contido e calado dos dedos que caminham. E me põem uma exclamação ao fim da frase que poderia ser a mais bela. "Eu era seu escravo!" "Eu era seu escravo." Toda a intensidade que espichou o ponto e o transformou numa exclamação vai-se com ela, perde-se, ultrapassa-a, rasga-a e diz que não lhe pertence. A exclamação, por fim, é pior prisão para os sentimentos que o ponto exatamente por conceder-lhes mais espaço. Talvez tenha a pretensão de fazê-los conviver em harmonia, felizes. O ponto é bruto, é mínimo, é apertado. Diz que não importa seu turbilhão de sensações: ficarão todas aprisionadas n'algo que ainda não descobri se é um pequeno círculo ou um pequeno quadrado. Mas fica tudo preso ali, chocando-se, e sua cela não se importa se estão felizes ou não, harmônicos ou não, simplesmente porque nada nunca é. Não para todos os ângulos. Ou ao menos não deveria ser.

Sobre escravidão/exploração(auto?)

Ontem vi um homem com dois celulares.

2 de setembro de 2007

Sobre vontades

Antes, mentalmente, fiz uma lista(quase infindável) de tudo que queria e tudo que não queria. Agora, assim com os dedos nos quadrados, tenho nada em mente. Mas é fácil, é começar e tudo desandar. Quem é que não quer um mundo de coisas disfarçadas na vontade de nada?
Quero água. Agora pra começar. Minha boca está áspera do sol do Porto, da tarde de ontem e da tarde de hoje. Eram o quê, 30 graus? Quero água. Pronto. Agora quero espaço. Estalar os dedos, fingir que tenho coisa boa a dizer, pensar que eu talvez me entenda e saber que entendo mesmo. Quero um texto cansativo pra quem ler. Um formato antiquado, parecendo um caixote que é pra baterem o olho e mudarem de página. Não quero que mudem de página, mas faz parte. Quero palavras. Quero olhos sobre mim, de que natureza forem. Quero respirações ruidosas pra me lembrarem de que não sou só eu que não estou achando fácil. Quero telefone. Para jogar na parede e deixar bem claro que eu ODEIO telefone. Mas uso. Uso porque odeio mas não sou mongol de negar os benefícios e, de uma forma ou de outra, quero vozes perto. Quero perder o pudor de ligar pra quem vai achar estranho receber um telefonema. Queria ouvir a voz de Mariana Vassallo, mas não liguei quanto tinha cartão nem vou ligar agora que não tenho nem vou ligar quando tiver porque não gosto de telefone e para depois poder ter algo para brigar comigo mesma. Quero mesmo ouvir a voz de Mariana Duarte. Mas assim, ao vivo, que é pra fazer bastante efeito. (Quero, só por isso, Dezembro. Mas depois quero Setembro de volta.) Quero dirigir. Quero ser boa motorista. Quero saber reduzir na marcha e não no freio, que nem Mariana 007 faz sem mesmo ver(a redução na marcha). Quero ameaçar atropelar pedestres só porque é engraçado. Quero correr num campo aberto e, já que estou na Europa e estou falando de coisas que são desejos e que não serão necessariamente realizados, vou ser exigente: quero correr em campo aberto e melhor que seja na Inglaterra. Quero alguém comigo. Pra sentar então no gramado no fim da correria. Beto gosta de metáforas, mas acho que vai achar essa um pouco vulgar. Tem nada não. Quero menos calorias. Estou comendo horrores, devo ter engordado um pouco. Não sou de fazer dietas, nunca fiz, só de engorda. O que está para ocorrer é um controle de boca. Quero descobrir uma música nova boa tão boa quanto foi descobrir Smokers Outside the Hospital Doors. Quero tocar mais violão. Quero cantar numa banda. Quero cantar pra mim. Quero que Mariana 007 me peça para cantar mais uma música. Quero fazer uma música. Depois quero que digam que está boa. Quero então que me peçam para tocar de novo e, depois do ego bem enchido, quero que me deixem em paz. Quero apreciar o calado da noite, mas não porque não consigo dormir. Esse calado é mais um martelo, como está minha cabeça agora. Quero amigos. Novos porque não há outra opção. Quero amigos ótimos também. Bem divertidos, bem aconchegantes, bem amigos. Gostei de Lorena, parece interessante, deve dar boa companhia, espero poder descobrir. Por sinal, já que falamos dela, quero dizer que não gosto tanto de Aerosmith. Quer dizer, eu disse que sim, mas depois pensei melhor e o cara grita muito. Tem uma voz massa, mas grita horrores. Quero mais músicas de Amy Winehouse. Ah, lembrei, quero um laptop! Ajuda a escrever nos melhores lugares e eu não gosto de escrever à mão. Quer dizer, gosto, mas meu pensamento é zilhões de vezes mais rápido que minha mão direita e muita coisa se perde. Não sou como Mari Vassallo que gosta do desenho das letras porque quando escrevo rápido minha letra sai péssima. Calma e paciente ela é até bonita(!). Quê mais? Ah, quero descobrir porque gosto de uns cheiros repentinos de cigarro e odeio outros. Será a marca? Quero tomar cerveja. Sagres, que é a mais famosa daqui e a única que provei. No Brasil a cerveja é uma bosta, o que me faz questionar porque temos a tradição de adorarmos cerveja. Quero fazer meu curso de fotografia a tanto tempo planejado e depois quero uma máquina boa. Não precisa ser realmente boa, só boa pra começar.
Nem desandou tanto quanto eu esperava. Não desandou nada do que eu esperava.

27 de agosto de 2007

Ode às Marianas

Eu não vou começar do começo porque a primeira Mariana a cruzar minha vida é revestida de um caráter diferente das outras Marianas. Essa primeira Mariana teve sua vida cruzada por mim talvez primeiro que eu tive a minha cruzada por ela. Na realidade, talvez tenha tudo acontecido simultaneamente, mas ainda assim, fui eu quem demorou a perceber sua influência em mim, e por isso vou deixá-la ao final.
Mas então, na minha oitava série, eu conheci a primeira Mariana de que me recordo. Bem morena, cabelo ruim, olhos castanhos, baixa estatura, feinha, histórico desconhecido, importância nula. Ela andava num grupo de três meninas. Eram todas, feliz ou infelizmente, muito apagadas. Suas reais amizades pareciam limitadas entre as outras duas amigas, e ainda que conversassem com mais pessoas(eu ia dizer "muito mais pessoas", mas é mentira), não pareciam fazer grandes questões. Uma das minhas amigas, que não é uma Mariana e não tem importância nula, por um acaso era colega de uma delas, que também não era Mariana, mas que também tinha importância zero. Essa colega do trio então contou à minha amiga um caso sórdido seu que, por sinal, já contara a uma das suas outras duas grandes amigas. Essa amiga da colega de minha amiga a quem o caso sórdido também foi contado, contou à outra, a cujos ouvidos a noticía não tinha chegado e, naturalmente, como os melhores amigos de nossos melhores amigos não somos nós, a notícia espalhou-se. Enfim, isso só é importante para nossa história porque a imagem de Mariana foi danificada e, pelo próximo ano que eu conviveria esporadicamente com ela, sempre a veria como algo sórdido, nada interessante, sem graça e vil. Eu nunca a conheci realmente, nem nunca fiz questão, nem gostava de parecer antipática mas, felizmente, nunca fomos próximas o suficiente para que eu tivesse que fingir uma empatia.
A segunda Mariana com quem cruzei era loira, tinha um corpo bonito, olhos lindos, era um inferno e tinha cara e personalidade, até onde eu conhecia, absolutamente vulgares. Gerava um alvoroço quando passava por causa da casca bonita que era: de frente era realmente bonita(ainda que, para mim, tivesse uma beleza em grande parte artificial. Toma-se beleza artificial por aquela que só é conferida por excesso de blush, lápis, rímel e esses mistérios da maquiagem), de costas tinha uma bela bunda. Certo dia invigilante, 7h00 da manhã, uma tensão foi planatada na sala de aula na qual eu estava sentada no final, conversando um papo de morto-vivo, um olho aberto conversando, outro fechado dormindo. Mas o coro comeu, a porrada começou, e eu, que costumo ser aquela a estragar a felicidade de quem gosta de ver um bom baraco regado a pancadaria, tive a intenção de fazer o tumulto cessar. Não foi preciso sujar as mãos pois interromperam a porrada antes de mim, mas cabelos foram arrancados, cabeças socadas e a uma das meninas transformadas em ídolo dos "contra-Mariana".
A terceira Mariana que cruzou minha vida tem dois anos a mais que eu, tem uma cor de pele de que gosto, é muito bonita, tem cara de aplicada e um cabelo lindo que quer cortar. Gosta de brincos de pena, daqueles que não tem par, não gosta de uma blusa de alcinhas que tem, que diz se muito aberta, mas a usa de qualquer forma. Vai à faculdade de havaianas de plataforma marrons, e eu olho pros seus pés todos os dias, talvez porque eu não goste do chinelo, talvez porque gosto da tatuagem e nunca me acostumo com ela, talvez porque goste da história da tatuagem e seja lembrada toda a vez que a olhe. É a única são paulina que conheço que não é, de alguma forma, metida, tem uma voz que me faz sentir em casa e um sorriso que me deixa à vontade. É ótima no truco e seu jogo só dá errado quando muda de parceiro. Quando a vi pela primeira vez, aproveitei(como noutras infinitas vezes) sua carona e achei que ela e Bruna Cerqueira seriam uma dupla inseparável só porque caminharam na frente dos outros calouros conversando entre si. Quando vi Mariana nº3 pela segunda vez, ela corria comigo pelo subsolo do minhocão, meio palmo de língua para fora, os chinelos na mão. Quando a respiração baixou e resolvemos almoçar, mal sabia eu que quereria conhecê-la mais do que costumo querer conhecer os outros, que me sentiria à vontade como demoro a me sentir, que almoçaria mais incontáveis vezes com ela e quereria almoçar muito mais.
A quarta Mariana que conheci tem uma silhueta magra, um cabelo incrivelmente fino e liso, uma expressão de poucos amigos, mãos de dedos finos e uma risada engraçada. Usa tênis sem cadarços com quadriculados vermelhos e pretos e tem como fiel escudeira sua bolsa vermelha com bolinhas brancas. Não me lembro de vê-la com brincos. Não me lembro de vê-la com lápis nos olhos. Lembro-me dos seus sapatos finos, de vê-la sentada no ceubinho com outra amiga e sentir um ciuminho besta de quem não pode se intrometer na conversa dos outros. Lembros de suas pernas em cima do banco em frente ao Meleca quando tivemos a primeira conversa em que contamos algo de nós mesmas. Lembro de sentar-me no banco em frente a um anf e conversar sobre coisas mil vezes mais interessantes que o problema do carona. Lembro quando sorri para um amigo nosso em comum, na frente de onde seu carro estava estacionado, e fiz cara de brincalhona antes de dizer a ela que pegaria uma mulher que tivesse um Honda preto. Lembro do chaveiro feio do carro dela e de quando ela me mostrou uma música do Depeche Mode depois d'eu insistir que nunca ouvira uma música sequer deles. Mariana nº4 tem paciência para me escutar, e eu falo horrores, e gosta de uma boa conversa como eu, e perde direto de mim no truco, e vai combinar códigos com seu parceiro para ver se ganha da Mariana nº3. Mariana nº4 me mantém numa conversa até 4h15 da manhã.
Por fim, há ainda Mariana nº001, ou 007, porque me lembro quando disse ser esse seu número favorito(mas talvez isso já tenha mudado), é minha paixão. Mariana nºoo1 me viu pela primeira vez antes que eu a visse, e me tirou do peito de mamãe antes que eu estivesse satisfeita. Tem cabelos loiros que alguns pensam ser ruivos, tem olhos verdes que ninguém pensa ser de outra cor, e quando digo que ela ganhou os melhores atrativos da família, diz que Deus não dá asa a cobra, mas não acredita precisamente em Deus(ainda que, de uma forma ou de outra, acredite). Mariana 001 me dá nos nervos como mais ninguém, me dá vontade de espancá-la um momento depois que tive vontade de dizer que a amo. Tem uma inteligência invejável, mas o que eu realmente invejo é sua determinação, porque a inteligência eu também tenho. Ela escreve bem mas não em tanta quantidade quanto eu, e talvez por isso o que seu papel diz soa às vezes mais forte. Mariana 001 é grande parte da minha vontade de viver, às vezes da minha vontade de atirar-me pela janela, é meu anjo da guarda quando penso que me joga no inferno. Diz que futebol é o "ópio do pobre" mas aprecia um bom jogo. Diz que futebol é o "ópio do pobre" como se o do rico fosse melhor. Mal sabe o quanto amo futebol. Mentira, ela sabe. Mariana 001 tem uma risada que vale mais que a graça em si, me interpreta errado quando acha que estou sendo teimosa, ainda que às vezes acerte. É minha melhor companhia pro cinema. É absolutamente tactless quando diz que Alessandra Castro teria visto ou entendido algo que não entendi, e nunca percebe. Mariana 001, quando dança, acho que se sente no auge de sua completude. Mariana o01 odeia receber favores e eu, ainda que entenda o porque, acho-a louca e orgulhosa. Mariana 007 é Mariana 007, e fim.
Às Marianas da minha vida.

24 de agosto de 2007

Sobre calvários

Algumas pessoas achariam absolutamente razoável se eu nomeasse o filho que um dia espero ter de Rodrigo, mas eu nunca conseguiria perpetuar a memória dele n'algo tão próximo quanto um filho e ser relembrada todos os dias, todos os momentos, de tudo que ele foi. Já me basta o calvário que tenho passado ultimamente com isso e tentado fugir dele. Já me basta meu martírio. Talvez então, se existe Deus, sua morte(a do Rô) tenha sido alguma espécie de provação para mim(não só para mim; minha presunção também não tem essa grandeza), de teste, e eu estou falhando miseravelmente. Mas parece-me injusto da parte do deus que eu imagino que ele tire uma vida para fazer valer outra. E essa é a razão de grande parte dos meus mais recentes questionamentos. Eu simplesmente não conseguiria. Não, eu nunca conseguiria. Pode usar o nome, Bru.