24 de janeiro de 2022

Julio caminha pela calçada, muito por hábito, mas em si parece que caminha no meio da rua, e isso lhe excita como se corresse perigo. Corre, mas não no meio da rua. Acende um cigarro, reflete ideias abstratas que são mais sensações. O hábito do cigarro não é mais o mesmo parceiro. Existe alguma memória antiga que se agarrou ao cigarro, um jeito de ser, a expectativa de um jeito de ser. Fuma como quem evita rememorar, mas rememora. Coça a barba com as unhas, escuta o barulho dentro da cabeça. Coçar é também um pouco sua forma de pensar; como se as ideias não corressem apenas quimicamente pelo cérebro, mas sobre os dedos, sob a pele. A garganta arranha na cura da semana passada, quando esteve irritada, como ele. Não devia ser somatização, porque ele ainda está irritado, ela não. O cigarro é como uma desculpa para a solidão, uma poesia para a solidão. Como se, na fumaça, se envolvesse algum mistério da vida que justificaria tamanha confusão. Não justifica. Desta vez, em diferença de outras, não há amantes errados, amigos distraídos, choques de personalidade, esquecimentos inconvenientes. Há Julio, que caminha na calçada como se caminhasse no meio da rua. Em algum lugar do seu metro e oitenta existe um grande buraco. Não tem bem certeza se vazio ou não, mas reconhece o buraco. Ali, onde ao menos ele está dentro, parece existir um certo ar suspenso, uma certa expectativa, uma certa fuligem, que sabe, que se deposita sem efetivamente se depositar, parece mesmo estar suspensa, porque lhe toca a pele e porque lhe pesa o ar. Não é bem que lhe pareça certo estar ali, mas está ali. Não é bem que lhe pareça desconhecida, mas também. Toma-lhe bem um buzinaço nos cornos agora, não tem certeza de que era pra si, mas o carro passou zunindo e pareceu-lhe que qualquer coisa foi dita pelas janelas. Olhou ao redor, e embora não tenha visto ninguém, no meio do movimento perdera um pouco a concentração. Essa fuligem suspensa, o que será. Respira fundo, como se tivesse os sentidos apurados o suficiente para lhe sentir pelas narinas o que a possa justificar, como se sondasse sua intimidade profunda, seu mistério, o fundo sensível do que ela significa. Mas não sentiu cheiro nenhum, a não ser do cigarro, nem sensibilidade nenhuma, a não ser talvez um excesso de fumaça represada. Soltou a baforada ou um certo ar de resignação. Fechou os olhos como que para concentrar-se naquela sensação subterrânea de alguma ideia brilhante que lhe aflorava, mas apenas simbolicamente, pois atravessava a rua e não podia fechar os olhos. Também parado fechava pouco os olhos assim de forma literal porque tinha muitos conhecidos e podia ser que lhe encontrassem desse jeito meio pela metade e lhe era muito difícil responder com a metade socialmente conveniente – entre a auto-sabotagem e a busca de si, acabava começando conversas sinceras demais depois de um simples tudo bem. Coçou a barba no sentido do pomo de adão ao queixo, pensava ou sentia. No meio daquela poeirada toda suspensa, que lhe arrodeava o caminho e parecia deixar rastros do seu trajeto, discernia aqui e ali uma coisa antiga, como um pedaço de papel queimado quase todo, só deixando meia palavra e o resto da sugestão do que poderia ser, do que já foi. Preferia a palavra inteira, assim só meia poderia ser tanta coisa que era como se fosse todas elas. Sentiu qualquer coisa no pâncreas, ou no fígado, ou no estômago, não tinha bem certeza, não conhecia assim as vísceras. Mas a dor era sua, e vinha de dentro. Essa incerteza do fígado, do pâncreas, do estômago, da palavra, da fuligem, do buraco cheio ou vazio, muita coisa, em que ordem deveria começar a se preocupar não sabia. Mas esta memória que lhe agarrava as ideias, o cheiro do cigarro, a textura da poeira, o calor da buzina e os gritos da janela parecia, e era, conhecida. Não parecia tão estrangeira assim, como se já tivesse se insinuado antes, mas onde exatamente e quando e com quem ou sem ninguém. Sem ninguém. A coisa se insinuava por si. Sem ninguém mas através de alguém. Enquanto caminhava e respeitava as regras de trânsito, investigava sem investigar o buraco em que se encontrava. Este vazio sem forma, mas com conteúdo. Como um buraco negro, invisível e poderoso, atraente, magnânimo. E lá estava Julio, no meio da rua.

14 de junho de 2021

Enquanto eu deveria produzir tantos materiais, planos, estratégias, cronogramas, controles, tabelas, pareceres, você caminha pelos meus corredores. Eu não vejo, mas eu sinto. Inclusive em locais e horas inconvenientes em que deveria estar praticando a atenção plena em uma coisa completamente diferente do que nessa sensação que você me dá. Você passeia... textura delicada dos seus dedos, que por dentro inventam lugares novos, ideias improváveis, jeitos muito imprevisíveis de me trazer para onde você quer colocar. Você põe. 

Marcamos um encontro. Enquanto várias ideias precisam ser debatidas, analisadas, decididas, estou viajando em uma situação completamente diferente. Olho sem pressa o seu rosto, com muitos detalhes e pausas absurdas. Lá no fundo, você fala o que viemos discutir; parece, eu escuto. O meu prazer é o seu prazer, não assim desse jeito cafona, mas em testemunhar as suas reviradas de olhos, o desacerto da sua respiração, a denuncia implanejada do seu desejo. Você regula o suspiro, mas o peito sobe mais do que se fosse uma respirada comum. Confissões a contragosto. Fecho os olhos por um tempo que deve ter parecido longo, "e então?", você me resgata, digo que estou considerando tudo o que você me disse, mas respondo com o que pensei enquanto me detinha em imaginar uma outra circunstância... "parece ótimo". Por sorte, seu plano era ótimo mesmo, e posso manter essa ideia. Mas agora, debruçada de lado encostada no seu corpo, volto a olhar os detalhes do seu rosto. Os cabelos, os ossos da clavícula, algumas marcas. E pra baixo vejo em perspectiva o resto do seu corpo. Mas o que me interessa sumariamente é a sua cara. São os seus olhos. Seus trejeitos. As portas de entrada de você.

2 de abril de 2021

Dias horas e longos meses em mim. Não tenho vontade de escrever para não criar um monstro. Quem sabe tenha sido exatamente este leão à porta que me privou da metáfora sincera com que eu contaria de mim encenando filosofar sobre tudo. Apoderar-se de mim, longo esforço... É lógico que a paixão é um perigo ao trajeto; perigo maior são as várias. A vida segue mesmo entre paixão e paixão, e as vagas... Os entreatos descortinam o futuro dos embates, desafiadores duelos na busca do fim, fim este, qual será. Nosso destino comum, invariável, igualzinho, confunde-se na jornada, onde todos nós parecemos tão diferentes, e medrosos - este somos. Ao final, segue-nos restando mistérios sobre o amor e a amizade, embora pareçam sempre tão familiares.


maio 2018

25 de março de 2021

Fecho os olhos para lhe ver. Lá está você, de cima a baixo. Parece até que esperava, que pacientemente aguardava a minha recusa esmorecer enquanto displicentemente percorria as gavetas, armários e bolsinhas em que organizo tudo em mim. Afinal me parece que cheguei aqui ao procurar outra coisa... Que coisa? Aqui estou à sua frente, nessa qualquer mesa de bar, esperando à porta do banheiro desse pé-sujo que era o último aberto e daonde você não sai nem por decreto. À medida que espero sua sede terminar, vou ouvindo várias estórias que não tenho certeza se são a mesma, cheia de pessoas, de jeitos, de vontades e de esquecimentos. Enquanto estou aqui, parece até que você não me esqueceu. Nesse vaivém da sua prosa, me vejo a discordar da sua decisão de ir embora, e trago para a mesa um assunto que acho que não era aquele sobre o qual conversávamos... Não sei. Em todos estes caminhos tenho a impressão de que você falava sobre mim e levei pro pessoal. Enquanto você meio que se defende, meio que dá risada, percebo que não deve ser sobre mim, ou que o feitio dos outros romances está lhe confundindo que amante sou eu e que amante são os outros. Aí, sem mal, sem mim, entendo que você se relaciona com todos nós ao mesmo tempo, mesmo os que já foram, e que somos a mesma coisa fragmentada em pequenas partes que lhe agradam, pequenas partes que lhe surpreendem, pequenas partes que lhe irritam, pequenas partes que lhe contam. Percebo que quando você me beija, na verdade está se beijando, e talvez lhe seja difícil aceitar que não pode beijar a si mesma sozinha; mas é o jeito. Então, quando na lembrança você me olha, será que você me vê? E quando na lembrança te olho, será que olho a mim?

13 de setembro de 2020

Quando éramos pequeninas, eu e minha irmã, tínhamos duas referências para alcançar em altura: uma era o freezer de casa, que naquela época era separado da geladeira e menor que ela, e a outra era Vó Deza. Fomos crescendo, crescendo... passamos o freezer... passamos Vó... E então muito tempo depois percebi que Vó era muito mais alta que o freezer, era aliás muito mais alta que o prédio. Quando eu me curvava para abraçá-la, na verdade era como se me esticasse! Vó tinha um jeito muito sincero de existir, muito calmo, muito inteiro. Transbordava doçura, além daquele jeito muito engraçado que ela tinha de rir de si mesma quando se confundia com algo. Era demais! O tempo continuou a fazer o que faz, e o freezer se tornou apenas o freezer, doce memória, e Vó continuou a ser referência, doce presença.

6 de agosto de 2020

Quando passou a mão sobre a capa do livro, foi muito mais a distração provocada que a condição alongada dos dedos que me chamou a atenção. Eu olhava a capa concentrada e aquela invasão de privacidade imprevista se transformou num súbito e muito áspero arroubo de indignação no meio da garganta. Ao subir os olhos para protestar, você, já de perfil, partia rumo a outra prateleira, distraída em si mesma. Eu sequer havia estado ali, embora ainda estivesse. No pé da cabeça, visível abaixo da orelha esquerda, alguns pelos faziam o caminho contrário à gravidade e subiam pela nuca, misturando-se, escondendo-se, tornando-se cabelo. Que mania irritante de arrastar os dedos pelos livros, pelas lombadas, mexer nas folhas. Deveria ser impossível em um museu. Mas, à medida que passeava, tocava uma ou outra lembrança, uma ou outra personagem antiga, um ou outro debate, desapontamento, descoberta, e foi, de paixão em paixão, mexendo nas minhas coisas passadas.

Tinha o mesmo comportamento insistente quando atenta. Quase sempre silenciosa. Ao sair com um livro a tiracolo pelas portas de vidro, procurando lugares vazios nas mesas do sebo, havia apenas a cadeira à minha frente, uma mesa escondidinha atrás da pilastra distante do caixa e, embora eu insistisse muito à santa que me deixasse ler sozinha e me tivesse apressado em ocupar aquela vaga com a mochila, ela pediu assento. Assentou-se. Me entregou a mochila sem muita cerimônia. Lia concentrada, não havia falado mais nada, e arrastava a ponta dos dedos compridos pelas bordas das folhas, mexia na margem como se as contasse, como se quisesse movimentar aquelas animações infantis desenhadas no cantinho. Abria a orelha do livro, fechava, segurava-o de quinze formas diferentes em um mesmo minuto. Se lia, não sei. Eu não lia. Achei de comentar sobre o poeta que ela escolheu, porque me incomodava muito o movimento dos seus dedos e eu queria perturbar alguma coisa naquela ordem. Nunca tinha ouvido falar do poeta. Sorriu brevemente, embora não quisesse, e não respondeu. Dentro em pouco abriu a orelha do livro de novo, o poeta era uma mulher. Me olhou quando pedi uma cerveja ao garçon, e pediu uma também. Justificou-se que estava de bicicleta e apontou com a cabeça a magrela em um poste do outro lado da rua. Estou a pé.

18 de junho de 2020

Há dias que o telefone chia. Quando Maria liga, há uma perturbação em entendê-la, uma distração sem conteúdo, o chiado do telefone. Entre incansáveis frases, infinitas elocubrações, sempre uma novidade, me distraio no barulho do chiado. Além disso, ela sempre estende muito as conversas. A distração natural se apóia no problema do meu telefone, e o problema do meu telefone se apóia nesta distração natural do meu jeito... Investigo, sem muito foco, por que ela inventa ter tanto assunto se não tem.

6 de novembro de 2017

Quanto mais te desentendo, mais sou provocada a te entender. Não pode ser, na minha mente, que o caminho tortuoso até você o seja até o fim dos tempos, não pode ser que você não simplifique. Mesmo sob os riscos iminentes do meu desejo, e mesmo que sob ele você esteja quase sempre rendido, não facilitas.

3 de outubro de 2017

Com medo por você escondi todos os contos. Imaginando seu sofrimento, sofri os meus inevitáveis desejos três vezes, no sentir, no escrever, no esconder. Em mim, mil portas enterraram mil estórias, vontades sempre breves, sempre eternas, de ser mais eu, sempre eu e ainda eu. Vontades de com você ainda ser eu. Medo por você, com você, de ser coisas que podem magoar e ofender, já sendo. Então resoluta, serei. De algum modo, sozinha finalmente mais uma vez, ser inteira, nos pedaços vividos e nos pedaços escritos, ser livre sem a ilusão de que ser presa liberta. Enfim, com você sempre nova, cada vez mais dentro da inevitabilidade de ser, cada vez mais dentro da vontade de estar, cada vez mais dentro... poder estar fora, sonhando as minhas verdades, sonhando as minhas mentiras, sonhando, sendo tudo a todo o momento, sendo apenas eu e o mundo inteiro que se encontra nas palavras que junto das palavras que me juntam.
Para me conhecer sem me desnudar, dou nó nas ideias com palavras que podem sempre significar duas coisas. Esvaio essa reunião de coisas confusas, emaranhados que parecem sentimentos, mas que são mais palavras. Estou em desencontro com a poesia... com a prosa, que é mais meu jeito.

O tempo passou. A sua memória tem um sabor louco, embora hoje seja menos viva que o sabor esquisito da comida que preparei outro dia. A vida seguiu seu destino, tão longe de você, coisa que pude aceitar apenas agora que o seu gosto já faz parte de um outro momento, de outros desejos, de outras possibilidades. Ainda você continua uma desconhecida dentre tantas, embora tão familiar aos meus sentidos. Eu continuo uma desconhecida dentre tantas, embora parecia ter estado tão perto, quase íntima, por momentos curtíssimos. Estranha sensação de tocar sem sentir, de viver sem estar, de se dar sem ser recebida. Mas é simples o tempo caminhar e a vida se viver, sem recusas; essa impossibilidade de recusar a realidade e continuar vivendo...  O viver continuou até aqui, onde você foi transformada em lembrança e eu sou nova. Vou bem, bastante, reinventada de formas labirinticamente claras, embora ainda tentando entender se há outra maneira de ser plena que não envolva limitar-se. Conformada em amar o mistério e não estar jamais satisfeita, a alma aprende uma certa forma de ser sua própria, de si mesma, de ser ela, apenas ela, intransferível e no mais das vezes inexplicável. Os outros são cada vez mais os outros, as outras, enquanto entendo, com um certo esforço impreciso, que sempre serão os outros, as outras. Amar segue constantemente adquirindo novas roupagens que, quanto mais atualizadas, mais significam estar nua. O emaranhado de palavras e sentimentos é meu jeito de ser.