"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
30 de março de 2015
A sombra da sua forma, na curva escura da memória, é uma provocação irresistível. O mistério das suas horas é fonte de ilusão e do despertar da consciência irresponsável das minhas vontades vãs. Sou feita também de imaginação. Gosto, por ser, do desenho de desejos e confusões corporais maravilhosas, descomprometidas com o meu projeto de vida. Sou, dentre tudo isso, desejos de ser, brincadeiras de estar, vontades de novidades e de perigos mil. Riscos de vaidade, prazer de solidão no mar vasto do meu voluntarismo. Desejos à toa, para passar a hora da criatividade, para encontrar a volição da caneta, para ser, pode-se pensar, sem estar sendo... mas estar sendo por não pensar em ser. O caminho do ônibus, o chute de uma pedra na calçada, uma pessoa parecida, ou completamente diferente, uma chuva fora de hora ou muito menos que isso são convites de lirismo, com as personagens de sempre, para atiçar o ócio e os sentidos.
9 de dezembro de 2014
3 de dezembro de 2014
O amor me aconselha as maiores loucuras que sinto. Aconselha-me a visão mais nítida por cima da crista magnífica da onda da felicidade. Ousa-me a usar-me feliz, inteira, aventureira e louca, boba, envolvida em envolver-se ao redor da lua brilhante e solta, em meio aos teus versos ocasionais, às ocasiões reais, as lombadas mais gentis que a vida poderia se deixar dar. Sempre em majestosa forma, alterosa hora a de te ter em paz.
10 de novembro de 2014
Suspense nas águas do mar. Bóia subaquática a alga discreta; não flutua, mas bóia. Aguarda a indecisão do oceano; fecha os olhos a dominar a ausência de luz. Espera. Ofusca a expectativa necessária, será que algo virá? Vem a onda, como as outras, a questionar o espaço em si e a essência do movimento: de que difere a onda da ondulação do mar? Passa um saco plástico. Ou será uma água viva? Passa. À espera, um ponto de luz clareia: alguma coisa ao fundo repercute o mistério do sol - deve estar no raso. O raso chega. A areia não decide com a água, não decide com a pedra, não decide com concha, não decide com a caravela quem vai e quem fica. Por fim, a caravela envolvida na alga muda o propósito da alga.
23 de setembro de 2014
Na verdade, enquanto a água cai, o ralo se delicia ao cheiro da pele esquecida. O balanço dos dias encharca de cidade o corpo inevitável - só há esse. A ir ao mercado, a caminhar, a fazer deveres, a olhar a noite, a aprender a lua, a almoçar... O almoço executivo faz que valoriza a rotina vulgar - o nome exagera a pompa. O garçon agrada por haver decorado o cliente, o cliente se agrada com o garçon costumeiro - parece rotina de gente fina. No banho o ralo exala saudade de um suor mais apurado, uma dúvida mais cruel. Caem cabelos de já terem sido usados, não de estarem velhos. Funciona assim sempre. Este texto fala mais que a lembrança que o ralo sente.
26 de agosto de 2014
O meu mistério, hoje, não é mistério, mas ansiedade. A minha introspecção é vazio, não é dúvida. A minha dúvida é mistério universal. A filosofia dos meus dias domina o silêncio das minhas palavras. Digo, amo, faço, e me enrolo. Enredo-me em um algo invisível e incansável, presente nas minhas desatenções, evidente como a espiã da esquina, sorrateiro bandido amalucado. Sugerem-se ideias sem mãe, medos nas inconstâncias, alternâncias na estabilidade. Estabelece-se a transição. O vento confunde a onda, que quando vai olha pra trás; não vê nada, já que o mar é ela mesma e o céu é a imensidão. Não sabe entender que se busca, quer amarrar-se na linha do horizonte.
Não vislumbra o entendimento de que a água é turva, não está suja.
Não vislumbra o entendimento de que a água é turva, não está suja.
2 de julho de 2014
Põe-se em cheque, vulgariza-se, questiona o pensamento e ridiculariza a própria intenção. Marcos não se deixa quieto. Vê o tempo como um menino que aprende a caminhar, e na longa espera de seus passos inventa mil e uma razões a mil e um problemas novos. Pensa. Pensa. Pensa. Pensa. De saber-se ser humano acha natural tanto pensar, e acostuma-se no vício. Ignora seus efeitos, suas consequências, ignora a própria mudança de comportamento diante do que ali ainda não está: imagina o menino que caminha cair e exaltado pelo susto fictício acaba fazendo-o trupicar. Nunca espera, nunca silencia, nunca aguarda o que há de estar, mas inseguro fantasia sem se deixar respirar.
26 de junho de 2014
escrevia, continuamente maria escrevia aquilo que as mãos sabiam que tinha a dizer. E o que dizia era assim:
Maria muito reflete invigilante, sobre nada. Suas sensações reveladas, entretanto, confundem seus sentidos a ponto de imaginar que tudo pensa e planeja sobre aquilo que vive. Aquilo que vive, entretanto, está vivido, e ela sabe, e sente, e sobre tudo isto se cala solene em sua busca de si e de nada e de nada mais. Espera, ansiosa, o momento em que a espera haverá de transformar-se em uma grande volúpia ardente sem sentido e sem muitas soluções. O que lhe acontece, entretanto, mesmo quando é isso que lhe acontece, é reservado em algum canto que, de tão reservado, escanteia. Tudo isso faz-lhe muito bem. Doutra maneira, maria acabou por encontrar um romance com o qual o descompasso tão grande é que, na perda do passo, perdeu foi o seu. Desta forma, desconfia-se enamorada e não enamorada, desconfia-se aberta e fechada, interessada e não por este forasteiro que com muitas flores floreia seu caminho e tudo o mais quanto deseja dizer-lhe e fazer-lhe, mesmo quando seu pedido resume-se a que ela troque o rolo de papel higiênico. Maria, interessada, interesseira, confunde-se na estampa florida do papel higiênico. Por vezes acha que é romance, por outras, paciência, noutras vezes imagina curiosidade e quando demais se estima, piedade. Armou-se, de desarmada estar, em buscar companhias desafiadoras. Isto porque acredita que apenas o contato há de provar-lhe as suas ansiedades amorosas e as suas ousadias sentimentais. Por isto, lançando-se ao desconhecido, desconfia dever arriscar-se inda mais, a des-saber suas intenções e desejos, a afundar-se em mergulho turbulento de não entender, quando na verdade muito percebe as lacunas dançarinas que se lhe apresentam ao longo dos dias. Não sabe, entretanto, como a elas encantar. Oferece-lhes o costumeiro do romance de uma noite, cerveja, cigarros, sentimentalidades exageradas em frases impactantes, contudo permanecem perenes as lacunas, muito embora se possam enamorar entre um sopro e outro em um dia mais ou menos vulnerável. Maria segue, com buscas muitas que não pode enxergar, e perde-se em tentar encontrar-se. Tendo passado tempo demais sozinha, está com medo de descobrir, tendo já descoberto, que precisa de mais. Longa e difícil busca.
Maria muito reflete invigilante, sobre nada. Suas sensações reveladas, entretanto, confundem seus sentidos a ponto de imaginar que tudo pensa e planeja sobre aquilo que vive. Aquilo que vive, entretanto, está vivido, e ela sabe, e sente, e sobre tudo isto se cala solene em sua busca de si e de nada e de nada mais. Espera, ansiosa, o momento em que a espera haverá de transformar-se em uma grande volúpia ardente sem sentido e sem muitas soluções. O que lhe acontece, entretanto, mesmo quando é isso que lhe acontece, é reservado em algum canto que, de tão reservado, escanteia. Tudo isso faz-lhe muito bem. Doutra maneira, maria acabou por encontrar um romance com o qual o descompasso tão grande é que, na perda do passo, perdeu foi o seu. Desta forma, desconfia-se enamorada e não enamorada, desconfia-se aberta e fechada, interessada e não por este forasteiro que com muitas flores floreia seu caminho e tudo o mais quanto deseja dizer-lhe e fazer-lhe, mesmo quando seu pedido resume-se a que ela troque o rolo de papel higiênico. Maria, interessada, interesseira, confunde-se na estampa florida do papel higiênico. Por vezes acha que é romance, por outras, paciência, noutras vezes imagina curiosidade e quando demais se estima, piedade. Armou-se, de desarmada estar, em buscar companhias desafiadoras. Isto porque acredita que apenas o contato há de provar-lhe as suas ansiedades amorosas e as suas ousadias sentimentais. Por isto, lançando-se ao desconhecido, desconfia dever arriscar-se inda mais, a des-saber suas intenções e desejos, a afundar-se em mergulho turbulento de não entender, quando na verdade muito percebe as lacunas dançarinas que se lhe apresentam ao longo dos dias. Não sabe, entretanto, como a elas encantar. Oferece-lhes o costumeiro do romance de uma noite, cerveja, cigarros, sentimentalidades exageradas em frases impactantes, contudo permanecem perenes as lacunas, muito embora se possam enamorar entre um sopro e outro em um dia mais ou menos vulnerável. Maria segue, com buscas muitas que não pode enxergar, e perde-se em tentar encontrar-se. Tendo passado tempo demais sozinha, está com medo de descobrir, tendo já descoberto, que precisa de mais. Longa e difícil busca.
16 de junho de 2014
A panela no fogo mexe-se um pouco mais. Um rebuliço a percorre impreciso, um movimento inquestionável embora perceptivelmente invisível. A água sabe, eu sei; a panela é cobaia das nossas intenções trocadas. Eu não quero o que a água quer, tampouco ela tem interesse no que desejo: a mim interessa o efeito das suas transformações, e a ela o acontecer da mudança. Ninguém se fala pois não há necessidade, o contato está selado na simbiose dos desejos.
Este café tem um cheiro de quem está satisfeito.
Este café tem um cheiro de quem está satisfeito.
Deitava em mim. Fazia-me de apoio para obrigar o meu corpo a lhe dar carinho, a lhe querer, a lhe sentir, e assim ia acontecendo enquanto eu cedia ao formato do seu corpo, ao peso da sua intenção, ao cheiro do seu desejo e ao crescer da minha vontade de deixar despreocupados os efeitos. Tudo está sob meu controle. Os cálculos ligeiros das minhas reações são automatismos da minha defesa desavisada de que não estou ameaçada. Ameaço-me eu mesma, de desconhecer o querer, muito pouco entender o querer, e de machucar o outro o meu desconhecimento de mim. Acontece que eles, que elas, têm mais pressa em chegar a mim do que eu tenho, e assim encontram-me nas pontes que construo para minha própria compreensão, as pontes que construo para chegar aonde apenas suspeito que estou, a indicação da minha sensação de onde quero estar. E ao encontrarem-me aprecio sua companhia curiosa, o seu desejo voluntário, a sua sede vulnerável, a ansiedade do seu querer. E estou também, flutuando nas minhas disposições, esticando os meus limites, voluntariando a minha vontade um centímetro a mais a troco das maravilhas do amor. Arregaça-me o bem querer. Invade-me a vontade ardente. Enquanto não ardo, provoco a mim e, com mais sucesso, a outras que estão, que permanecem, que me puxam para fora. Mas o corpo protege a alma. Ou será a alma quem protege o corpo, a negar-me a mim o desejo, o toque e a confiança no jeito sincero com que as partes de mim se sentem? O que será que está ali no lugar exato do não e do jeito seguro com que paro a caminhada, com que volto para casa, com que fala o meu silêncio? O mundo gira em uma inércia mais veloz do que a minha rapidez. Eu sou lenta e assim gosto, assim entendo o tempo que também se estica a me entender. Tocamo-nos o tempo e eu, nos últimos tempos, com tanta carícia e tanta afeição, com tanto respiro e com tanta disposição a estarmos juntos o quanto a vida seguir. Sigo o tempo que me segue. Segue o tempo em que eu sinto o meu tempo de sentir.
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