"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
16 de junho de 2014
Deitava em mim. Fazia-me de apoio para obrigar o meu corpo a lhe dar carinho, a lhe querer, a lhe sentir, e assim ia acontecendo enquanto eu cedia ao formato do seu corpo, ao peso da sua intenção, ao cheiro do seu desejo e ao crescer da minha vontade de deixar despreocupados os efeitos. Tudo está sob meu controle. Os cálculos ligeiros das minhas reações são automatismos da minha defesa desavisada de que não estou ameaçada. Ameaço-me eu mesma, de desconhecer o querer, muito pouco entender o querer, e de machucar o outro o meu desconhecimento de mim. Acontece que eles, que elas, têm mais pressa em chegar a mim do que eu tenho, e assim encontram-me nas pontes que construo para minha própria compreensão, as pontes que construo para chegar aonde apenas suspeito que estou, a indicação da minha sensação de onde quero estar. E ao encontrarem-me aprecio sua companhia curiosa, o seu desejo voluntário, a sua sede vulnerável, a ansiedade do seu querer. E estou também, flutuando nas minhas disposições, esticando os meus limites, voluntariando a minha vontade um centímetro a mais a troco das maravilhas do amor. Arregaça-me o bem querer. Invade-me a vontade ardente. Enquanto não ardo, provoco a mim e, com mais sucesso, a outras que estão, que permanecem, que me puxam para fora. Mas o corpo protege a alma. Ou será a alma quem protege o corpo, a negar-me a mim o desejo, o toque e a confiança no jeito sincero com que as partes de mim se sentem? O que será que está ali no lugar exato do não e do jeito seguro com que paro a caminhada, com que volto para casa, com que fala o meu silêncio? O mundo gira em uma inércia mais veloz do que a minha rapidez. Eu sou lenta e assim gosto, assim entendo o tempo que também se estica a me entender. Tocamo-nos o tempo e eu, nos últimos tempos, com tanta carícia e tanta afeição, com tanto respiro e com tanta disposição a estarmos juntos o quanto a vida seguir. Sigo o tempo que me segue. Segue o tempo em que eu sinto o meu tempo de sentir.
26 de maio de 2014
O tempo passa e tudo o mais fica. O violão sabe mais de mim, maliciosa serpente que carinho com os dedos, que melindrosa dos meus medos aos meus afobos inventa alguns sentimentalismos que durante a canção eu também acredito, às vezes perduram... Toco, toco, eu mesma não quero parar a reentrar no mesmo universo das coisas que ainda se dão, os receios que eu ainda tenho, os limites que eu ainda imponho, as paixões que ainda não conto e as mentiras que não me paro de dizer. Toco, muito, sem os amantes, sem clareza, sem a forma do desejo que, vazio, vadia... Me recomendam canções, me dão outros temas... não quero! Continuarei a paquerar esta existência invisível com quem travo o meu amor musical.
7 de maio de 2014
Com toda a simplicidade, a poesia da ausência te inventa. É o nada acontecer e o tudo sugerir-se nas nossas ideias de realidade que constrói o espaço total que vamos ocupando. Uma frase, um nada, o carinho abstrato de lembrares de mim ergue uma tarde inteira de poesias a tentar desbravar o agrado do seu coração, a tradução das minhas delicadezas, a dança dos carinhos que vou lhe dar, quando?, já dou, de expectativa em expectativa, nunca. O espaço imaterial entre nós já abusa da nossa distância, distrai-se dos nossos carinhos, e não quer mover-se para lugar nenhum.
2 de maio de 2014
A poesia não é suficiente para explicar o nosso desentendimento. É preciso não dar as voltas sentimentais que se dão por dentro, abreviar-lhe as expectativas das minhas buscas, reduzi-las, poupá-las à sua criatividade de sempre encontrar buracos nas minhas frestas. Vamos tirar este som de estórias musicais de outros romances, de buzinas angustiadas a empurrar a preocupação do futuro e da família ao interior da minha barriga faminta, a transformar os meus sonhos em pressas, os meus desejos em infantilidade, a minha seriedade em obrigação. A confundir o presente e os projetos, a fabricar a necessidade de ser outra coisa, a mentir toda a minha insensatez em imaturidade. O tempo que se faz necessário não é requinte, é condição.
1 de maio de 2014
A garfada fatal no tomate cereja denuncia os destinos que inventa à moça. A incompreensão de seus sentimentos o levou a um estágio semi-profissional de matador encomendado; a ausência de dinheiro fizera-o contratar-se a si mesmo. Escrevera cartas em que lhe explicava mais uma vez e de modo compenetrado as intenções do romance que nascera dentro de si, e que, sem a possibilidade de existir, pouco deixava de margem para uma vida saudável. Com os dias, adquiria vícios e leituras dos romances policiais, mudou roupas, esteve a fumar e a única coisa que não mudou foi o gosto pelo álcool. Não fez amigos, ainda que a rotina nos bares proporcionasse ocasionais descontos à vista de planejamentos caros de equipamentos do exterior. Por pouco e por distração da rua, não se tornou um lunático para a vizinhança, que também o havia conhecido em momentos mais punjantes. Deixara o cabelo crescer sem o notar e a contínua mudança dos hábitos e do visual começou a desagradar a opinião alheia. De tantos papéis juntados, planos metricamente demarcados, materiais orçados, escreveu este conto, mais nada.
30 de abril de 2014
O silêncio torna clara a distância entre as intenções. As conversas que se forçam de todo modo na rotina vão relevando a existência de dimensões diferentes, planetas distantes cujas pontes se tornam possíveis nos encontros do espaço-tempo, misterioso, incontrolável, imprevisível... À janela devo montar guarda?, a esperar o fenômeno marcante que me revelará o novo passo possível, a revelar aonde se amarrará a outra ponta da corda? À mesma visão do espaço sideral descoberto e reindescoberto encanta-se o meu mundo inteiro... Como concentrar a atenção em um só fenômeno, estando todas as possibilidades universais à espera da mesma porta espaço-temporal para as mais diversas dimensões... Apenas tempo, o que se põe no espaço inescapável de nós, pode descobrir, desatento, o melhor momento de sair de casa. Portanto deixo-me aqui ficar, a esperar o sopro da flauta a domesticar minha cobra, o encantamento invisível a conduzir minhas cordas, a fagulha rasteira a invadir meu rastilho.
28 de abril de 2014
O tempo alcança patamares inalcançáveis, nada havia planejado para esta fase do caminho. A descrença oca substitui o desejo tácito por quase tudo que se põe à minha frente, eu imagino novos voares, preciso escapar de tudo. Apenas a realidade constrói a realidade. Eu estou a costurar imensidões sem nada, a tinta e o papel seguem a sua fantasia desvairada de me inventar, e, sem mais amarras, acredito em tudo quanto vai parecendo suficientemente lúdico, razoavelmente duradouro, ligeiramente esquecível com suportável facilidade. A ilusão me constrói nos meus espaços vazios, e a cada novidade espaço-me imprevista.
18 de abril de 2014
Sob a tenda rondou algo inconsciente além da moça. Um rebuliço, um susto constante, a suspensão entre os pulmões: a comunidade reunida pairava sobre a confusão de gente. A moça não o olhava porque quando olhava, nada via, o amante desfigurava todo o resto da folia. De cá pra lá, daqui pra lá, toda a gente a todo canto, uma confusão de rostos, meias frases, conhecidos de passagem, que bagunça essa noite nas emoções de Lia! Não olhava, mas tampouco era como se fizesse que não via. Mas é mole, criativa, inventosa a cotovia.
9 de abril de 2014
Ao pé da montanha mesmo o sol mais forte é como a luz da geladeira. Interesso-me em contorná-la, curiosa dos arredores; o parceiro sugere outra coisa: quer escalá-la. A moça, conquanto por aí não iria, observa que o desbravar do alto tem a mesma raiz do desbravar dos lados: aquilo que não se conhece se está por conhecer. E pelo alto segue, conhecendo riscos que não era sua ideia conhecer, alcançando visões que não estava pronta para alcançar, fazendo esforços que não era a hora de fazer, escolhendo bifurcações frente às quais ainda não havia imaginado estar e para as quais a escolha do caminho era como a mesma escolha primeira de subir ou margear. E dando a continuidade da subida a mesma sensação de seus primeiros passos, quis parar. Sentada na pedra convidou-o a também refletir aonde já tinham chegado, o que já tinham conhecido e a possibilidade de descer e contornar o monte. Absorvera a experiência, aprendera as decisões, acumulara o conhecimento e com carinho propunha-o seguir por enquanto um novo destino: o conhecimento da montanha, conquanto não fosse assim tão vasto, transformava as primeiras escaladas em uma jornada se não fácil, nostálgica, caso o futuro os levasse a retomá-las.
Mas o moço tem certo o desejo de alcançar os 30 metros de altura; acredita que de lá a moça realmente verá a beleza da pintura. Convida, faz que sim, insiste na decisão; o tino pela aventura, o aproximar-se da lua, o carinho da atenção levam a moça para cima e renova-se a intenção. Mas caminhando mesmo sem pensar, a sensação já lá está: quantos vales, quantas árvores os arredores devem guardar? Quanta paisagem escondida, quanta lufada de vento imprevista, quanta nova possibilidade não se avista na volta que iria dar? Os passos deixam a marca da pesada passada e da escolha a vacilar; ela se inclina, olha o abismo e acha que é hora de retornar. Faz-lhe um novo plano bem marcado, para lhe dar segurança em descer e tentar novos achados, conta das formas mais encantadoras aquilo que ela mesma sonha encontrar, o que já ouviu dizer e que estarão ainda lado a lado para arriscar. Mas ele pestaneja, tem certeza do futuro que lá na frente vai encontrar. Enquanto ela fecha os olhos e revê o pé da montanha, relembra as possibilidades iniciais e as atuais estranha, a moça nota-se e percebe viva a escolha que ainda pode tomar, dá a ele a ponta de uma corda e lentamente desce a encosta, pela qual já desce circular.
Mas o moço tem certo o desejo de alcançar os 30 metros de altura; acredita que de lá a moça realmente verá a beleza da pintura. Convida, faz que sim, insiste na decisão; o tino pela aventura, o aproximar-se da lua, o carinho da atenção levam a moça para cima e renova-se a intenção. Mas caminhando mesmo sem pensar, a sensação já lá está: quantos vales, quantas árvores os arredores devem guardar? Quanta paisagem escondida, quanta lufada de vento imprevista, quanta nova possibilidade não se avista na volta que iria dar? Os passos deixam a marca da pesada passada e da escolha a vacilar; ela se inclina, olha o abismo e acha que é hora de retornar. Faz-lhe um novo plano bem marcado, para lhe dar segurança em descer e tentar novos achados, conta das formas mais encantadoras aquilo que ela mesma sonha encontrar, o que já ouviu dizer e que estarão ainda lado a lado para arriscar. Mas ele pestaneja, tem certeza do futuro que lá na frente vai encontrar. Enquanto ela fecha os olhos e revê o pé da montanha, relembra as possibilidades iniciais e as atuais estranha, a moça nota-se e percebe viva a escolha que ainda pode tomar, dá a ele a ponta de uma corda e lentamente desce a encosta, pela qual já desce circular.
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