13 de maio de 2013

Enquanto o tempo passa vazio, invento mil e uma coisas para não atrofiar a minha criatividade. Em geral, enamoro-me em cada esquina por uma semana, depois na outra, outro romance, a troco, como dito, de escrever. Escrevo, escrevo, escrevo, sobre mim e mais nada, esvaio meus desejos em letras, apenas porque a tensão que há dentro de mim há sempre, como um traço da juventude mesmo. Invento mil ideias não porque careça vivê-las agora, mas porque posso, porque não tenho o que me ocupar a sensação, e porque o que me ocupa a sensação é tão pessoal que mesmo eu não vejo motivo em descobrir, e por isso traduzo-me em imaginações...
Por um pouquinho a menos quase eu não cheguei a saber, que era tudo artifício do desejo! Preciso prestar atenção! Tenho em mim tantos deles, estou privilegiando aquele grupo que por tanto tempo reinou! Eis que é difícil dar-se corpo sem pensar em fazer as malícias sentimentais que só um romance permite. As putarias que só a entrega cotidiana revela em sua ousadia de querer sempre mais. É este erotismo despudorado e voraz, que quer engolir longos tragos de veneno, que me vira e desvira e me leva aos lugares mais perigosos que a minha mente inocente pode pensar...

5 de maio de 2013

imagino-a

de costas, abre a geladeira. Procura algo que não sabe, mas sabe que vai encontrar. Se inclina, eu estou logo atrás, do início da sala, sentada em uma poltrona fofa que não consegue ser agradável como a visão das suas pernas de fora de um short simples, sem botões nem zíperes, e tem uma camisa por cima que lhe cai quase na barra do calção. Dá a impressão que poderia estar só de calcinha. Mas eu sei, por força de algumas horas, que ali não há nada que lhe cubra o que quero. Levanto, sigo até lá, e o corpo dela pela frente está gelado gelado. Ponho as mãos pelo início das coxas, onde já não se sabe se ainda é quadril, ela faz que vai fechar a porta, mas é deslise do desejo. Ela bota a mão sobre um pote de comida, percebe que não é isso que quer; eu escorrego meu juízo coxa abaixo tão devagar, já começo a ficar tonta dela, que dá tempo de ela olhar mais o leite, viu que não é isso, a manteiga, também não; virei a curva sem outra solução, como se o calor ali não pudesse fazer outra coisa comigo, ela tentou fechar uma perna na outra, mas foi sem querer. Abriu logo, não conseguiu fechar a porta e com a garrafa d'água na mão, inclinou todo o corpo entre o V da porta aberta do refrigerador. Abraçou a porta com o lado do braço o bíceps, se segurando de besteira de mim que já a segurava, segurei mais e puxei o corpo antifrigorífico, ela veio, e veio vindo, veio vindo esbarrou em tudo em mim, bateu o corpo todo de maldade, encostou bunda, costas, joelhos, panturrilhas, calcanhar, lordose, pulmão, escápula, bateu a nuca e o pescoço dobrou até sua cabeça deitar no pé da minha orelha, que ela judiou. Depois de me lamber, meus dedos atravessavam sua pele, que ela me deu a noite toda.

4 de maio de 2013

Sobre a sincronia (logo, a sincronização)

Ao separarmos as camadas de áudio e vídeo na ilha de edição, dissociamos a sincronicidade da vida… Tudo enfim parece despregado, e podemos compreender que viver é conseguir acompanhar ao mesmo tempo o que se vive e o que se quer dizer.

26 de abril de 2013

É difícil não se deixar levar pelo som e por tudo o mais. O espaço vazio convida a nada embora lembre tudo. O meio do burburinho é o lugar ideal para o som em cinema: por isso permaneço esquecida entre os meus desejos e as minhas escolhas, entre o meu choque e a minha certeza. Ser maduro e não ser existe apenas como conceito. São ideias de duas disposições muito diferentes, sobre a outra, de fazer a parte errada. Dois erros muito diferentes de fazer disposição. Duas disposições muito diferentes de fazer dois erros, um.

24 de abril de 2013

Suspeito-a. Não posso senti-la sem pestanejar. Respeito-a, enquanto a rejeito, tentando não lhe respeitar. Perscruto seus movimentos, com a cuca em cada, com os olhos delimito o limite até onde pode ir. E toda essa minha postura mulheril de dominar me trai quando ela me olha resoluta desvendando meus vendavais, arriscando minha ferocidade, alinhando meu desagrado. Ela surge, eu urjo.
Seus braços longos e retos encompridam o espaço da sua beleza. Escura, seu contorno salta a distância entre o resto e ela. Ela, que só existe quando está, define o longo caminho do início das minhas pernas até o fim do prazer. Sobe em mim qualquer coisa por dentro de onde é inevitável. No meu centro, já fui atingida sem poder esquivar. Sua força dói a extremidade do meu corpo que lhe recusa como ao sol em Copacabana. Faço guarda-sol da minha franja, protegendo meus olhos da desistência eminente às suas maldades. Toda mulher bonita arregaça a segurança de um dia qualquer. Ela me deslisa pelas pálpebras, e a sua velocidade causa um efeito doppler tremendo, e a sua frequência, como não haveria de ser, é relativa. Relativa, toda ela, vai-me matar quando eu souber que à cama basta conquistá-la. Relativa, toda ela, a o quê?, ou a nada? Segura e não, ela se me avança, me desconfia, e desconfia desconfiar-se.

14 de abril de 2013

Longos espaços de verde conduzem a minha alma para o vazio. Nada acontece aqui dentro. Minha angústia revela uma paciência perdida, um equilíbrio esquecido, uma meditação partida. Não tenho caminhos para onde ir, e o longo abandono do relógio transforma as horas em mais. Tenho os olhos ultrassensíveis para a chuva que cai, e quando pensam que a antecipo é porque já a vejo há algum tempo. Nenhuma criatividade me busca. As horas que passo sozinha e sei esvaziar-me, ao contrário percebo-me inflar de branco. Buscar a paz interior sozinha é ostentar encontrá-la. Por isso me calo tanto, porque se não me ajudam a buscá-la, não revelarei os meus caminhos.

12 de abril de 2013

O dia acorda; a vida vai chegando perto de se levantar, e enquanto isso estica seus braços à distância das paredes, vai inchando o quarto, até que por esforço de sair ergue-se, passa pelo corredor e tromba. Chega à janela, seus olhos espreguiçam tudo de novo. Mais um dia para ser feliz.

4 de abril de 2013

Cai a noite nas minhas quatro paredes
Seus olhos iluminam a luz que de dia eu lhe dei
À noite você brilha, e sou eu
Sem jeito, não entendo sua partida,
Sua partida me partir e seu partir-me ser meu jeito
Os carros buzinam em mim, as faixas de pedestre me atravessam
Tanto trânsito no meu país enevoa a equação que me leva adiante