Espalhou-se um pânico pelo prédio de kits. Soava, pela noite, tambores repetidos, batidas em cadeia, uma melodia misteriosa, de um temor profundo, um terror profundo, o despertar de uma besta maquinista, maniqueísta, perversa, soturna e metálica. Sem rotina, como numa espreita maldita pelo inesperado e esquecido, gritava retumbante pelo céu seco.
As donas de casa conheciam aquele ritmo cadenciado, aquele compasso astuto, ardiloso. Eram as bestas noturnas atentas às crianças que comiam pouco no almoço e aos meninos que não emprestavam os brinquedos. As empregadas, mais sabidas, tinham melhor noção que aquilo era uma história urbana de tempos passados, às vezes da época da criação da cidade, quem realmente sabe, que guardavam os espíritos passados que deram o sangue pelo concreto. Os pais, capciosos, sabiam que os tiros vinham das perseguições noturnas, na diversão de uma valentia de um dia e alguns ledos enganos. As moças só pensavam nas batidas. ta ta ta ta hm hm hm hm hunf hunf hunf hunf - - - - t e s ã Os padres, porque havia, ouviam o reverbere do inferno, os batuques dos pecados, atraentes e proibidos. As crianças sabiam que eram raios de lugares estranhos, planetas, órbitas, código para os mais espertos. Mas, na verdade, o som que vinha do primeiro andar era uma máquina de escrever.
"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
3 de outubro de 2012
10 de setembro de 2012
de presunto e queijo
De alguma forma, envolveu-se de tal modo que passou a imaginar que pensar no outro, e procurar resolvê-lo, era pensar em si mesma. Tudo se misturou a tal ponto que nem o ovo, nem a galinha sabiam quem havia vindo antes - e a própria questão não se lhes apresentou. Assim, transformou todos os seus problemas em razões do outro, e todas as soluções pra o outro em óbvia saída para as principais questões de seu próprio cotidiano. Em transmutar seus problemas, encontrou no outro a culpa por todas as moléstias pelas quais passava, todos os testes, todas as provas e nunca nenhuma providência, dado que também não tinha nenhum Proventor, a não ser o acaso, que no entanto é um deus muito conveniente para quem acredita em alguma coisa que ninguém deu nome. Assim, seus testes pessoais eram pessoais no que dizia respeito às qualidades que buscava nutrir, e às elevações de seu espírito que certamente resultariam de ser capaz de lidar com tamanha dificuldade. A dificuldade, que cada vez mais, sorrateira e imperceptivelmente ganhava o nome, a feição, os cabelos do outro, ganhava também força, e dimensão imprevista, e todo elevamento de espírito não poderia alcançar sua altura. Então, de repente, absolutamente de repente, realmente como quando queima a lâmpada só porque a lâmpada queimou, percebeu-se. Descobriu que era imensamente diferente de suas causas, de várias consequências, de suas chateações, de seus incômodos, seus terríveis irremovíveis incômodos, e inclusive parou de questionar a verdadeira razão pela qual o limão era azedo. Ao observar-se, percebeu que há muito não se observava, e que embora fosse muito atenta para as próprias incongruências, chatices e azedumes, não se observava. Observou-se, e foi fazer mais um sanduíche.
28 de agosto de 2012
5 de junho de 2012
Recife
As casas e as ruas do Recife Antigo de Manuel Bandeira são para mim a foto de mamãe, papai, de minha irmã, alguns vídeos, a imagem de tia Célia comigo no colo, também as corujas do interior, os milharais, as cercas tão longes que a gente nem sabia como ou pra quê chegaram ali. A velocidade que chegava lenta (mas chegava), os escolares cheios de criança sem nome, quanto escolar! O Recife de Manuel foram as ruas dentro de mim, nenhuma que ficou por mais tempo, todas iam embora rapidinho, sem nunca ir.
a viagem de bike a São Jorge
Onde o vento bate a(`)s pernas, no meio do amplo, onde o horizonte sou eu, onde a estrada continua, onde o fim é qualquer um, conseqüencia do início, há um longo espaço para estar. Levar-se tem já um tom de felicidade muito próprio aos incomodados, e a bicicleta deixa o mundo ser seu também. Distante, muito distante da janela, do fresquinho interno sendo calor lá fora, do aquecimento do motor, dos-pos-tos-de-gasolina e por conseguinte dos oleodutos, passo marchas com os dedos, engato-as com panturrilhas e coxas e paro quando a paisagem é inevitável demais para deixá-la passar mesmo a dez por hora.
3 de junho de 2012
em muitos espaços, sob a fina da camada da mesa de trabalho, sob o assoalho que subindo parece ralo, sob muitos e muitos lugares que, imperceptíveis, percebo, aquece-se uma memória de outras idéias, sensações e carinhos, que sabem ler tapetes voadores, que se agarram ao tempo, como os panos molhados em florestas de bambu, como o vento, o tempo, o tempo que.. longura... estica a quentura. Quanta dúvida paira sob o céu, que me segue, que me segue, que me cegue, queime e cegue... quanto céu sobre nossas dúvidas
7 de março de 2012
27 de fevereiro de 2012
O Sol insiste em nascer antes de mim. Se pudesse, estaria à janela esperando, para cair no mar cedo!, e aproveitar a manhã para fazer das tardes algo diferente. Mas sozinho o tempo se repete, se repete, se repete, e a inventividade brinca com as milhares de possibilidades que se igualam na solidão.
6/1/2012
2 de fevereiro de 2012
como eu flutuo, em sonhos, entre os lixos espaciais, também aqui na terra esbarro em fragmentos de coisas que flutuam, e devem enviar informações, sabe-se a quem, ou lá aquém, onde não vejo, para um futuro místico, entre o eu e a realidade, entre meus sonhos e as minhas coragens, e especialmente entre o meu amor e a solidão e a dura realidade. tantas fábulas cujos animais não me dão bola, e permanecem mudos. preferia a minha loucura ser um segredo, ou um charme, uma dúvida, um erotismo, um risco, uma piscada, um atrativo dentre tantas facilidades. Ser assertivo arrasa quem tem dúvidas... E a minha mente confusa pouco se interessa pelas histórias escritas, tão certas, em que foram só aquilo, ou quase nada na minha imaginação atribulada de mim mesma. Tantas dúvidas colocadas diante a calma de ser e a possibilidade de ferir, tantos caminhos entre descansar e enlouquecer, tantas besteiras de preocupar-se. quantos caminhos não se perdem em não acenar? como é difícil prestar atenção à natureza de não prestar-se à atenção...
Assinar:
Postagens (Atom)