"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
5 de junho de 2012
Recife
As casas e as ruas do Recife Antigo de Manuel Bandeira são para mim a foto de mamãe, papai, de minha irmã, alguns vídeos, a imagem de tia Célia comigo no colo, também as corujas do interior, os milharais, as cercas tão longes que a gente nem sabia como ou pra quê chegaram ali. A velocidade que chegava lenta (mas chegava), os escolares cheios de criança sem nome, quanto escolar! O Recife de Manuel foram as ruas dentro de mim, nenhuma que ficou por mais tempo, todas iam embora rapidinho, sem nunca ir.
a viagem de bike a São Jorge
Onde o vento bate a(`)s pernas, no meio do amplo, onde o horizonte sou eu, onde a estrada continua, onde o fim é qualquer um, conseqüencia do início, há um longo espaço para estar. Levar-se tem já um tom de felicidade muito próprio aos incomodados, e a bicicleta deixa o mundo ser seu também. Distante, muito distante da janela, do fresquinho interno sendo calor lá fora, do aquecimento do motor, dos-pos-tos-de-gasolina e por conseguinte dos oleodutos, passo marchas com os dedos, engato-as com panturrilhas e coxas e paro quando a paisagem é inevitável demais para deixá-la passar mesmo a dez por hora.
3 de junho de 2012
em muitos espaços, sob a fina da camada da mesa de trabalho, sob o assoalho que subindo parece ralo, sob muitos e muitos lugares que, imperceptíveis, percebo, aquece-se uma memória de outras idéias, sensações e carinhos, que sabem ler tapetes voadores, que se agarram ao tempo, como os panos molhados em florestas de bambu, como o vento, o tempo, o tempo que.. longura... estica a quentura. Quanta dúvida paira sob o céu, que me segue, que me segue, que me cegue, queime e cegue... quanto céu sobre nossas dúvidas
7 de março de 2012
27 de fevereiro de 2012
O Sol insiste em nascer antes de mim. Se pudesse, estaria à janela esperando, para cair no mar cedo!, e aproveitar a manhã para fazer das tardes algo diferente. Mas sozinho o tempo se repete, se repete, se repete, e a inventividade brinca com as milhares de possibilidades que se igualam na solidão.
6/1/2012
2 de fevereiro de 2012
como eu flutuo, em sonhos, entre os lixos espaciais, também aqui na terra esbarro em fragmentos de coisas que flutuam, e devem enviar informações, sabe-se a quem, ou lá aquém, onde não vejo, para um futuro místico, entre o eu e a realidade, entre meus sonhos e as minhas coragens, e especialmente entre o meu amor e a solidão e a dura realidade. tantas fábulas cujos animais não me dão bola, e permanecem mudos. preferia a minha loucura ser um segredo, ou um charme, uma dúvida, um erotismo, um risco, uma piscada, um atrativo dentre tantas facilidades. Ser assertivo arrasa quem tem dúvidas... E a minha mente confusa pouco se interessa pelas histórias escritas, tão certas, em que foram só aquilo, ou quase nada na minha imaginação atribulada de mim mesma. Tantas dúvidas colocadas diante a calma de ser e a possibilidade de ferir, tantos caminhos entre descansar e enlouquecer, tantas besteiras de preocupar-se. quantos caminhos não se perdem em não acenar? como é difícil prestar atenção à natureza de não prestar-se à atenção...
2 de janeiro de 2012
a tristeza espreita a minha certeza altiva. ando pelas ruas sem medo do acaso. E o acaso, sem medo de mim, ainda que se aproxime armado, me cumprimenta antes de me desaforar. Eu caminho solta com um respeito incurvado ao invisível, como o deus que sou, pronta na minha inteireza de ser inescapável a mim mesma. a mim só me resta ser o que sou. não há nenhuma possibilidade externa a mim de me ser: só eu nas galáxias respondo o que respondo, só eu sinto o que sinto, só eu posso o que posso, e só eu amo como amo. Gabo-me aos céus a minha boa índole, a minha paz, o meu bem, os meus olhos e a força da minha vontade. Sigo como só eu poderia seguir. No fundo, em casa, quando choro, só eu sei a solução, só eu sei o porquê, e só eu posso construir o futuro. Para além disso, deifico o amor, e como é difícil alcançá-lo, envolvo-me em paquerá-lo até que ceda
(22/09/2011)
11 de dezembro de 2011
Curvo-me, muito além da linha do horizonte. Meu cheiro inebria os meus pensamentos de amor. Que saudade, Luiza! quanto tempo os seus hábitos..! quanto tempo o seu equilíbro. Ao longo dos alongamentos, uma sensação nova nos meus músculos antigos, tão sabidos, uma lembrança gostosa. Muita luta são inauguradas às marés dos aniversários. A lua parece uma benção quando tudo está fora de lugar: só ela existe de um tempo em que tinha sido mais tempo. Lavei as 24 horas muitas vezes; encolheu. E a realidade da sensação é na verdade o tempo de mim, que perco. Cada vez mais, mais atitudes requerem menos decisões, mais escolhas requerem menos escolhas, quanto mais queijo, menos queijo. No contrapasso, acumulo de assuntos, esqueço-os, sobe a maresia pelas pernas da minha memória. Por que seria preciso despertar quando todos dormem? Seguir em frente é sempre um desafio.
21 de novembro de 2011
não é da noite que tenho medo. tenho medo da solidão. sinto medo do que acontece quando o medo chega, sinto medo do silêncio. Tenho medo de mim, porque me sinto saudade, me crio expectativas. Sinto medo da diferença entre o silêncio de um só e o silêncio de dois. O medo é a falta de prática. O medo do medo é falta da meditação. Medo de ser feliz.
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