"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
11 de julho de 2011
7 de julho de 2011
Encontraram-se na rua, fazia algum tempo que não se viam. Soube por sem querer se ouvir saber e vir a dizer que tinha terminado o namoro. E daí então com uma banda larga de velocidade social, fez chegar até de volta ao primeiro que já tinha reatado o lance.
- E as coisas com o retorno do seu namoro, como estão?
- As coisas? ..estão.. devagar.. e umas sobre as outras
- sexo
18 de junho de 2011
12 de junho de 2011
Estando em casa
Entrou em casa, um silêncio macerado. Nenhum móvel falava. Atentos, acompanhavam por onde iria, onde tocaria e qual seriam suas primeiras palavras. Uma das almofadas achou que não ia suportar, mas quando ela passou da sala para a cozinha, conseguiu desprender o ar. Encarou, nervosa, o rack da tv que, complacente, a observava de costas, lenta, passar pela geladeira. Passou uma das mãos pela máquina de lavar, alisando a palma, como um carinho que viesse de repente. No quarto, a mesa, a cama, o armário, cúmplices, disputavam serem eles os protagonistas daquela dor. Silencioso, o armário se manteve impassivo, não olhava para lugar nenhum, permanecia estático, de cima a baixo, gelado e sem propósito. Algumas imagens esgueiravam-se pelas beiras, querendo voltar e observar o meu adeus, como eu sofria, se sentaria, deitaria, ou continuaria o trajeto até o banheiro sem propósito algum. Algumas pernas conseguiram chegar às beiradas, e me viram encarar a mesa e enxergar sem decisão o travesseiro verde. O ar condicionado se escondia atrás da cortina, reservado. Não queria uma palavra, nunca quis. Vivia sozinho e sofreria sozinho, cada um que se virasse ali com o próprio penar. Já o bicho de pelúcia, coitado, sofria, sem colo, desesperado, sua mudez já uma realidade insuportável, tantas coisas que poderiam ser ditas para o consolo do dono, ou simplesmente quem sabe aprender a fazer pipoca e se predispor a assistir filmes. A cama box pôs-se à disposição caso ela quisesse dormir ali dentro, prometeu que não a engoliria se não quisesse. O insufilme na janela pediu desculpas por ser espelho; a tranca, tão triste estava. As luzes da sanca ao redor do teto cochichavam entristecidas, altivas, espectadoras como sempre, tão atenciosas. O próprio ventilador sentia o peso de um ar inchado. Os peixes anti derrapantes no chão do banheiro pediram que ela confiasse em sua cor amarela. As calcinhas penduradas para secar eram avessas à situação. Não ofereciam apoio, não concordavam, e se esforçavam para fazer volume com sua discordância da tomada decisão. O travesseiro verde abriu os braços. Bondoso, recostou a cabeça sobre a sua, e fez carinhos na altura do queixo. Disse-lhe: oh, meu bem, sofra, resigne em mim a intransponível dificuldade de amar.
8 de junho de 2011
Era um altíssimo caminho entre o chão e o batente para vê-la pelada. Tinha certeza de onde estariam os peitos, a curvinha do lados da barriga, até a descida oferecida do caminho do corpo para a calcinha. Mas o problema é que tudo isso ficava detrás do batente. E o batente, alto, não tinha fim. Pôs quatro dedos. Mais quatro. Um músculo realmente forte que deveria ter nas mãos precisava ser acionado: o objetivo era concentrar energia e subir o peso todo por aqueles oito dedinhos. Não deu.
2 de junho de 2011
A manhã, lenta, abriu seus olhos contra mim. A máquina dava um ar nostálgico ao meu sono modorrento; havia passado duas horas negando que já queria acordar. A música tocava como resquício da minha leveza. Não faço às vezes caso de abrir os olhos direito. A linha entre preguiça e pessoalidade se confunde com a vontade de não ser.
10 de maio de 2011
O mundo é muito doido
O mundo é muito doido. A independência só é realmente conquistada quando você conquista um computador pessoal.
2 de maio de 2011
Os almoços têm sido todos esquisitos. Rápidos, o brócolis não se chama mais brócolis, o arroz não é mais arroz, tomate não atende pelo nome de tomate: tudo agora, indistintamente, se chama comida. Quando não, fome. A carne dá o ar da graça quando quer. As horas são todas uma loucura, do rachar do sol ao nascer da luz, ar condicionado. Respiro; junto, o mac. Sofrido, coitado, ainda sem tempo de ir à autorizada ver porque é mais difícil que os outros que conhece. Sinto estranhas dores nos olhos que são as primeiras de sua geração. Mantenho uma relação doentia com o celular, apesar de não lhe ter afeto quase algum. Penso em fones de ouvido, HDs externos, mas não sonho. Muito corrida, a criatividade faz piadas, em geral muito obscuras: seres sobrenaturais saídos de privadas e olhares através da porta - acha que esconde que está difícil. Pensar sem pensar estraga o dicionário.
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