"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
10 de maio de 2011
O mundo é muito doido
O mundo é muito doido. A independência só é realmente conquistada quando você conquista um computador pessoal.
2 de maio de 2011
Os almoços têm sido todos esquisitos. Rápidos, o brócolis não se chama mais brócolis, o arroz não é mais arroz, tomate não atende pelo nome de tomate: tudo agora, indistintamente, se chama comida. Quando não, fome. A carne dá o ar da graça quando quer. As horas são todas uma loucura, do rachar do sol ao nascer da luz, ar condicionado. Respiro; junto, o mac. Sofrido, coitado, ainda sem tempo de ir à autorizada ver porque é mais difícil que os outros que conhece. Sinto estranhas dores nos olhos que são as primeiras de sua geração. Mantenho uma relação doentia com o celular, apesar de não lhe ter afeto quase algum. Penso em fones de ouvido, HDs externos, mas não sonho. Muito corrida, a criatividade faz piadas, em geral muito obscuras: seres sobrenaturais saídos de privadas e olhares através da porta - acha que esconde que está difícil. Pensar sem pensar estraga o dicionário.
26 de abril de 2011
Lorena é mau, terminou comigo às vésperas do meu aniversário! Não, do dela. Não, do feriado do descobrimento. Não, da Páscoa; não, das férias do meio do ano; não, do dia de nossa senhora aparecida; não, da semana do saco cheio; não, do dia das bruxas; não, do dia de finados; não, do natal; não, da virada do ano; não, mas perto do carnaval Lorena não quis terminar, não. Lorena sempre terminava às vésperas. Outro dia não gozou. Depois fui logo especificando que eu quero que seja quando estou dentro. Lorena disse que sempre o que está fora é por falta de espaço.
13 de março de 2011
só pra saber
Não se preocupe, meu querido, a saia rosa e o conjunto de lingerie branca não jogarei fora. Três números do meu telefone estão quase apagados, e por mais que tenha a certeza de que são o três o quatro e o oito, pergunto-me sempre que o encaro se não podem ser outros. Essa colcha verde me confude os olhos, e também os quadros na parede não me dão mais certeza de que fui eu que os escolhi. Comprei um peixe para fazer no final de semana e a receita da internet pareceu estranha, pelo tino culinário que peguei de você acho que receitaram alcaparras, manteiga, azeite ou creme de leite de mais, mas não sei qual, quer dizer, não peguei tanto o tino assim, é difícil. Tenho uma pilha de papéis em grego, e eu não leio grego, me pergunto se são seus, mas têm o emblema da minha empresa, acho que já soube grego então. É que só a língua que tenho falado é basicamente a da Sessão da Tarde, mas ainda assim não compreendo as figuras que eles mostram, é como se fosse uma pretensão de Kandinsky culminando em Paulo Coelho, e daí me lembro daquela capa da Bruxa de Portobello com um dedo e um peito, e acho despropositado e antiestético. Encho garrafa de Matte com água agora, tenho toda uma coleção na geladeira e passei a comprar também o diet, por mais que não goste, para ampliar a variedade de rótulos. Enfim, estão batendo nove horas já, eu sei que você não costuma mais vir aqui, mas, onde você está?
27/06/2009
25 de fevereiro de 2011
Nada que poderia ter destino se destinou, e ficaram pernetas os caminhos que se pretendiam entre uma coisa e outra. Nada foi para mim, em nenhum lugar, e todos os corpos que tomaram lugar em meio ao desperdício de dia e noite tentaram se fazer presentes por uma ou duas temporadas sem importância. Em mim, pulsava qualquer coisa impossível e sem porquê, um amor que, travesti, era travestido, se transversalizava e, tendo transado, já não transava mais. As minhas pessoalidades se tornaram de tornado a um pequeno redemoinho de folhas, leve, brisante, desimportante, decepcionado, cansado, deselegante e deslocado. Todos os miúdos que não estavam em seus lugares não se erguiam nem abaixavam, eram pequenos autônomos zonzos em si mesmos, companheiros de longa data para longas datas. Meus rebuliços se abaixaram e o meu amor foi lentamente tomando o seu curso, para seu lugar de direito, à diferença de que agora jjá não existiam as suas coxas na coxia, nem suas coxas faziam mais diferença. À dureza da minha dupla personalidade, passamos, eu e eu mesma, a amar a mesma pessoa, e a sua pele desdatada suspendeu-se no branco que gostaria de ter. Não fomos, nem seremos, pela eternidade, o que poeticamente não foi. Não temos nome, não temos romance, e tampouco temos testemunhas, como havia de ser para o homem que em mim não nasceu. Todas as minhas paixões que teriam sido, se tivessem sido, não foram, nem agora guardam espaço na minha afetividade bem destinada. Tudo ruído se torna um desfoque de inexistência; todo ruído, nós dois, num só bolo de cabelo pertinho do ralo, com alguns nós de poeira molhada.Nenhuma nota finalística teve a importância de ser. Não chegamos ao memorando de perda, ao fim do amor, à dureza de qualquer coisa que deveria ser dureza. A despeito da nossa loucura, da perda de sanidade corporal, lembraram-nos constantemente dos nossos trejeitos, dos nossos traços, dos nossos músculos e do tipo de roupa íntima que usávamos. A despeito dos nossos dedos ágeis, das nossas temperaturas e de alguns choques, não houve temperatura, eletricidade ou estática. Nada houve entre o céu e a terra que não vamos esquecer. Nada houve para esquecer entre o céu e a terra, nem o céu, ou a terra, ouvem.
22/11/2010
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