"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
8 de julho de 2009
1234567890123456789012345678901234567890
Sinto sono e alguma dor despropositada nas costas (estou fingindo que não tenho mais problema de coluna, estou livre, e não ouvirei sobre cirurgias e afins). Meu olho arde e agora fingirei algum drama sobre perdê-lo, ou cegá-lo, e desenvolver habilidades variadas pela súbita cegueira aos vinte anos. No momento a preocupação iminente é somente terminar o último trabalho do semestre e- pera, meu olho caiu no teclado. além da terrível piada do boquete cantante de rebecca, me lembro que meu olho não está lubrificado o suficiente, e em fechando-o para forçá-lo a, não o sinto arder como de costume, e já acho que estou sem olho. estranho, essa frase terminou com "o" e por meu gênero ser feminino me pareceu que deveria terminar com "a". olha. não "ólha", "ôlha". me lembro que meu olho não está lubrificado o suficiente, e em fechando-o para forçá-lo a, não o sinto arder como de costume, e já acho que estou sem olha. deveria ali ser "de que meu olho...", mas ai, que cansaço. esquecendo doutor pascoal e quebrando regras de português! era pascoal o nome dele? só me lembro do pardal do tio patinhas; odiava tio patinhas. aposto que marx também. argh, que dor, falta de sono, olho doloridérrimo, vou fechá-lo, me dá uma corda
7 de julho de 2009
Dona Dezinha,
nos rasga a consciência de dias curtos. suas pernas pequenas e a fragilidade dos joelhos que já tiveram a quantidade exata de pele, o crescimento vibrado a cada centímetro mais próximo da estatura de vó e do freezer, vó de repente te abraçando debaixo para cima, a compreensão da velhice, do tempo, os quadros de jesus, os anéis de camelô, perfumes, blusas, o não conhecer vô, os cabelos curtos e grisalhos, riso fraco, o chupar mangas, o sempre consertar a antena da tv, trancar o banheiro com a gaveta, escorregar no box e quebrar o braço, o ventilador de teto, comida baiana de guerra, o revertério aos sete anos, o sempre danoninho e yakult quando visitamos, essa risada sua, essa saudade sempre, esse conhecimento engraçado, ver crescer e não conhecer, ter sido pequena, ter sido moça, ter sido mulher, ter sido velha, não ter sido. ê, vó, vem sempre medo nessas horas, mas acho que a senhora tá tranquila
5 de julho de 2009
esperar não é saber
Ela acordou, e tinha um plano. Tomou banho e o engov pra completar o ciclo da noite anterior, e entrou no quarto como quem nunca mais vai sair. Sete passos à penteadeira, a lingerie de renda da semana retrasada, uma saia curta escura, o salto preto, a única blusa possível e duas gotas de perfume ao redor do pescoço. Sentou em frente ao espelho com o velho ritual de conquistar-se antes de sair, e, ainda que hoje especialmente não tivesse conseguido, quando saiu ainda tinha a convicção do sucesso. Foi a um bar que não tinha ido e conheceu qualquer homem que não tinha conhecido. Deu-lhe o corpo e a falsa impressão do desejo, além da sífilis, é claro, e a possibilidade de um filho que não viria. Depois jogou-se da ponte de ponta sobre o rio, mas a corda não era grande o suficiente para que seus pés tocassem a água, só para que o pescoço quebrasse.
4 de julho de 2009
que cansaço
sou sua noite sou seu quarto se você quiser dormir eu me despeço eu em pedaços como um silêncio ao contrário enquanto espero escrevo uns versos depois rasgo sou seu fado sou seu bardo se você quiser ouvir o seu eunuco o seu soprano um seu arauto eu sou o sol da sua noite em claro um rádio eu sou pelo avesso sua pele o seu casaco se você vai sair o seu asfalto se você vai sair eu chovo sobre o seu cabelo pelo seu itinerário sou eu o sou paradeiro em uns versos que eu escrevo depois rasgo e depois rasgo
Adriana Calcanhoto - Uns Versos
27 de junho de 2009
1 5 10 25 50 e 1.00
Sentia como que um tilintar ruidoso de moedas inexistentes no bolso. Mais fundo que o precipício remoto de que ouvira falar no filme da semana passada, seu bolso era como que uma criatura à parte, quase vaga e imprecisa, como que furta-cor, incerta, impetuosa, voluntariosa, distante. Mas é que, apesar de todas as tentativas de trocar de calça, com pesar resolveu admitir que o bolso, na realidade, ficava na própria pele. Era uma entrada estranha e sorrateira, ainda que curiosamente visível e por assim dizer pesada, mas era que no fim das contas não tinha zíper, mas tinha o rasgo e a rispidez dos lugares que guardam coisas. Via as beiradas por vezes com nojo e repulsa, aquela boca rasgada de dentes desajustados - é que não havia fecho mas a estrutura do fechecler aparecia sanguinária e ameaçadora de tempos em tempos. De qualquer das formas, assustava-se vez ou outra com a disposição do bolso, e sempre, nesse momento, havia nas redondezas algum espelho, e olhava com completo estranhamento para a imagem enantiomorfa, e achava dela só isso, enantiomorfa, quase nunca reflexo, ignorando que uma é outra. Sentou-se num banco, cansada, e pôs a mão pela pele, ultrapassou o corte de entrada e invadiu o conteúdo macilento e mole do escuro do bolso. Sentiu chaves, achou estranho, sentiu cadeiras, cardápios, centelhas e videntes, e quando tocou o que pensou ser a lâmina de uma guilhotina, tirou a mão com rapidez para olhar o corte fino que fazia diagonal na ponta do dedo. Achou engraçado, meio tenebroso, e chupou A negativo de volta. Sentiu umedecer carne e veias quando repôs a mão cortada no bolso da pele, e com uma curiosidade científica e animalesca brincou com uma veia entre o indicador e o polegar. Era como se sentisse sangue com sangue, mas não sentia. Achou então pontas, alçapões, corações de mãe arpões sereias e serpentes, e alguns dentes de leite que achara já ter perdido. Tirou a mão, coçou a coceira repentina que lhe acometeu logo abaixo do rádio e recostou-se na cadeira. Achou estranho, o redor, si mesma, o bolso e a existência de todo um resto; sentiu o peso dos seios, sentiu apontar-lhe o joelho, perdeu um fio de cabelo que só sairia no banho, dali a duas horas, e pensou se não seria próprio então cochilar, mas não cochilou.
24 de junho de 2009
Ceratocone mata
Eu tinha uma faca e nenhum fio. Ela com o salto agulha empunhado tinha mais, e ainda no que mexia era a unha quebrada da mão, ameaçando-me terrivelmente especialmente por não me ameaçar. Olhei a sola do salto: mínima, incisiva. Cutucava-me à distância de cinco metros, apertava-me o pescoço com a ferocidade delicada das sobriedades femininas. Girei o anel do anelar. Me incomodava. Era como se . Empunhei a faca mais uma vez, e mais uma vez, passando-a discreta pelos dedos, senti a ausência de corte que me atormentava. Ergueu o pescoço. Olhou para a televisão desligada com uma pausa, e deve ter sentido no ar qualquer coisa que não o cheiro da comida que deixei no forno. Mas era, quase queimava. Comi só, ela ainda mexendo em partes do corpo aritmeticamente perfeitas para que de fato encontrasse algo com que se ocupar nelas. Olhei para a faca. Soava verde e meio manguezada, meio enlameada e triste, como que inútil e rota, e era. Joguei-a no chão com o movimento do cotovelo, desgostoso de vê-la e precisá-la. Ela levantou. Seca e breve pegou-a do chão, empunhou-a com o sorriso de um churrasqueiro aposentado e sentou-se no braço do sofá para conversar comigo. Contou de algumas épocas que não conheci e de sofás floridos da sala de sua mãe. Disse do dia tediosamente cômico no trabalho - e pensei se não queria ser Allen; não Lilly, como eu prevera, mas Woody - e por fim que as batatas ficariam melhores se cortadas na diagonal. Enfiou a faca na junção do meu pescoço e pronto: adeus jantar, batatas, salto, fio, zip.
19 de junho de 2009
matem Vênus
Dormindo agora, que pensarei amanhã? O zunido do secador alheio ainda perfura meus tímpanos e o que resta de consciência, ainda que já tenha sido desligado. Todos esses hormônios femininos também me detonam, e agora reparo como sinto absurda falta de unidades masculinas. É isso. Não suporto mais elas, todas elas, em todos os lugares e saias e carros e ônibus e paradas e faixas e andaimes e janelas e aventais e cadeiras e mesas e espelhos e quadros e louças e aviões e pilotis e vozes finas desajustadas e sensíveis. NÃO-AGÜENTO-MAIS-FEMINILIDADE. Gosto das feras e essas mulheres que não dormem, essas mulheres que são só ser humano. E dos homens, como sinto falta. De seus cheiros, braços, pernas e ombros, sinto saudades dos seus ombros e sinto falta desses olhares que também consideram te comer além de simplesmente conversarem com você. Sinto cansaço da ausência de interesse, muita ausência de interesse e muitos movimentos repetidos e sem gestos, muito movimento para não se ver e o desejo de uma presença que não vem. Cansaço que amanhã é imprevisto, e que vou dormir cansada do cansaço de não saber do dia seguinte.
Quero ver filmes rudes e sangue e violência e uma série de desgastes e coisas desnecessárias. Quero só comer pipoca e descansar dessa espera de algo.
6 de junho de 2009
cortejo sem classe e partilhas hilárias
- o presente que a gente vai dar é da mesma natureza, mas eu sei fazer com um coisas que você não sabe com o seu. -oxe, vai achando... -vem nãão, meu beeem, que eu sei da sua vida!
bergman num despertador
Sei não, mas tinha gosto de sangue o quarto, e o amarelo forte despropositadamente cansava as retinas, e estuprava o ar de vinho tinto.
Assinar:
Postagens (Atom)