"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
13 de agosto de 2008
(22/07/08)
Eu preferiria então morrer só(pausa.) a morrer aos poucos contigo(pausa leve.) , matando-te.
5 de agosto de 2008
segurando as pontas sem desfazer o laço
você faz horrores de diferença. não é bom saber disso? pra mim, eu digo, eu pergunto, quer dizer, porque te vejo muito e convivo e te ouço e te procuro entender e te procuro instigar a querer ser entendida e a acreditar na possibilidade do entendimento. e então de repente te ver e não te ter acesso, o acesso desejado, pode matar com uma facilidade interessante e constante, mas também há o intuito, seu e meu, de fazer disso menos frequente, eu acho, esses encontros que não são encontros, são só visões um do outro. e então descobrir-me descobrindo respeitar você e seus momentos e entender que nem tudo pode ou deve ser entendido e respeitar seu espaço e respeitar seu não se esforçar simplesmente por um cansaço físico e mental e emocional que não necessariamente é relacionado à pessoa que eu sou, mas pode ser, e, sendo, também deveria eu entender, e entendo. e respeitar então seus muxoxos insatisfeitos de cansaço de rotina, de simples cansaço e aceitar que não seja sorriso, seja um escolho entre o triste, o cansado, o decepcionado e o que se prepara para algo pior, e ver essa zica ao redor do seu dia a dia e suas mãos que contam tanto de você quando você dirige impaciente com a vida. tudo isso, ver e entender e simplesmente poder ver e entender, ou respeitar sem entender, tudo isso é lindo e tão cansativamente interessante que por vezes não te gosto pelo simples fato de te gostar e te entender sempre que posso. que lindo também é quando não entendo e é simplesmente você e eu, diferentes e, e aqui o e tem sentido de mas além de e mesmo, uma ao lado da outra, por uma razão ou outra, mas enfim sem concordar em posições sobre assuntos e sem entender e uma vontade talvez de mudar a mente da outra, e várias vontades que por vezes também escondemos por receio de que as bases do relacionamente não sejam, ainda não estejam, quer dizer, assim tão fortes, e então se preparar, constantemente, treinar-se para, esquentar-se para uma luta futura que não resultará em sangue, crê-se, por mais que tenhamos cogitado clubes da luta em finais de semana ou simplesmente a existência desse clube. daí também, quando bate sobre mim a crença da sua não tentativa de algo, quer dizer, do não esforço, também penso em ver seu lado e seu cansaço e descorrelacioná-lo a algo que venha de mim, como um desgaste de vontade da minha presença ou das minhas posições, e também tenho visto sua decepção fortíssima com minha inexperiência porque isso nos leva a uma perda de tempo e a um desgaste de rodas e ligamentos, e também a um atrito de neurônio com neurônio que nem sequer se conversam, só se gastam. daí te entendo, mas não sei se você me entende, você só busca paciência no silêncio, e você não é paciente, mas você às vezes é silêncio, é tortura calada e reservada, e eu tentando invadir isso fico ainda piorando seu humor, e pondo-me à disposição também te canso por não simplesmente deixar que você viva sua vida sozinha, porque você sabe quando é o momento necessário de estar sozinha e quando outro corpo é necessário, e eu ainda não sei pra você, ainda não tenho certeza de quando é isso, mas saberei. também esse hormônios expostos dos nossos corpos femininos entram em choque porque é assim que funciona, e eu acho engraçado por mais que compreenda o fato de que procuramos não nos bater. somos muito cautelosas com nosso carinho e nossos bom dia, de tal forma que o silêncio é a melhor barreira entre um pulso e um rosto, e tem funcionado, e às vezes não gosto, mas o bem é superior. vai dormir, vai sim, vou dormir também, a preocupação não é tão grande que me tire o prazer do sono do qual tenho me privado há duas noites, e os olhos certamente se fecharão com rapidez e calma, porque não vou definhar de dor ou dúvida naquela cama verde de que tanto gosto pensando se há algo crucial em cheque ou se vem aí uma desistência de um dos lados de manter esse barco correndo. isso nem foi cogitado, que o barco parasse de correr, lógico que não, nem você pensou nisso, mas agora, porque estou escrevendo e me deixando levar de repente pareceu-me natural a possibilidade disso, mas no nosso caso é uma impossibilidade, na verdade.
Acontece, Manuel
"Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor"
hoje os barulhos são confusão.
31 de julho de 2008
Jamais será possível ter tudo
Por vezes sinto muito pelos meus leitores que não me conhecem o fato de que alguns outros o fazem. Isso porque limito o que vou dizer pelo fato de me conhecerem e me verem dia seguinte e me quererem bem ou não, e saberem ou não o que anda dentro de mim. Isso me incomoda às vezes, hoje. Hoje não queria que meus conhecidos me lessem. Que me descobrissem, me sondassem, me revelassem. Hoje não. Hoje queria cantar para meus anônimos as tormentas insignificantes pelas quais passo, tão ridículas e medíocres, tão fazedoras do meu mundo. Quereria contar do mundo ao redor do meu umbigo sem pudores e amarras, sem amarras, sem laços e duplos sentidos. Queria usar nomes e dizer as impressões todas, sem dualidades e fingimentos. Não queria, no entanto, contar toda a história de tudo o que tenho a dizer. Gostaria de contar só o interessante e interessado, para fazer virar os ouvintes todos a meu favor. Não quero agora nada que não seja a meu favor. Não quero olhos que vejam o outro lado da história, ouvidos que ouçam o que não dei atenção, línguas que me revelem novas perspectivas, mãos que se deitem sobre as minhas pedindo que me acalme. Não quero. Hoje quero que me ouçam e me aplaudam e me digam que é mesmo melhor que eu mergulhe em mim e nas minhas vontades, que seja louca e inconsequente, e respeite o que quero por querer simplesmente porque nunca dou atenção suficiente ao que quero com os olhos vendados. Hoje quero que me aninhem os cabelos sem intenção sexual e que de repente me tomem pelo pescoço e me beijem por beijar, por ser eu ali, por beijarem a mim. Que me beijem sem amor, sem amor, nada de amor. Corpo. Que as coisas sejam preto no branco, preto no branco, e ninguém se sinta usado, ninguém deveria se sentir usado se no fim o tesão é mútuo. O amor tem um jeito todo seu de estragar o desejo até quando o aumenta. Queria sentar em mesa redonda, quase como uma escritora sendo entrevistada, uma pessoa bem vivida contando as sutilezas de suas pisadas, pessoalidades, mentiras, verdades, tanto faz, contar algo, ser perguntada, ter o que dizer mesmo que não se tenha ido a lugar nenhum além do espaço que de tão imenso chega a ser ridículo entre uma ponta e outra do cérebro. Queria morrer. Nos braços de um desesperado e terminar com um sorriso, a nota final egoísta de quem soube viver sozinho e arrastar atrás de si rostos que se acham belos e que perpetuarão sua (falsa) beleza. A propaganda boca-a-boca é uma desgraça, é uma praga. Queria não esconder o rosto por conta das pessoas que me querem melhor que as outras que não me conhecem e só me parasitam, coisa linda as pessoas que me parasitam, egoismo lindo de observar de longe confusões alheias e achá-las belas, ou não, mas achá-las, procurá-las. Queria contar com detalhes minhas podridões de alma, meus mais feios e corruptos sentimentos, minha mais sincera vontade de perpetuação de condições vis, meu chicote que me maltrata e que, no entanto, não jogo fora. Meu desejo, meu tão inflamado desejo pelo que não me quer, nem me conhece, pelo que não conheço e talvez também por isso queira. Meu desejo que me arrasta tanto pelos cabelos, e minha felicidade escrava de eles não desgrudarem da cabeça com tanta facilidade. Minha tortura medieval, consciente e dilaceradora, meus dias secos, cascas de árvore de cerrado, onde moro, esses troncos retorcidos, meu tronco retorcido, minha visão retorcida, meu desejo retorcido. Meu extremismo tão extremado, a beleza e a feiúra dele, meu amor errado, pelo que me ama em medida diferente, em auto-estradas diferentes. Minha não possibilidade de cumprimento de expectativas, essas expectativas cruéis e desalmadas. O amor cruel e desalmado. Meu amor; meu amor rouco, sincero e louco, que pede tempo por precisar, e dá desculpas comuns que ainda se fossem desculpas seria melhor, mas são verdades. Verdades comuns. Verdades comuns. Cara de desculpa e coração vil. Coração duas caras. Duas caras e a necessidade da escolha de uma. A demora da escolha de uma. A loucura que só a demora causa. A tranquilidade que só o desespero traz. A reviravolta imprevisível que só o desespero traz. O desespero traz e é trazido. Minhas unhas sem esmalte, minhas unhas nas cordas, minhas unhas nas coxas, minhas unhas nas costas. Pele e curvas. Olhos fechados fingidos e abertos em êxtase. Saber ser vista vendo o outro. Querer ser vista vendo o outro e o prazer de fechar os olhos e poder morder. Poder morder. Ter o ombro mordido, tão lindamente mordido, achar linda a dor, linda a dor, linda, linda, pernas fantásticas e bunda desejável e desejada, muito desejada, abraço dentro do casaco, blusa social larga, cabeça perfeitamente encaixada na curva do pescoço, mão estirada grudada na perna, louca, e o pescoço que morre na perfeição do encaixe, abraços por trás, 'dou dois', refreio do desejo, ligeiramente mais baixa, incertezas, golpes no escuro, beleza do escuro, procura de oportunidade, breves certezas de que da outra via também vem carro, da outra via vem carro, 'há pessoas pelas quais me sinto muito atraída', dizer isso duas vezes, olhar no olho, fica a dica, 'stay de dick', mainly stay the small dick no momento, muito stay the small dick no momento, ligar-se na tomada com uma facilidade incrível, linda e incrível e de fato muito veloz, sensualidade, estilos de roupa, ser algo, mostrar-se, viver, querer, querer dois, esperar, poder esperar, amar, amar erroneamente a pessoa certa, amar erroneamente a pessoa errada, amar certo a pessoa errada, querer muito e desmedidamente, romantismo com quem não devia, atenção ao sexual, muita atenção ao sexual, sexo, sexo, sexo, sentir-se fora de lugar, sem jeito, sem querer estar ali, não querer estar ali, querer estar ali, querer que estejam ali, querer, querer, entrar no banheiro, querer, conhecer, gostar, sentir, sorrir, abrir olhos, sair, estratégias temporais, sorrisos abertos, abrir portas, não fechá-las, explorá-las, explorar-se, não encontrar-se, encontrar-se, assustar-se, legitimar-se, amar-se, amar-se no ódio, na saúde e na doença, refutar religiões, sentir-se oprimida, padres e pastores de mãos dadas louvando com o povo, sentir-se oprimida, sentir-se muito oprimida, precisar de comprimidos, comprimidos em formato de corpo e com nome de gente, sentir falta, sentir muita falta, confundir mentes simples com expressões de posição e sentimento, como há mentes simples, seu mundo não é o mundo, amar muito, querer muito, querer um só quando o artigo é masculino, só poder ser um se o artigo for masculino, ligar, mandar mensagem, sentir falta, gostar muito, gostar horrores, amar, querer perto, querer muito perto, também dentro, já estar dentro, querer dentro, sentir sua pele, ver o sorriso depois de algo, lembrar da respiração enlouquecida e da nítida necessidade de refreamento quando da descoberta de covinhas de costas, um pouco de medo, precisar ir ao médico, minhas pessoalidades, necessidade de respeito, necessidade de espaço, necessidade de começo de semestre, necessidade de presenças e desenvolvimento de relações interpessoais várias,,,. Todas essas coisas que tento mostrar, só que sem máscara.
30 de julho de 2008
23 de julho de 2008
Um papel não é um canteiro
Não há propósito, nessa vida, em escrever coisas felizes. Não há propósito em colocar flores em papel, flores jamais são tão bonitas fora da terra. Não há propósito em amar na folha, há só propósito em amar a folha, o eterno incesto de amar a folha. É por isso que não escrevo coisas bonitas. Escrever bonito não é libertação. Escrever bonito não me faz chorar, nem me faz renascer, nem me faz amar. Escrever bonito me enoja. É quando então vomito que resolvo ir ao papel. É quando me acho de uma feiúra tão intensa que me levam para de frente do papel, e me amarram a mão em qualquer coisa que risque e me deixam para morrer no branco. E então canto, e choro e choro mais que canto, pois que só canto no fim do choro, e o fim é sempre breve. O fim não sacia. O fim não sacia nem as tristezas, nem as felicidades, o fim é uma invenção para que exista um começo, mas não há começo senão o trauma inicial e esquecido de nascer. E é bom que eu tenha esquecido o trauma de nascer - ainda que não o quisesse - pois que assim tenho toda a memória para gravar na retina o trauma de viver. E que trauma, que trauma! e é pena que não posso morrer nesse eterno êxtase de viver, é pena que não posso, e não posso pelos outros. Por vezes, muita vezes, quase todas, gostaria que não me quisessem como sou, que não me quisessem assim, para que pudesse renascer sempre que conveniente, para que pudesse de repente querer morrer e desistir quando desse-me preguiça de fazer o nó da forca. Queria que não me estimassem, nem me quisessem por perto, nem me tivessem apreço para que eu pudesse ser como os perdidos no mundo, os únicos achados. Gostaria de morrer no êxtase eterno de se viver livre. Mas também, aos poucos, não acho que eu queira ser livre assim. Assim, de tal forma que não me queiram, nem me apreciem, nem me queiram por perto, nem me queiram matar. Quero mesmo é fazer o que quero, e poder ser paradoxal, mas se fazer o que quero é condicionado pelo que sou e pelo que fizeram de mim, não sou então livre. Não sou livre, nunca fui, nem serei. Dirão por mim, depois que os vermes fizerem festa em minha carne, o que fui. Definirão-me de acordo com seus bel prazeres, com seus fetiches e suas memórias dúbias. Recriarão-me da terra, mas não me farão podre. Estarei já osso, mas farão-me recheada e altiva, bonita como seus quadros preferidos, e aposto que são Monets, e gosto de Munch. Farão-me tão bela que, debaixo da terra, terei nojo e não quererei jamais deixar o subsolo. Estarei ali esperando que venha algum pobre amigo solitário e se sente sobre meu travesseiro de pedra e ria, ria muito, ria gostoso, toque algum rock no violão e brinde com uísque. E depois deixe que venha uma passeata chorar sobre minha casa e crer na minha santidade. Enunciarão versos tão puros que tentarei fechar os ouvidos, e discutirão inscrever "Foi poeta, sonhou e amou na vida" em meu quadro negro. Não me conheceram, não me conhecerão, e me chamarão de amor e companheira e querida e eterna, sem saber que quero dormir para não acordar e que não quero sequer lembrar quem são. E quererão, como já disse, escrever coisas bonitas. Então digo agora que escrever coisas bonitas não tem propósito. Não há porquê humilhar aos outros com nossa felicidade tão radiante que não nos foi possível mantê-la em nós: foi necessário soar trombetas e soltar serpentinas. É certo que por horas isso é bem necessário, mas só o digo por obrigação de expiar futuros pecados. Escrever floreios é mera humilhação em praça pública dos corações desgastados. Ninguém precisa ler beldades. Ninguém precisa de um dia feliz para os outros a não ser que o outro tenha nome e viva perto e seja querido, e ser querido, argh, consegue ser um inferno. Jamais escrevi para alguém querido. Escrevi já sobre queridos, mas jamais para eles. Escrevi, sim, para mim e por mim, pela necessidade de cuspir feiúras que por hora pareceram belas - as feiúras têm essa mania de se mostrarem belas para os outros. Escrevi porque parecia o peito um antro repleto por demais de mim, e então quis sujar também os outros, sabendo que hora ou outra seria tida como bonita. Então quero logo deixar claro que se em tempo virem qualquer coisa colorida - que não seja de vermelho -, perdoem minha humanidade de querer humilhar as almas em dias tristes e torçam, se parecer melhor, que logo esteja humana em demasia, e possa então cuspir feiúras em paz.
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