2 de setembro de 2026

Às vezes, no escuro, mesmo em plena luz do dia, correm ao meu redor as crianças da criatividade e se vão tão rápidas quanto vieram, deixando como que uma sombra de prazer, a sugestão fugidia de um caminho, a impressão de uma ascensão a lugar nenhum, mas a aqui mesmo, como um outro mundo na curva proximíssima de outro elétron, de outro fóton, de outra de mim. Nesse sopro de vida sopra a mesma vida que o agora, apenas ligeiramente diferente e completamente outra. Sopra um sussurro de nada, onde tudo está contido. Tenho a suave impressão de que era possível agarrar esse instante criativo, essa fagulha, mas parece, em muitos dias, que é preciso a disposição certa, exata, de não prestar atenção, prestando, de não entender o sentido, entendendo, de não perceber, se deixando levar aqui ficando. E aí sim o mundo se abre dentro de mim ou eu dentro dele, e continuamos sendo o que somos, um-o-outro.

25 de agosto de 2026

Como é difícil saber o que dizer. Escrever nesse momento foge completamente ao controle da narrativa, da estética, da beleza, do tino artístico, do controle. Fujo ao controle. Intensamente. As mãos envolvem algo que se expande tanto pelos dedos que parece que a oprimimos mesmo ao tentar sustentá-la. Uma enorme força de dentro para fora se impõe avassaladora e parece que nem sou eu quem escolho as palavras, elas vem, vão, ficam, insistem, rasgam todo o assoalho bem envernizado sobre o qual tenho pretendido caminhar, o qual tenho mantido. De repente questiona-se tudo, como numa profusão de raios em todas as direções, como infantil que somos, incontroláveis, muito mais imprevisíveis do que julgávamos aos quatorze anos, muito mais próximos aos contos que líamos e pareciam hipérbole de sentimento, lirismo, exagero, exaltação. Viver é essa exaltação, esse arroubo, esse susto, esse espanto. Por que estratégia mental conseguirei me convencer a desver? E agora, que é chegado o momento em que não quero me convencer? Em que não quero desver? Não recusar, não lutar contra, não negar, não caber. E agora? É tudo ao mesmo tempo possibilidade e ilusão, explosão e escorrimento, sublimação e vento. E agora? Agora nada. Agora tempo, agora espaço. Agora. Sem ontem, sem amanhã. Agora. [12/11/2025]

10 de agosto de 2026

Não adianta mais investigar os rabiscos, vasculhar as suas fotos na surdina das minhas madrugadas, no canto dos meus olhos, nas esquinas do desejo. Não adianta mais reunir o conjunto da sua obra, as suas referências, estimar os seus sonhos, os seus anseios, os seus sentidos. Não adianta mais fabular os encontros, as palavras, os olhares. Não adianta esperar o toque. Não adianta imaginar as correspondências. Muito tempo passa. Confundo a minha coragem, que não vem, com as frases estimulantes dos horóscopos mais ousados, das previsões mais confiantes, dos espetáculos celestes mais raros e impactantes. Mas na terra vago por aí, atordoada de sentimentos, amassada de vontades, embaralhada de destinos, rasgada de fraqueza, desconfiança e incapacidades. Exagero o tom, tanto da solidão quanto da fé. Rascunho outras versões de mim, pra que ao menos no texto eu possa alcançá-las. Mas no mais... aqui estou.

23 de julho de 2026

Quando chego aqui, esta noite, sei que não caminhei a lugar algum, mas tive as portas abertas por um vento qualquer, ou pela extrema fixidez do mundo, de onde nada vinha me encontrar. Quando vem assim a noite, sei que basta escrever com os dedos, sem a mente, pois eles vão dizer o que eu tento esconder. Sei que posso aos olhos deixar embotar, embaçar, embaralhar, pois em mim as palavras se ordenam por si, como amigas, como amantes, a se encontrarem através de mim. E eu testemunho esse bailado simples e lindo e lúdico de ser eu sem intermediações, sem crenças, sem sentimentos, só comigo sendo, sem ser vista por mim sendo. As horas se entrelaçam no momento fugaz em que a testa é a mente e a mente é a testa, em que o desejo sou eu e eu sou o desejo e ninguém mais está errado apenas por sentir, por desejar, por afoguear. Mas eu, voltando lentamente, vou pondo defeito em tudo.

28 de maio de 2026

Sinto um tictac respirando no meu pescoço. Não tenho como esquecer o tempo que passa. A cada hora, resgato das alturas o meu pensamento, que viaja à minha frente dificultando minha atenção plena. É um fato que ela não está toda no mesmo lugar. Vaga, desbravadora de caminhos, inventora de possibilidades, menina risonha que pula poças d'água e quanto mais a espalha, mais se entretém. Parece criança a correr entre os bancos da igreja, gritando com emoção e sem freios a cada imaginação criada, saracoteando entre as pessoas obedientes e achando graça. Nesse meu estado, nem refreio a menina, apenas olho com emoção, mas ainda disfarço que me pertence. Espero até acabar o culto, e lá fora a resgato jogando pão aos pombos tentando acertar-lhes a cabeça. Aí sim eu rio, folgazã, de costas para a instituição, embora na soleira da porta a deixá-la. É o máximo que consigo segurar de mim. Aí, vendo a festa com os pombos, corro a agarrá-la pelas costas e pernas e a ergo até beijar a barriga infantil que se contrai em risadas. Ela sabe que sou eu e nem sei como me esperou até agora, com tanta coisa mais interessante a fazer. Mas felizes voltamos de mãos dadas para casa rindo de tudo e de todos, comentando vitrines, subindo e descendo o meio-fio, apontando passarinhos nas linhas suspensas e nos voos rasantes, inventando histórias para cada janela e afazeres para cada passante. Ela só dorme de cansaço, e sou eu quem lhe ergue as cobertas.

15 de maio de 2026

Quando abri o presente e li a dedicatória... nem sei dizer se sei dizer. Dizia (ou assim eu li):

Não consigo esquecer você, embora não tenha nada para lembrar. Não vivemos no corpo ainda tudo o que vivi na mente. Mas também não posso dizer que você habita uma área enorme dos meus pensamentos: na verdade é dizer que você transita com uma impressionante velocidade entre os pensamentos que tenho. De repente, lá está você. Muitas das vezes apenas sentada em uma cadeira no canto da cena a espiar o transcorrer das minhas ideias. Noutras vezes, enorme, sobre mim, num primeiríssimo plano que toma tudo o que vejo. Noutras ainda, sou eu quem procuro e você não estava, e assim você vem. Este presente que lhe entrego é na verdade apenas um pretexto para me dar e assim saber que de algum modo você também me tem. Boas festas.

2 de janeiro de 2026

O clique suave dos pingos me desperta. Parecem provocar minha atenção discretamente, como que só pra mim. Sentada aqui nesta mesa de pedra, vendo o chão de terra e escutando o farfalhar das árvores, sentindo a mudança do vento na pele, sei que a chuva se anuncia há algum tempo. Ignorei. Na verdade, não é que tenha ignorado, mas havia outras coisas a fazer. Eu corri contra o tempo, corri contra a chuva, corri contra mim. Enquanto observava sem observar a chuva se aproximar, fiz outras coisas. Por isso perdi a chuva se aproximando, ainda que a soubesse. Diz que toda chuva começa assim, com certos sinais, certos cheiros, certo sussurro, certo presságio. Julguei que era mais uma daquelas que parece que vem mas não vem, vivi muitas. Mas afinal, agorinha, agora que a sinto mais próxima, mais presente, mais aqui, tão perto, agora que as árvores farfalham, que o chão de terra espera, que um som novo chega de mansinho, o cheiro toma conta de mim inteira e, entre ansiosa, assustada e desejosa, sei que vai chover em mim. Parte do pensamento se levantou e foi ter sob o alambrado de eternit, mas eu, inteiramente eu, estou ficando. Eu conheço esse pensamento que foi pra sob o alambrado. Não me admira tanto o ficar quanto me admira o escolher ficar. A única coisa que tenho-me admirado é o susto. A vaidade da chuva a faz esperar mais um pouco apenas para que eu saiba que estou ficando porque quero, pra que ela saiba que estou ficando porque quero. Querer, afinal, já fazia tempo. Em alguns momentos, até desaprendi. E ela então vem. A mim me agrada imaginar que ela poderia contornar onde estou, que poderia se deixar levar pelo vento, que poderia não se deixar levar pelo vento e parar onde está, que poderia nem ter vindo a me espiar, que poderia... Mas sou eu mesma que já não posso. Sou eu que espero. Sou eu que estou. Sou eu que, sentindo a chuva chegar, fiquei. Encontrei mil e um afazeres que me detivessem, inventando mil e uma distrações que me aceitassem, arranjando mil e um pensamentos necessários, mil e uma tarefas imprescindíveis, mil e uma precisões de estar aqui fora neste momento. E, ao estar e ao cheirá-la com a mesma certeza de quem vê, já quase não me assusto de não me assustar. Ao contrário, inspiro forte, como se pudesse aumentar a capacidade pulmonar nesse exato instante, e parece que inspiro com tudo de mim, estou toda na ponta do nariz, a esperá-la passar do cheiro ao toque, a procurar vê-la, a desejar molhar-me. E, realmente, quando sem deixar de escutar os pingos começo a senti-los na pele, quando arrepio, quando ouriço, quando inspiro, toda eu estou aqui, arrepiando, ouriçando e inspirando em toda presença, sem desejar, apenas sendo. Sendo o arrepio, o ouriço, a inspiração, a chuva, a pele, a terra, o vento, o cheiro, sendo, com tudo mais, eu.

11 de novembro de 2025

Um enorme fluxo de ideias se assoma, para todas as direções, como uma versão atualizada do meu antigo pega-varetas. Conquanto haja tantas possibilidades pelas beiradas de ir retirando pequenos contos, detalhes, tarefas, pensamentos, sentimentos e excessos do caminho, é exatamente ali no meio que se encontra a vareta que me atrai, que me fisga o canto do olhar distraindo a minha atenção plena. É esse jogo incrível de ver através, de ver partes, de ver nas sombras, de observar o emaranhado, que me absorve. Não adianta: desmontando o emaranhado, novo emaranhado surge. Não vê-lo seria, afinal, apenas mais um truque.  

[15/4/2025]

15 de julho de 2025

Em todos os lugares deixo rastros. Pingo. Rasgo. Escorro. É como um excesso, mas parece resultado de uma falta. Não sou eu que perco o olhar, o olhar é que me perde. Não é nem como se eu estivesse em outro lugar, é como se não estivesse em lugar nenhum: nem aqui nem lá. Nem indo, nem chegando. Como se a minha matéria fosse um fio de aranha, visível em alguns ângulos no seu encontro com a luz, sutil, suave, fugidia, imprecisa, mas pegajosa, grudenta, envolvente. À percepção desse fio quase invisível, demoro muito até pensar em segui-lo, em encontrar suas pontas, descobrir seus caminhos, gasto meu tempo em observá-lo, reconhecê-lo, em não duvidá-lo. Gasto meu tempo. O tempo me gasta. Mas esgasto-me na percepção. Não sigo adiante. Um pouco perplexa, um pouco paralisada, um pouco apática, um pouco esquecida. Engasto-me. Na rua, alguns gritos ecoam, parecem imensamente distantes. Barulhos comuns, dessa vida aí fora, motores, escapes, engenhocas, tarefas, chaves, talheres, porcelanas, máquinas de lavar, aspirar, passar, cortar, triturar, entreter. Alguns tiques do relógio chamam minha atenção, me trazem de volta, confundem a matéria do tempo, que não é matéria. O que é? Transcorre. Escorre, pinga, rasga. O que é? Não sei. 

13 de maio de 2025

Começo a escrever, anoto "Meu corpo existe"; de pronto ele se pronuncia, "Você existe". Remendo, "Eu existo", numa quase resignação que se não fossem as condições atuais me passaria direto pelo filtro dos automatismos. Vou saindo por todos os meus poros, e mesmo nesta revelação óbvia não me encontro, acho que é o corpo. Eu mesma estou tão interna que não chega a ser introspectiva, um pouco mais escondida, um pouco esquecida. Diarréias, vômitos, contrações, dores, espasmos, torcicolos, os meus sintomas de mim revelam um parasita estranho que não poderia ser menos material: o meu sumiço de mim. Se antes o tempo não se preocupava comigo enquanto eu demorava a encontrar as pepitas das respostas que vasculhava, é porque sabia que de todo modo na demora eu estava a procurá-las. Neste modo agora, não temos segurança. O silêcio das minhas buscas confundiu o objeto final. E o tempo, aperreado pelo seu próprio jeito – que não pode parar, se viu resoluto a arrastar-me de volta, e como em mágica trouxe nas formas mais visíveis e pessoais a minha loucura silenciosa de deixar-me passar. Tanta observação da vida ao redor deixou de ser observação para ser passividade.

Eu existo. Em vômitos, diarréias, dores, torcicolos, espasmos, contrações espremo como numa parição aquilo que me angustia. Não tem mistério o que me angustia, não é desconhecido. Não tenho pressa com minhas respostas, quero apenas que me deixem em paz, a seguir o meu curso sem aperreio, a decidir meus caminhos sem insinuações, abro mão das companhias se forem a me embaralhar a solução... Quero calma. Muita, muita, muita calma. Evito todo modo de conflito, estou profundamente concentrada em mim mesma, tenho respostas centrais que preciso investigar.

04/12/2014

26 de abril de 2025


Não tem jeito. Algumas coisas é melhor deixar como são. Por mais que a saúde pareça o tesouro da vida, como o próprio ar a que se respira, ainda assim os entorpecentes são tão fundamentais quanto. O peso de haver alma exige entorpecentes. De repente em um sábado tranquilo, com sol, vento e passarinhos, aparece a alma. Plena, como lhe é tão próprio, de incertezas. Plena de mim. Como se esquiva desses ágeis pensamentos, velozes, pungentes, precisos? Como me protejo de mim, se aonde vou estou? Como fazer planos para o futuro se o presente já é tão incerto no que está sendo e no que poderia ser? A inconstância como condição demanda o ópio como opção. Demanda um olhar enviesado, torto. Demanda alguns excessos. Eu, se transbordo, que faço com o incontido, com o aflorado, com o exposto? Que faço comigo? O espectro de possibilidades é exatamente como um prisma, tudo é a mesma coisa, apenas mais visível. Tudo sendo, ao seu jeito, junto, bagunçado, confuso e um tanto quanto mágico, feérico. Que bagunça. Quantas ilusões deliciosas. "A vida é sonho". Eita, que zona. Escrever é um jeito de existir.

14 de abril de 2025

Entro na água. Um pouco das ideias cai com a corrente, vão descendo, escorrem. O peito produz um ritmo próprio em que se respira e se desprende. As mãos pulsam, um pouco desordeiras, reflexões sentimentais. Os pés submergem. O seu barulho entrando na cena parece que quer mesmo a minha atenção. Eu dou. Um cheiro quente, entre o inodoro e o inebriante, dá uma pancada – você de costas se preocupa apenas com a água que cai. Se molha. Eu me ocupo. E com o tempo percebo com muita sutileza uma camada de consciência sua que sente, que está ali, que aguarda. E nesse súbito, em um qualquer sobressalto entre o banho e o fôlego, você esbarra o ombro no meu rosto de um jeito ocasional que quase passaria por descuido. Eu cheiro, e você permite.

6 de novembro de 2023

Acabei de chegar. Dois ou três volumes eu apoiei pelos móveis e o chão, olhando bastante o seu jeito de organizar as coisas e que coisas são essas. Acho engraçado as escolhas de textura que você faz, me agradam muito mais do que imaginei. De vez em quando eu imagino mesmo à toa umas outras situações que você nem imagina. Então ao chegar e colocar os volumes pelos móveis e o chão e rapidamente espiar os arredores, percebo que você já se sentou, em um banquinho conjurado do nada, e parece nem ter saído para me buscar. Mas eu entrei com tanto empuxo por aquela porta que eu tenho certeza que alguém me trouxe. O café está ótimo!, eu digo com a surpresa verdadeira de quem não conhece a sua medida. É ótima. A vista parece muito agradável em sua estética de vizinhança, com algumas árvores, inúmeros passantes e um tanto de carro como em todo lugar. E então, ainda com o copo na mão esquerda, um pouco absorta em tentar ler os nomes verticais dos livros, alguns de ponta-cabeça, me roça a mão direita algum susto. O toque é tão leve que a textura me fugiu. Ao descer a cabeça, eita, parece-me logo que o ar aqui embaixo é que está mais escasso. Nem lhe vejo, que com a ponta do nariz se encosta em algum lugar meu que não é nem maxilar, nem pescoço, nem orelha, mas algo como os três juntos. Não tenho muita certeza se seu objetivo é cheirar ou tocar, mas eu mesma não tenho mais muitos objetivos agora. Em pé, mas com um certo comichão na sola deles, de certo modo me parece que as pernas afrouxaram. Pode ser porque você é menor e seja eu tentando me encaixar na sua respirada. A grande questão é que nessas horas não se tem certeza de muita coisa. 

28 de outubro de 2023

Não há o que se possa dizer que seja seguro. Aqui na caminhada parece ter chegado o momento de apenas observar. Há, entretanto, um universo de coisas que vai acontecendo em silêncio, sem ser contido, sem se dar nota, sem fazer barulho, sem parecer existir. Por passar assim tanto tempo vivendo como se não vivesse, vai adquirindo suas idiossincrasias, fazendo da metade do caminho sua casa, acomodando-se nos dias, alojando-se nos espaços, percebendo-se como vulto nas esquinas, será que era a coisa? ou apenas algo que sugeriu que fosse, mas que talvez nem seja? Vai-se misturando. Acontecendo de alguma forma, embora pareça não acontecer. 

Com algum poder imprevisto, de alguma forma subterrânea, subcutânea, lá vai essa coisa crescendo. Não há como cercá-la, nem tampouco agora ela me respeita muito para que se deixe ser cercada. Eu também nem tenho mais argumentos para contê-la. Em alguns dias até tomamos café juntas. Certas vezes, quando acho que ela não está, de repente irrompe pela porta e se ocupa do sofá. Finge naturalidade. Ou eu finjo. Noutros dias, trabalho com ela ao lado; não se chama à atenção, até se poderia dizer que respeita a distribuição das horas, dos afazeres, mas permanece, ali está. Às vezes faz inclusive companhia no caminho de volta, evitando de algum modo que eu durma, que eu devaneie, que eu esqueça. E desse jeito que vai indo, vai indo.

29 de julho de 2022

Não tenho lá tanta certeza a ponto de dizer que o destino da caminhada, ou os mirantes, ou os pontos de descanso, ou a expectativa de fauna e flora estejam claros para mim. Uma segurança curiosa, entretanto, passeia ao meu lado e anda tão distraída que parece despreocupada com o que faço, as decisões que tomo nas bifurcações, trifurcações, quadrifurcações, os momentos em que paro a procurar a lua, o tempo que perco a escolher pedrinhas para levar comigo, que me encanto com uma planta que nunca vi, que fico lá com as mãos no solo tentando sentir e entender a terra, o tempo que invisto em descobrir a hora a partir do ângulo do sol, os momentos em que fico para trás para olhar esse bicho encantador que não é maior que a unha do meu mindinho... Mesmo ela também por vezes se atrasa e fica parada ao pé de uma árvore se refrescando na sombra, olhando galhos e folhas sem pressa alguma e só torna a me acompanhar quando já é um pontinho quase disfarçado na névoa do horizonte. Eu olho para trás muito (com frequência fingindo naturalidade), para ver se ela está lá. Ela está sempre – e às vezes quando me palpita não vê-la logo, de repente ela surge pela curva da estrada (ficou pra trás demais, mas está vindo) ou ouço um barulho de água e lá está ela de bunda de fora mijando numa planta e cutucando as pequenas coisas no chão acocorada. Parece muito despreocupada. Tenho dúvidas se ela sabe onde estou indo, se ela própria não tem opinião sobre o trajeto, se já conhece esse caminho ou se é ela própria quem precisa de companhia. De todo modo, embora não fale muito, tenho pra mim que está se divertindo.

3 de fevereiro de 2022

Como no início jogava muito e com vontade, pareceu a ele que continuaria a rolar os dados. E também tanta vocação tinha para a coisa que ele não pôde se preparar para que ela deixasse o tabuleiro. Ao sair, imaginou que voltaria em breve e assim, como não pudesse jogar os dados por ela, estabeleceu que a cada rodada ela andaria uma casa, o mínimo. Desse modo, alternava rodadas com a expectativa de seu retorno. Acontece que ele, jogando os dados – e com tanta imperícia –, caía nas tarefas mais ingratas e assim calhava de estar sempre atrás. Aquecia os dados nas mãos, cantava macumbas, fazia figas, jogava-os contra a parede para dar à sorte chance de demonstrar sua presença. Mas estava sempre atrás dela, que andava uma casa por vez, sem realmente andar. Comentava no início entre risos que não era possível!, era muita sorte na tranquilidade, muito talento estar na frente sem sequer se esforçar. Depois ficou calado durante um tempo, lhe magoava o moral aquela situação. Mais um pouco e tornou-se sarcástico, azedo. (Mas ela não tinha voltado ainda para perceber.) Depois apaziguou e manteve-se resoluto, determinado. Jogava o dado com fé. As horas passavam, o retorno não acontecia e por sorte o tabuleiro era imenso, daqueles que davam voltas e voltas até o quadrado final. Caía nas casas mais improváveis. Precisou conseguir o telefone de uma amiga; conseguiu. Precisou desenhar um plano infalível; desenhou. Precisou contar um segredo; contou. Precisou comprar flores no domingo às 21h; comprou. Precisou fazer amarração para o amor ou voltar cinco casas; voltou cinco casas, amarração para o amor não fazia de jeito nenhum – não era exatamente que não acreditasse na coisa: recusava-se a dar brecha a que o amor não fosse autêntico. Não queria ganhar o jogo a qualquer preço, queria ganhar o jogo no dado. As horas foram passando. Parecia-lhe que voltaria na hora mais inesperada – e mais certa, o acaso tem disso –, e quem sabe teria passado o tempo a pesquisar estratégias na internet sobre como vencer o jogo, como dobrar o tabuleiro, como viciar o dado, como distrair o oponente. Nada disso era realmente necessário, ela ainda estava na frente. A cada volta, caminhava uma casa e não estava presente sequer para mover o peão. Quando caiu na casa do telefone, já tinha. Quando caiu na casa do plano infalível, consensuou-se que já havia feito. Quando caiu na casa das flores, ele considerou realizado, por aquela situação da outra vez. Quando caiu na casa da amarração, ele fez por ela. Quando caiu na casa do segredo, não estava lá pra contar. De um em um, chegou ao fim do tabuleiro e ganhou, e foi assim que o jogo terminou. Mais desolado que indignado, ele respirou fundo e se levantou, com o peito erguido, passou por cima do tabuleiro e saiu sem arrumar nada. Meses depois, voltou para fechar a porta. Meses mais tarde, como o tabuleiro continuava no meio do cômodo e havia para o quarto outras funcionalidades que estavam sendo adiadas, abriu a porta. Encontrou as coisas como haviam ficado. Tudo tinha um cheiro familiar, de festa. Percebeu que tinha deixado uma latinha de cerveja pela metade e, pela aparência do cinzeiro, deixou também um cigarro aceso que se apagou por si próprio. Com a porta fechada, o cheiro apurou e ao abrir a porta a memória veio com tudo na cara. Tirou os lixos e fechou a porta de novo. Passou um ano e os planos para o quarto precisavam ser resolvidos. Passou um tempo decidindo-os, para poder ter clareza e fazer tudo com mais eficácia ao reabilitar o aposento, mas nessa preparação esqueceu-se de se preparar para o tabuleiro. Decidido, foi até lá e abriu a porta. O quarto, arrumadinho, tinha o tabuleiro num canto como se os jogadores tivessem apenas saído brevemente para usar o banheiro – e ele se perguntou se não tinha sido isso mesmo. Olhou durante um tempo, sem encontrar o sentimento. Agachou-se, olhou para os peões, as cartas, as tarefas ticadas dos bloquinhos. Deu um muxoxo entre o riso e o deboche. Pegou os dados na mão. Palma contra palma, esfregou durante um tempo enquanto olhava a cena. Então pegou a caixa ao lado, colocou os dados no lugar, juntou as cartas, reembaralhou e guardou, reuniu de uma mãozada só o peões e colocou cada um em um buraco diferente, de lados opostos, passou uma mão pelo tabuleiro como se tirasse o pó, dobrou e encaixou. O bloquinho ele pegou e deu uma olhada, sem muita emoção. Ficou olhando; arrancou as duas folhas usadas, colocou o resto do bloco no lugar dele. Então levantou a estrutura plástica interna da caixa que organizava as partes do jogo, colocou as duas folhas no fundo, repôs a parte plástica e fechou o jogo. Não fazia mais a menor ideia do que faria com o quarto, mas deixou a porta aberta.

30 de janeiro de 2022

Nada se passa. Embora sejam duas da manhã e o sono lhe tenha escapado com frequência nos últimos dias, nada se passa. Não tem pesadelos, nem preocupações. Não lhe vêm más memórias, nem excesso de planos. Sente uma certa azia, mas lhe parece que o que a mantém acordada altas horas é a luz da janela dos vizinhos. Dorme e, ao acordar para qualquer mijada noturna, agarra-se numa luz. Existe uma força de atração em imaginar o que eles fazem, o que faria se fosse eles e o que faria com eles. Por vezes enquanto mija escuta certos barulhos que lhe parecem sussurros e muito frequentemente gemidos, mas ao segurar o xixi para escutar, emudecem. Às vezes ainda o acendedor do fogão ressoa em algum apartamento, e lá vai ela variar a pensar quem cozinharia a essa hora, por que e o que. Imagina a cena da cozinha. Resgata alguém do passado remoto e coloca na cozinha e finaliza aquela conversa de anos atrás em que faltou dizer. Ou o passeante noturno que leva o cachorro para passear às três da manhã – o pobre cachorro mal se aguenta em pé, a cada minuto quatro passos, para pra cheirar a planta e lá está há tanto tempo que acho que dormiu. Que imagina o passeante a olhar a lua, parado, como se esperasse o cachorro? O cheiro da dama-da-noite que exala de repente quando quase ninguém está ali pra sentir? Está ela, apoiada na janela, a sonhar na pele dos outros.

24 de janeiro de 2022

Julio caminha pela calçada, muito por hábito, mas em si parece que caminha no meio da rua, e isso lhe excita como se corresse perigo. Corre, mas não no meio da rua. Acende um cigarro, reflete ideias abstratas que são mais sensações. O hábito do cigarro não é mais o mesmo parceiro. Existe alguma memória antiga que se agarrou ao cigarro, um jeito de ser, a expectativa de um jeito de ser. Fuma como quem evita rememorar, mas rememora. Coça a barba com as unhas, escuta o barulho dentro da cabeça. Coçar é também um pouco sua forma de pensar; como se as ideias não corressem apenas quimicamente pelo cérebro, mas sobre os dedos, sob a pele. A garganta arranha na cura da semana passada, quando esteve irritada, como ele. Não devia ser somatização, porque ele ainda está irritado, ela não. O cigarro é como uma desculpa para a solidão, uma poesia para a solidão. Como se, na fumaça, se envolvesse algum mistério da vida que justificaria tamanha confusão. Não justifica. Desta vez, em diferença de outras, não há amantes errados, amigos distraídos, choques de personalidade, esquecimentos inconvenientes. Há Julio, que caminha na calçada como se caminhasse no meio da rua. Em algum lugar do seu metro e oitenta existe um grande buraco. Não tem bem certeza se vazio ou não, mas reconhece o buraco. Ali, onde ao menos ele está dentro, parece existir um certo ar suspenso, uma certa expectativa, uma certa fuligem, que sabe, que se deposita sem efetivamente se depositar, parece mesmo estar suspensa, porque lhe toca a pele e porque lhe pesa o ar. Não é bem que lhe pareça certo estar ali, mas está ali. Não é bem que lhe pareça desconhecida, mas também. Toma-lhe bem um buzinaço nos cornos agora, não tem certeza de que era pra si, mas o carro passou zunindo e pareceu-lhe que qualquer coisa foi dita pelas janelas. Olhou ao redor, e embora não tenha visto ninguém, no meio do movimento perdera um pouco a concentração. Essa fuligem suspensa, o que será. Respira fundo, como se tivesse os sentidos apurados o suficiente para lhe sentir pelas narinas o que a possa justificar, como se sondasse sua intimidade profunda, seu mistério, o fundo sensível do que ela significa. Mas não sentiu cheiro nenhum, a não ser do cigarro, nem sensibilidade nenhuma, a não ser talvez um excesso de fumaça represada. Soltou a baforada ou um certo ar de resignação. Fechou os olhos como que para concentrar-se naquela sensação subterrânea de alguma ideia brilhante que lhe aflorava, mas apenas simbolicamente, pois atravessava a rua e não podia fechar os olhos. Também parado fechava pouco os olhos assim de forma literal porque tinha muitos conhecidos e podia ser que lhe encontrassem desse jeito meio pela metade e lhe era muito difícil responder com a metade socialmente conveniente – entre a auto-sabotagem e a busca de si, acabava começando conversas sinceras demais depois de um simples tudo bem. Coçou a barba no sentido do pomo de adão ao queixo, pensava ou sentia. No meio daquela poeirada toda suspensa, que lhe arrodeava o caminho e parecia deixar rastros do seu trajeto, discernia aqui e ali uma coisa antiga, como um pedaço de papel queimado quase todo, só deixando meia palavra e o resto da sugestão do que poderia ser, do que já foi. Preferia a palavra inteira, assim só meia poderia ser tanta coisa que era como se fosse todas elas. Sentiu qualquer coisa no pâncreas, ou no fígado, ou no estômago, não tinha bem certeza, não conhecia assim as vísceras. Mas a dor era sua, e vinha de dentro. Essa incerteza do fígado, do pâncreas, do estômago, da palavra, da fuligem, do buraco cheio ou vazio, muita coisa, em que ordem deveria começar a se preocupar não sabia. Mas esta memória que lhe agarrava as ideias, o cheiro do cigarro, a textura da poeira, o calor da buzina e os gritos da janela parecia, e era, conhecida. Não parecia tão estrangeira assim, como se já tivesse se insinuado antes, mas onde exatamente e quando e com quem ou sem ninguém. Sem ninguém. A coisa se insinuava por si. Sem ninguém mas através de alguém. Enquanto caminhava e respeitava as regras de trânsito, investigava sem investigar o buraco em que se encontrava. Este vazio sem forma, mas com conteúdo. Como um buraco negro, invisível e poderoso, atraente, magnânimo. E lá estava Julio, no meio da rua.

14 de junho de 2021

Enquanto eu deveria produzir tantos materiais, planos, estratégias, cronogramas, controles, tabelas, pareceres, você caminha pelos meus corredores. Eu não vejo, mas eu sinto. Inclusive em locais e horas inconvenientes em que deveria estar praticando a atenção plena em uma coisa completamente diferente do que nessa sensação que você me dá. Você passeia... textura delicada dos seus dedos, que por dentro inventam lugares novos, ideias improváveis, jeitos muito imprevisíveis de me trazer para onde você quer colocar. Você põe. 

Marcamos um encontro. Enquanto várias ideias precisam ser debatidas, analisadas, decididas, estou viajando em uma situação completamente diferente. Olho sem pressa o seu rosto, com muitos detalhes e pausas absurdas. Lá no fundo, você fala o que viemos discutir; parece, eu escuto. O meu prazer é o seu prazer, não assim desse jeito cafona, mas em testemunhar as suas reviradas de olhos, o desacerto da sua respiração, a denuncia implanejada do seu desejo. Você regula o suspiro, mas o peito sobe mais do que se fosse uma respirada comum. Confissões a contragosto. Fecho os olhos por um tempo que deve ter parecido longo, "e então?", você me resgata, digo que estou considerando tudo o que você me disse, mas respondo com o que pensei enquanto me detinha em imaginar uma outra circunstância... "parece ótimo". Por sorte, seu plano era ótimo mesmo, e posso manter essa ideia. Mas agora, debruçada de lado encostada no seu corpo, volto a olhar os detalhes do seu rosto. Os cabelos, os ossos da clavícula, algumas marcas. E pra baixo vejo em perspectiva o resto do seu corpo. Mas o que me interessa sumariamente é a sua cara. São os seus olhos. Seus trejeitos. As portas de entrada de você.

2 de abril de 2021

Dias horas e longos meses em mim. Não tenho vontade de escrever para não criar um monstro. Quem sabe tenha sido exatamente este leão à porta que me privou da metáfora sincera com que eu contaria de mim encenando filosofar sobre tudo. Apoderar-se de mim, longo esforço... É lógico que a paixão é um perigo ao trajeto; perigo maior são as várias. A vida segue mesmo entre paixão e paixão, e as vagas... Os entreatos descortinam o futuro dos embates, desafiadores duelos na busca do fim, fim este, qual será. Nosso destino comum, invariável, igualzinho, confunde-se na jornada, onde todos nós parecemos tão diferentes, e medrosos - este somos. Ao final, segue-nos restando mistérios sobre o amor e a amizade, embora pareçam sempre tão familiares.


maio 2018