"Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias." F. Pessoa
6 de novembro de 2017
Quanto mais te desentendo, mais sou provocada a te entender. Não pode ser, na minha mente, que o caminho tortuoso até você o seja até o fim dos tempos, não pode ser que você não simplifique. Mesmo sob os riscos iminentes do meu desejo, e mesmo que sob ele você esteja quase sempre rendido, não facilitas.
3 de outubro de 2017
Com medo por você escondi todos os contos. Imaginando seu sofrimento, sofri os meus inevitáveis desejos três vezes, no sentir, no escrever, no esconder. Em mim, mil portas enterraram mil estórias, vontades sempre breves, sempre eternas, de ser mais eu, sempre eu e ainda eu. Vontades de com você ainda ser eu. Medo por você, com você, de ser coisas que podem magoar e ofender, já sendo. Então resoluta, serei. De algum modo, sozinha finalmente mais uma vez, ser inteira, nos pedaços vividos e nos pedaços escritos, ser livre sem a ilusão de que ser presa liberta. Enfim, com você sempre nova, cada vez mais dentro da inevitabilidade de ser, cada vez mais dentro da vontade de estar, cada vez mais dentro... poder estar fora, sonhando as minhas verdades, sonhando as minhas mentiras, sonhando, sendo tudo a todo o momento, sendo apenas eu e o mundo inteiro que se encontra nas palavras que junto das palavras que me juntam.
Para me conhecer sem me desnudar, dou nó nas ideias com palavras que podem sempre significar duas coisas. Esvaio essa reunião de coisas confusas, emaranhados que parecem sentimentos, mas que são mais palavras. Estou em desencontro com a poesia... com a prosa, que é mais meu jeito.
O tempo passou. A sua memória tem um sabor louco, embora hoje seja menos viva que o sabor esquisito da comida que preparei outro dia. A vida seguiu seu destino, tão longe de você, coisa que pude aceitar apenas agora que o seu gosto já faz parte de um outro momento, de outros desejos, de outras possibilidades. Ainda você continua uma desconhecida dentre tantas, embora tão familiar aos meus sentidos. Eu continuo uma desconhecida dentre tantas, embora parecia ter estado tão perto, quase íntima, por momentos curtíssimos. Estranha sensação de tocar sem sentir, de viver sem estar, de se dar sem ser recebida. Mas é simples o tempo caminhar e a vida se viver, sem recusas; essa impossibilidade de recusar a realidade e continuar vivendo... O viver continuou até aqui, onde você foi transformada em lembrança e eu sou nova. Vou bem, bastante, reinventada de formas labirinticamente claras, embora ainda tentando entender se há outra maneira de ser plena que não envolva limitar-se. Conformada em amar o mistério e não estar jamais satisfeita, a alma aprende uma certa forma de ser sua própria, de si mesma, de ser ela, apenas ela, intransferível e no mais das vezes inexplicável. Os outros são cada vez mais os outros, as outras, enquanto entendo, com um certo esforço impreciso, que sempre serão os outros, as outras. Amar segue constantemente adquirindo novas roupagens que, quanto mais atualizadas, mais significam estar nua. O emaranhado de palavras e sentimentos é meu jeito de ser.
27 de julho de 2017
Engatinha, sobre mim, a extensão da sua vontade. Nem imagino o que vem ao meu encontro. Não consigo imaginar nada. Ela vem, gigante, sobre mim, e eu lambo o seu desejo por todos os lados. Ela me procura, olha, investiga, metade interessada no que está por vir, metade entregue, e curiosa. Molha-se toda, em mim, sem mim, mal me vê; olha-me, contudo, se vendo em prazer, inventando mil e um acontecimentos para os segundos seguintes, enquanto sobe, monta, lentamente, em mim. Em mim, a curva imensa de um quadril se assoma, o formato inteiro da minha culpa, mulher morena vingativa do meu querer.
Entrou sem mistério pela porta, em uma conversa besta, descompromissada, propostas. Olho-a, não vejo nada do que acontece. Estou retomando as mil e uma criatividades que tive com ela gemendo, com ela se arrastando em mim, ideias soltas que tive em uma fila, uma parada de ônibus, no self-service, no tropeço no meio da rua, na sombra quente deste dia frio. Ela, na minha frente, segue inventando muitas palavras e a sua boca se mexe como a minha, como são parecidas, o seu queixo tem um vinco contra o qual pressiono meu vinco. Embora ela saiba e não diga, e em breve vá chamar minha atenção, não sei qual assunto ela elabora neste momento. E então, concluindo seu monólogo, encosta com a suspiração dos dedos a pele do meu braço, chuta a ponta do meu pé esquerdo e se espreme entre as minhas quatro paredes - parece que não vai caber no hall da sala. Os quadros todos despencam gradual e coletivamente, tudo dela vira o buraco negro do olho, no qual me perco, e só desperto muito depois sem me lembrar de nada, e esta memória abstrata me encontra de súbito na fila do ônibus a confundir-me se é apenas mais uma imaginação.
27 de maio de 2017
Não sei o que dizer. A calmaria não vem. O imenso espaço deste vazio construído na sua presença se mantém vivo mesmo quando você não está. A presença do nosso relacionamento é a ausência de uma porção de satisfações que hoje julgo secundárias. Vazios largos por partes de mim estão estarrecidos neste silêncio com o qual não há o que fazer. Esta solidão escolhida apenas torna claro tudo o que varri para longe durante a sua presença oca. E agora, nos desejos que para você são sempre os mesmos, as distrações de amigos e entorpecentes será suficiente para o fim da tarde, o início do dia de amanhã. Amanhã, sem mais, fingindo que outro momento acontece, você aparecerá para o final de semana, novo, como se ontem fosse natural para mim também. Mas ontem, que acontece hoje, acontecerá muitas outras vezes. O meu desejo se vê excesso.
4 de outubro de 2016
Sentimentos mil, minha máquina, de escrever. A vida inventa sensações incríveis. Constrói teias, nutre rios que, quem diria! correm. Natureza complexa, esta floresta do viver entre os homens e entre as mulheres. Desejo caudaloso, trilhas.... profundos sentimentos, amores mil, liberdades, sonhos, rascunhos imensos de um gostar inocente, a vida a construir, imagine qual liberdade pode ser maior que amar? Paradoxo de viver.
Terreno triste, passante, força a viver. Borbulha, borbulha, borbulha. Um coração, muitos esforços e o desejo infinito de ser. Viver, solta, bicho, grande, amante de amante que ama viver. Amor, amar, fazer.
Vive sonho, vive vontade de fazer! Terreno grande, vasto encanto, desejo de ser. Poder de coração, amar viver; amar, de pouco em pouco, único jeito de sobreviver.
Terreno triste, passante, força a viver. Borbulha, borbulha, borbulha. Um coração, muitos esforços e o desejo infinito de ser. Viver, solta, bicho, grande, amante de amante que ama viver. Amor, amar, fazer.
Vive sonho, vive vontade de fazer! Terreno grande, vasto encanto, desejo de ser. Poder de coração, amar viver; amar, de pouco em pouco, único jeito de sobreviver.
23 de maio de 2016
Sonhar é um jeito... Tenho um vício, escandaloso, de desejo. Nada tem que ver com a paz, com o clima, com a estação, com os planos. Desejo simplesmente por existir. Nenhuma razão conduz à absoluta segurança de desejar; simples toque da vontade é como suor, que prega, que gela a pele na brisa mais breve, mais sem intenção... Desejo pelo desejar. Suspiro como uma regulação da respiração, do viver. Desejo, não nego, faço o que puder.
19 de outubro de 2015
O ponto de exclamação se encurva, e então lhe tiram a foto. Tanta posição para se tirar, estivera horas a imaginar se alguém lhe via esboçando as melhores posturas, os olhares mais misteriosos, os ares mais interessantes. E na exata hora que lhe solta o botão do meio da camisa, batem-lhe a foto. Viu o flash e, enfim, resignado com a sorte, esqueceu-lhe - motivo pouco para perder o dia. Passa-se um dia, dois, um terceiro, e como quem nada procura, depara-se com a foto. Vê-se, em total, uma interrogação. O olhar do outro congelou em dúvida a sua aparência. Olha-se então no espelho, investiga-se, tem a sensação de que continua o mesmo, mas a dúvida da forma se torna o conteúdo, e então a exclamação principia a duvidar. Reflete, no vazio, o quê. Busca intensamente o sentido. Não afirma, questiona. A dúvida da pertinência da dúvida absorve-a de tal maneira que a razão de ser da questão se torna metafísica, nada prática. Irrefreáveis jogos mentais; nunca, afinal, fora boa de questionar. Se não mudara na estrutura, isto estava concluído, como poderia uma exclamação se confundir com uma interrogação?! Confundia-se; e, ademais, lá estava a foto. A camisa, entretanto, continuava com o botão do meio, já fechado, bem posta em seu armário.
20 de julho de 2015
Acordo. Sinto o gosto inconfundível do seu sexo na minha língua, a ponto de confundir a clareza de que você não está. Vasculho os seus vícios pela casa, o café pronto, uma meia perdida, a roupa íntima na minha cama, não encontro nenhum. Estive transando a noite inteira com outras pessoas no meu sonho de ação, fuga e erotismo, e acordo com seu gosto - nada mais ridículo nem mais provocador para um desejo que só cresce. A julgar pela bagunça da casa, os amantes estiveram todos aqui.
25 de junho de 2015
O seu jeito revoluciona a minha mística; o meu silêncio você fala; as minhas expressões você engole. Em todo o meu corpo se revoluciona, parte essencial de mim, o meu frenesi infantil de desejos mil, os meus olhares inquietos que procuram nas ruas diariamente vazões, vontades, complementos fugazes da minha ambição plenamente vã, e pura. É puro o meu desejo total. Vício de vontade. Queima da combustão. Mas você entorta a minha ousadia, dobra minha fuga, afugenta minha distração. O mistério da sua sensibilidade confunde as minhas portas de saída, esgota a minha criatividade à toa a voar. Inteiro, um jeito liberto de não ter medo, um jeito calmo de não ter medo, quase uma resignação, mas uma intenção - muito clara, de mim. Nisso o meu fogo se canaliza, a minha distração desestabiliza e os sentidos se envolvem de você. Contra o mapa de orientação, mas plenamente a favor da bússola, o ponteiro treme enquanto acusa a sua direção.
30 de março de 2015
A sombra da sua forma, na curva escura da memória, é uma provocação irresistível. O mistério das suas horas é fonte de ilusão e do despertar da consciência irresponsável das minhas vontades vãs. Sou feita também de imaginação. Gosto, por ser, do desenho de desejos e confusões corporais maravilhosas, descomprometidas com o meu projeto de vida. Sou, dentre tudo isso, desejos de ser, brincadeiras de estar, vontades de novidades e de perigos mil. Riscos de vaidade, prazer de solidão no mar vasto do meu voluntarismo. Desejos à toa, para passar a hora da criatividade, para encontrar a volição da caneta, para ser, pode-se pensar, sem estar sendo... mas estar sendo por não pensar em ser. O caminho do ônibus, o chute de uma pedra na calçada, uma pessoa parecida, ou completamente diferente, uma chuva fora de hora ou muito menos que isso são convites de lirismo, com as personagens de sempre, para atiçar o ócio e os sentidos.
9 de dezembro de 2014
3 de dezembro de 2014
O amor me aconselha as maiores loucuras que sinto. Aconselha-me a visão mais nítida por cima da crista magnífica da onda da felicidade. Ousa-me a usar-me feliz, inteira, aventureira e louca, boba, envolvida em envolver-se ao redor da lua brilhante e solta, em meio aos teus versos ocasionais, às ocasiões reais, as lombadas mais gentis que a vida poderia se deixar dar. Sempre em majestosa forma, alterosa hora a de te ter em paz.
10 de novembro de 2014
Suspense nas águas do mar. Bóia subaquática a alga discreta; não flutua, mas bóia. Aguarda a indecisão do oceano; fecha os olhos a dominar a ausência de luz. Espera. Ofusca a expectativa necessária, será que algo virá? Vem a onda, como as outras, a questionar o espaço em si e a essência do movimento: de que difere a onda da ondulação do mar? Passa um saco plástico. Ou será uma água viva? Passa. À espera, um ponto de luz clareia: alguma coisa ao fundo repercute o mistério do sol - deve estar no raso. O raso chega. A areia não decide com a água, não decide com a pedra, não decide com concha, não decide com a caravela quem vai e quem fica. Por fim, a caravela envolvida na alga muda o propósito da alga.
23 de setembro de 2014
Na verdade, enquanto a água cai, o ralo se delicia ao cheiro da pele esquecida. O balanço dos dias encharca de cidade o corpo inevitável - só há esse. A ir ao mercado, a caminhar, a fazer deveres, a olhar a noite, a aprender a lua, a almoçar... O almoço executivo faz que valoriza a rotina vulgar - o nome exagera a pompa. O garçon agrada por haver decorado o cliente, o cliente se agrada com o garçon costumeiro - parece rotina de gente fina. No banho o ralo exala saudade de um suor mais apurado, uma dúvida mais cruel. Caem cabelos de já terem sido usados, não de estarem velhos. Funciona assim sempre. Este texto fala mais que a lembrança que o ralo sente.
26 de agosto de 2014
O meu mistério, hoje, não é mistério, mas ansiedade. A minha introspecção é vazio, não é dúvida. A minha dúvida é mistério universal. A filosofia dos meus dias domina o silêncio das minhas palavras. Digo, amo, faço, e me enrolo. Enredo-me em um algo invisível e incansável, presente nas minhas desatenções, evidente como a espiã da esquina, sorrateiro bandido amalucado. Sugerem-se ideias sem mãe, medos nas inconstâncias, alternâncias na estabilidade. Estabelece-se a transição. O vento confunde a onda, que quando vai olha pra trás; não vê nada, já que o mar é ela mesma e o céu é a imensidão. Não sabe entender que se busca, quer amarrar-se na linha do horizonte.
Não vislumbra o entendimento de que a água é turva, não está suja.
Não vislumbra o entendimento de que a água é turva, não está suja.
2 de julho de 2014
Põe-se em cheque, vulgariza-se, questiona o pensamento e ridiculariza a própria intenção. Marcos não se deixa quieto. Vê o tempo como um menino que aprende a caminhar, e na longa espera de seus passos inventa mil e uma razões a mil e um problemas novos. Pensa. Pensa. Pensa. Pensa. De saber-se ser humano acha natural tanto pensar, e acostuma-se no vício. Ignora seus efeitos, suas consequências, ignora a própria mudança de comportamento diante do que ali ainda não está: imagina o menino que caminha cair e exaltado pelo susto fictício acaba fazendo-o trupicar. Nunca espera, nunca silencia, nunca aguarda o que há de estar, mas inseguro fantasia sem se deixar respirar.
26 de junho de 2014
escrevia, continuamente maria escrevia aquilo que as mãos sabiam que tinha a dizer. E o que dizia era assim:
Maria muito reflete invigilante, sobre nada. Suas sensações reveladas, entretanto, confundem seus sentidos a ponto de imaginar que tudo pensa e planeja sobre aquilo que vive. Aquilo que vive, entretanto, está vivido, e ela sabe, e sente, e sobre tudo isto se cala solene em sua busca de si e de nada e de nada mais. Espera, ansiosa, o momento em que a espera haverá de transformar-se em uma grande volúpia ardente sem sentido e sem muitas soluções. O que lhe acontece, entretanto, mesmo quando é isso que lhe acontece, é reservado em algum canto que, de tão reservado, escanteia. Tudo isso faz-lhe muito bem. Doutra maneira, maria acabou por encontrar um romance com o qual o descompasso tão grande é que, na perda do passo, perdeu foi o seu. Desta forma, desconfia-se enamorada e não enamorada, desconfia-se aberta e fechada, interessada e não por este forasteiro que com muitas flores floreia seu caminho e tudo o mais quanto deseja dizer-lhe e fazer-lhe, mesmo quando seu pedido resume-se a que ela troque o rolo de papel higiênico. Maria, interessada, interesseira, confunde-se na estampa florida do papel higiênico. Por vezes acha que é romance, por outras, paciência, noutras vezes imagina curiosidade e quando demais se estima, piedade. Armou-se, de desarmada estar, em buscar companhias desafiadoras. Isto porque acredita que apenas o contato há de provar-lhe as suas ansiedades amorosas e as suas ousadias sentimentais. Por isto, lançando-se ao desconhecido, desconfia dever arriscar-se inda mais, a des-saber suas intenções e desejos, a afundar-se em mergulho turbulento de não entender, quando na verdade muito percebe as lacunas dançarinas que se lhe apresentam ao longo dos dias. Não sabe, entretanto, como a elas encantar. Oferece-lhes o costumeiro do romance de uma noite, cerveja, cigarros, sentimentalidades exageradas em frases impactantes, contudo permanecem perenes as lacunas, muito embora se possam enamorar entre um sopro e outro em um dia mais ou menos vulnerável. Maria segue, com buscas muitas que não pode enxergar, e perde-se em tentar encontrar-se. Tendo passado tempo demais sozinha, está com medo de descobrir, tendo já descoberto, que precisa de mais. Longa e difícil busca.
Maria muito reflete invigilante, sobre nada. Suas sensações reveladas, entretanto, confundem seus sentidos a ponto de imaginar que tudo pensa e planeja sobre aquilo que vive. Aquilo que vive, entretanto, está vivido, e ela sabe, e sente, e sobre tudo isto se cala solene em sua busca de si e de nada e de nada mais. Espera, ansiosa, o momento em que a espera haverá de transformar-se em uma grande volúpia ardente sem sentido e sem muitas soluções. O que lhe acontece, entretanto, mesmo quando é isso que lhe acontece, é reservado em algum canto que, de tão reservado, escanteia. Tudo isso faz-lhe muito bem. Doutra maneira, maria acabou por encontrar um romance com o qual o descompasso tão grande é que, na perda do passo, perdeu foi o seu. Desta forma, desconfia-se enamorada e não enamorada, desconfia-se aberta e fechada, interessada e não por este forasteiro que com muitas flores floreia seu caminho e tudo o mais quanto deseja dizer-lhe e fazer-lhe, mesmo quando seu pedido resume-se a que ela troque o rolo de papel higiênico. Maria, interessada, interesseira, confunde-se na estampa florida do papel higiênico. Por vezes acha que é romance, por outras, paciência, noutras vezes imagina curiosidade e quando demais se estima, piedade. Armou-se, de desarmada estar, em buscar companhias desafiadoras. Isto porque acredita que apenas o contato há de provar-lhe as suas ansiedades amorosas e as suas ousadias sentimentais. Por isto, lançando-se ao desconhecido, desconfia dever arriscar-se inda mais, a des-saber suas intenções e desejos, a afundar-se em mergulho turbulento de não entender, quando na verdade muito percebe as lacunas dançarinas que se lhe apresentam ao longo dos dias. Não sabe, entretanto, como a elas encantar. Oferece-lhes o costumeiro do romance de uma noite, cerveja, cigarros, sentimentalidades exageradas em frases impactantes, contudo permanecem perenes as lacunas, muito embora se possam enamorar entre um sopro e outro em um dia mais ou menos vulnerável. Maria segue, com buscas muitas que não pode enxergar, e perde-se em tentar encontrar-se. Tendo passado tempo demais sozinha, está com medo de descobrir, tendo já descoberto, que precisa de mais. Longa e difícil busca.
16 de junho de 2014
A panela no fogo mexe-se um pouco mais. Um rebuliço a percorre impreciso, um movimento inquestionável embora perceptivelmente invisível. A água sabe, eu sei; a panela é cobaia das nossas intenções trocadas. Eu não quero o que a água quer, tampouco ela tem interesse no que desejo: a mim interessa o efeito das suas transformações, e a ela o acontecer da mudança. Ninguém se fala pois não há necessidade, o contato está selado na simbiose dos desejos.
Este café tem um cheiro de quem está satisfeito.
Este café tem um cheiro de quem está satisfeito.
Deitava em mim. Fazia-me de apoio para obrigar o meu corpo a lhe dar carinho, a lhe querer, a lhe sentir, e assim ia acontecendo enquanto eu cedia ao formato do seu corpo, ao peso da sua intenção, ao cheiro do seu desejo e ao crescer da minha vontade de deixar despreocupados os efeitos. Tudo está sob meu controle. Os cálculos ligeiros das minhas reações são automatismos da minha defesa desavisada de que não estou ameaçada. Ameaço-me eu mesma, de desconhecer o querer, muito pouco entender o querer, e de machucar o outro o meu desconhecimento de mim. Acontece que eles, que elas, têm mais pressa em chegar a mim do que eu tenho, e assim encontram-me nas pontes que construo para minha própria compreensão, as pontes que construo para chegar aonde apenas suspeito que estou, a indicação da minha sensação de onde quero estar. E ao encontrarem-me aprecio sua companhia curiosa, o seu desejo voluntário, a sua sede vulnerável, a ansiedade do seu querer. E estou também, flutuando nas minhas disposições, esticando os meus limites, voluntariando a minha vontade um centímetro a mais a troco das maravilhas do amor. Arregaça-me o bem querer. Invade-me a vontade ardente. Enquanto não ardo, provoco a mim e, com mais sucesso, a outras que estão, que permanecem, que me puxam para fora. Mas o corpo protege a alma. Ou será a alma quem protege o corpo, a negar-me a mim o desejo, o toque e a confiança no jeito sincero com que as partes de mim se sentem? O que será que está ali no lugar exato do não e do jeito seguro com que paro a caminhada, com que volto para casa, com que fala o meu silêncio? O mundo gira em uma inércia mais veloz do que a minha rapidez. Eu sou lenta e assim gosto, assim entendo o tempo que também se estica a me entender. Tocamo-nos o tempo e eu, nos últimos tempos, com tanta carícia e tanta afeição, com tanto respiro e com tanta disposição a estarmos juntos o quanto a vida seguir. Sigo o tempo que me segue. Segue o tempo em que eu sinto o meu tempo de sentir.
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